26/07/10

Homossexualidade e outros pecados


Texto de Rubem Alves

Cristãos Fundamentalistas são os que acreditam que as sagradas escrituras foram ditadas diretamente por Deus e que, por isso, tudo o que nelas está escrito é sagrado, verdadeiro e deve ser obrigatoriamente obedecido para sempre. A verdade divina está fora do tempo. Aquilo que Deus comandava há 3.000 anos é válido para hoje e para todos os tempos futuros.
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Digo isso a propósito de uma carta dirigida a Laura Schlessinger, conhecida locutora de rádio nos Estados Unidos que tem um desses programas interativos que dá respostas e conselhos aos ouvintes que a chamam ao telefone. Recentemente, perguntada sobre a homossexualidade, a locutora disse que se trata de uma abominação, pois assim a Bíblia o afirma no livro de Levítico 18:22. Um ouvinte escreveu-lhe então uma carta que vou transcrever:
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'Querida doutora Laura, muito obrigado por se esforçar tanto pra educar as pessoas segundo a lei de Deus. (...) Mas, de qualquer forma, necessito de alguns conselhos adicionais de sua parte a respeito de outras leis bíblicas e sobre a forma de cumpri-las: gostaria de vender minha filha como serva, tal como o indica o livro de Êxodo 21:7. Nos tempos em que vivemos, na sua opinião, qual seria o preço adequado?

O livro de Levítico 25:44 estabelece que posso possuir escravos, tanto homens quanto mulheres, desde que não sejam adquiridos de países vizinhos. Um amigo meu afirma que isso só se aplica aos mexicanos, mas não aos canadenses. Será que a senhora poderia esclarecer esse ponto? Por que não posso possuir canadenses?

Sei que não estou autorizado a ter qualquer contato com mulher alguma no seu período de impureza menstrual (Levítico 18:19, 20:18 etc.).O problema que se me coloca é o seguinte: como posso saber se as mulheres estão menstruadas ou não? Tenho tentado perguntar-lhes, mas muitas mulheres são tímidas e outras se sentem ofendidas.
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Tenho um vizinho que insiste em trabalhar no sábado. O livro de Êxodo 35:2 claramente estabelece que quem trabalha aos sábados deve receber a pena de morte. Isso quer dizer que eu, pessoalmente, sou obrigado a matá-lo? Será que a senhora poderia, de alguma maneira, aliviar-me dessa obrigação aborrecida?

No livro de Levítico 21:18-21 está estabelecido que uma pessoa não pode se aproximar do altar de Deus se tiver algum defeito na vista. Preciso confessar que eu preciso de óculos para ver. Minha acuidade visual tem de ser 100% para que eu me aproxime do altar de Deus?

Eu sei, graças a Levítico 11:6-8, que quem tocar a pele de um porco morto fica impuro. Acontece que adoro jogar futebol americano, cujas bolas são feitas de pele de porco. Será que me será permitido continuar a jogar futebol americano se usar luvas?

Meu tio tem um sítio. Deixa de cumprir o que diz Levítico 19:19, pois que planta dois tipos diferentes de semente ao mesmo campo, e também deixa de cumprir a sua mulher, que usa roupas de dois tecidos diferentes - a saber, algodão e poliéster. Será que é necessário levar a cabo o complicado procedimento de reunir todas as pessoas da vila para apedrejá-la? Não poderíamos queimá-la numa reunião privada?

Sei que a senhora estudou esses assuntos com grande profundidade de forma que confio plenamente na sua ajuda. Obrigado de novo por recordar-nos que a palavra de Deus é eterna e imutável'.

(Folha de São Paulo, 30/09/08)

22/07/10

A geração tolerância

Reportagem de Silvia Rogar e Marcelo Bortoloti (Veja - Edição 2164 -12/05/10)

Os adolescentes e jovens brasileiros começam a vencer o arraigado preconceito contra os homossexuais, e nunca foi tão natural ser diferente quanto agora. É uma conquista da juventude que deveria servir de lição para muitos adultos

UMA TURMA COLORIDA


Paulo, William, Marcus, David, Charles, Akira, Jefferson (de pé, da esq. para a dir.); e Harumi e Daniele (sentadas): eles abriram o jogo para os pais ainda na adolescência

Longe do estereótipo

"Sempre tive atração por meninas, só que morria de vergonha de me aproximar delas e revelar o que sentia. Precisei de alguns anos para aceitar, eu mesma, a ideia. Foi na internet que consegui arranjar a primeira namorada. Quando a coisa ficou séria e eu quis levá-la a minha casa, contei a meus pais, que, como era esperado, sofreram. Meus amigos também já sabem que sou homossexual. No começo, estranharam. Nunca me enquadrei no estereótipo da menina gay, masculinizada, mas não tenho dúvida quanto à minha opção. O melhor: depois de um processo difícil, isso acabou se tornando natural para mim e para todos à minha volta."
Harumi Nakasone, 20 anos, estudante de artes visuais em Campinas

Apresentar boletim escolar com notas ruins, bater o carro novo da casa, arrumar inimizade com o vizinho já são situações difíceis de enfrentar diante do tribunal familiar, com aquela atemorizante combinação de intimidade com autoridade dos pais. Imagine parar ali diante deles e dizer a frase: "Eu sou gay". Não é fácil para quem fala, menos ainda para quem ouve. As mães se assustam, mas logo o amor materno supera o choque do novo. Os pais demoram mais a metabolizar a novidade. A orientação sexual ainda é e vai ser por muito tempo uma questão complexa e tensa no seio das famílias. Isso muda muito lentamente. O que mudou muito rapidamente, porém, foi a maneira como a homossexualidade é encarada por adolescentes e jovens no Brasil. Declarar-se gay em uma turma ou no colégio de uma grande cidade brasileira deixou de ser uma condenação ao banimento ou às gozações eternas. A rapaziada está imprimindo um alto grau de tolerância a suas relações, a um ponto em que nada é mais feio do que demonstrar preconceito contra pessoas de raças, religiões ou orientações sexuais diferentes das da maioria.

Esses meninos e meninas estão desfrutando uma convivência mais leve justamente em uma fase da vida de muitas incertezas, quando a aceitação pelos pares é decisiva para a saúde emocional e mental. Isso é um avanço notável. Por essa razão talvez, a idade em que um jovem acredita que definiu sua preferência sexual tem caído. Uma pesquisa feita pelas universidades estaduais do Rio de Janeiro (Uerj) e de Campinas (Unicamp) tem os números: aos 18 anos, 95% dos jovens já se declararam gays. A maior parte, aos 16. Na geração exatamente anterior, a revelação pública da homossexualidade ocorria em torno dos 21 anos, de acordo com a maior compilação de estudos já feita sobre o assunto. À frente do levantamento, o psicólogo americano Ritch Savin-Williams, autor do livro The New Gay Teenager (O Novo Adolescente Gay), resumiu a VEJA: "O peso de sair do armário já não existe para os jovens gays do Ocidente: tornou-se natural".

A mãe torce para que ele ache um bom companheiro


"Aos 16 anos, quando contei à minha mãe que preferia os homens às mulheres, ela ficou possuída de raiva. Eu achava que a notícia não causaria tanta comoção. Não havia aberto o jogo sobre minha sexualidade, mas tinha certeza de que minha mãe já desconfiava. Nunca levava garotas em casa nem falava delas. O dia em que contei tudo, no entanto, foi um divisor de águas para nós dois. A relação ficou muito tensa. É interessante como a coisa, depois, vai sendo assimilada. Ela abandonou o sonho de me ver chefe de uma família tradicional e, no lugar disso, passou a sonhar com um bom companheiro para mim. Isso ainda não aconteceu. Hoje, no entanto, minha vida é ótima. Não escondo das pessoas de que mais gosto o que realmente sou."
Gabriel Taverna, 19 anos, estudante de São Paulo

Os jovens que aparecem nas páginas desta reportagem, que em nenhum instante cogitaram esconder o nome ou o rosto, são o retrato de uma geração para a qual não faz mais sentido enfurnar-se em boates GLS (sigla para gays, lésbicas e simpatizantes) - muito menos juntar-se a organizações de defesa de uma causa que, na realidade, não veem mais como sua. Na última parada gay de São Paulo, a maior do mundo, a esmagadora maioria dos participantes até 18 anos diz estar ali apenas para "se divertir e paquerar" (na faixa dos 30 o objetivo número 1 é "militar"). A questão central é que eles simplesmente deixaram de se entender como um grupo. São, sim, gays, mas essa é apenas uma de suas inúmeras singularidades - e não aquela que os define no mundo, como antes. Explica o sociólogo Carlos Martins: "Os jovens nunca se viram às voltas com tantas identidades. Para eles, ficar reafirmando o rótulo gay não só perdeu a razão de ser como soa antiquado". Ícone desses meninos e meninas, a cantora americana Lady Gaga os fascina justamente por ser "difícil de definir o que ela é". São marcas de uma geração que, não há dúvida, é bem menos dada a estereótipos do que aquela que a precedeu. Diz, com a firmeza típica de seus pares, a estudante paulista Harumi Nakasone, 20 anos: "Nunca fiz o tipo masculino nem quis chocar ninguém com cenas de homossexualidade. Basta que esteja em paz e feliz com a minha opção".

Não era uma fase


"No início da adolescência, já me sentia atraída por meninas. Aluna de um colégio de freiras, havia crescido ouvindo que o amor entre pessoas do mesmo sexo era algo imperdoável, mas nunca vi a coisa assim. A mim, parecia natural. Aos 14, até tentei namorar um menino. Não funcionou. Um ano depois, quando me apaixonei de verdade por uma garota, resolvi contar a meus pais. Minha mãe repetia: ‘Calma que passa, é uma fase’. A aceitação da ideia é um processo lento, que envolve agressões de todos os lados e decepção. Sei que contrariei o sonho da minha família, de me ver de grinalda e com filhos, mas a melhor coisa que fiz para mim mesma foi ser verdadeira. Por que me sentir uma criminosa por algo que, afinal, diz respeito ao amor?"

Amanda Rodrigues, 18 anos, estudante de artes visuais no Rio de Janeiro

A tolerância às diferenças, antes verificada apenas no ambiente de vanguardas e nas rodas intelectuais e artísticas, está se tornando uma regra - especialmente entre os escolarizados das grandes cidades brasileiras. Uma comparação entre duas pesquisas nacionais, distantes quase duas décadas no tempo, dá uma ideia do avanço quanto à aceitação dos homossexuais no país. Em 1993, uma aferição do Ibope cravou um número assustador: quase 60% dos brasileiros assumiam, sem rodeios, rejeitar os gays. Hoje, o mesmo porcentual declara achar a homossexualidade "natural", segundo um novo levantamento com 1 500 adolescentes de onze regiões metropolitanas, encabeçado pelo instituto TNS Research International. O mesmo estudo dá outras mostras de como a maior parte dos jovens brasileiros já se conduz pela tolerância em vários campos: 89% acham que homens e mulheres têm exatamente os mesmos direitos e em torno de 80% se casariam com alguém de outra raça ou religião. "À medida que as pessoas se educam e se informam, a tendência é que se tornem também mais intransigentes com o preconceito e encarem as questões à luz de uma visão menos dogmática", diz a psicóloga Lulli Milman, da Uerj. Foi o que já ocorreu em países de alto IDH, como Holanda, Bélgica e Dinamarca. Lá, isso se refletiu em avanços na legislação: casamentos gays e adoção de crianças por parte desses casais são aceitos há anos. No Brasil, onde não há leis nacionais como essas, a apreciação fica sujeita a cada tribunal.

Ainda que o preconceito persista em alguns círculos, atingiu-se um estágio de evolução em que professá-lo se tornou um gesto condenável pela maioria - um sinal de progresso no Brasil. Nas Forças Armadas, onde a aversão a gays sempre se pronunciou em grau máximo (apesar de o regimento interno repudiar a perseguição aos homossexuais), a diferença é que, agora, quando surge um caso desses entre os muros do Exército, o assunto logo suscita indignação. Ocorreu com um general que, neste ano, veio a público posicionar-se contra a presença de gays nas Forças Armadas. Sob pressão, precisou retratar-se. Recentemente, o lutador de vale-tudo Marcelo Dourado, 38 anos, surgiu no programa Big Brother Brasil, da Rede Globo, dizendo que "homem hétero não pega aids". Além de uma bobagem, a declaração foi tachada de preconceituosa - e a Globo precisou ocupar seu horário nobre com as explicações do Ministério da Saúde sobre o tema. Mesmo que às vezes usados como bandeira por bandos de militantes paparicados por políticos em busca de votos, pode-se dizer que tais episódios apontam para uma direção positiva. Afirma o filósofo Roberto Romano: "A experiência mostra que o desconforto com o preconceito cria um ambiente propício para que ele vá sendo exterminado".

Assumidos, mas discretos


"Aos 15 anos, depois de alguns flertes com meninos e nenhuma relação com meninas, conheci meu atual namorado. Apaixonado e angustiado por viver escondido, achei que não havia outro caminho senão abrir a questão para os meus pais. Até hoje, não falamos muito sobre o assunto, mas eles já aceitam a situação, e até levo o Leandro para dormir lá em casa. Às vezes, andamos de mãos dadas, mas não trocamos beijos em público. Não preciso ficar expondo minha sexualidade. Prefiro as boates que meus amigos, gays ou não, frequentam ao circuito GLS."
Victor Guedes, 19 anos, produtor de moda (à esq.), com o namorado Luiz Leandro Caiafa, 20, estudante de ensino técnico no Rio de Janeiro

A notícia de que um filho é homossexual continua a causar a dor da decepção a pais e mães (descrita pela maioria dos ouvidos por VEJA como "a pior de toda a vida"). Com pavor de uma reação violenta do pai, meninos e meninas preferem, em geral, contar primeiro à mãe. "Quando meu filho me disse que gostava de meninos, sabia que os velhos sonhos teriam de ser substituídos por algo que eu não tinha a menor ideia do que seria", relata a analista financeira paulista Suerda Reder, 41 anos. É com o tempo que a vida vai sendo reconstruída sob novas expectativas. Dois anos depois da revelação, o namorado de Victor, filho de Suerda, frequenta sua casa sem que isso seja motivo de constrangimento. Muitos pais já compreendem (com algumas idas e vindas) que, ao apoiar os filhos, estão lhes prestando ajuda decisiva. "Quando a própria mãe trata o fato com naturalidade, a tendência é que o preconceito em relação a ele diminua", diz a estilista gaúcha Ana Maria Konrath, 55 anos, em coro com uma nova geração de mães - também mais tolerantes. O que elas sabem por experiência a ciência em parte já investigou. Segundo um estudo americano, conduzido pela Universidade Estadual de São Francisco, jovens gays que convivem em harmonia com os pais raramente sofrem de depressão, doença comum entre vítimas de preconceito.

"Nunca me escondi"


"Cheguei a beijar garotas, mas foi só quando troquei o primeiro beijo com um menino, aos 14 anos, que senti uma emoção real. Era tão claro para mim que resolvi contar a meus amigos mais próximos da escola que era gay. A princípio, eles estranharam. Cheguei a ser alvo de olhares tortos e gritos de ‘bicha’, mas logo passou. Quando contei a meus pais, no ano passado, eles no fundo já sabiam. Nunca me preocupei em levar garotas para casa só para me passar pelo que não era. Também não tenho necessidade de ficar me reafirmando gay na frente dos outros. Isso é bobo demais. Para mim, é só mais uma de minhas características."
Hector Gutierrez, 17 anos, estudante do 3º ano do ensino médio numa escola particular de Minas Gerais

Um conjunto de fatores ajuda a explicar o fato de a atual geração gay ser mais livre de amarras - alguns de ordem sociológica, outros culturais. Um ponto básico se deve à sua aceitação por outros adolescentes. Para esses jovens, o conceito de tribo perdeu o valor, como chamou atenção o antropólogo americano Ted Polhemus, por meio de suas pesquisas. Ele apelidou essa geração de "supermercado de estilos" - ou só "sem rótulos". Nesse contexto, não há mais lugar para algo como o grupo em que apenas ingressam os gays ou os negros, algo que as escolas brasileiras já ecoam. Antes fonte de tormento para alunos homossexuais, alvo de piadas, quando não de surras e linchamentos, o colégio se tornou um desses lugares onde, de modo geral, impera a boa convivência com os gays. Um sinal disso é que a ocorrência de casos de bullying por esse motivo tem caído gradativamente. "É também mais comum que eles andem de mãos dadas no recreio, sem ser importunados, ou que se tornem líderes de turma", conta a pedagoga Rita de Cássia, da Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro. Os próprios colégios reconhecem que, no passado, conduziam a questão à sombra de certo preconceito. "Se surgia um aluno gay, tratava-se imediatamente o assunto como um problema, e os pais eram logo chamados", lembra Vera Malato, orientadora no Colégio Bandeirantes, em São Paulo. "Hoje a postura é apenas dar orientação ao aluno se for preciso."

"Meus sonhos precisaram ser reconstruídos"


"Acho que toda mãe percebe, a contragosto e com dor, quando seu filho é gay. Sempre tive certeza disso em relação ao Igor, mas alimentava esperanças de que ele mudasse. Cheguei a rezar anos a fio por um milagre. No dia em que meu filho finalmente se abriu comigo, aos 17 anos, fiquei sem chão. Passado o choque, entendi que meus sonhos em relação a ele precisariam ser completamente reconstruídos. Não escondo mais de ninguém que meu filho é homossexual. Sinto que o fato de uma mãe tomar essa iniciativa ajuda a espantar o preconceito. Sempre que arranja um namorado, ele frequenta a minha casa e saímos juntos. Meu filho está feliz. Não é isso que todos nós buscamos?"
Ana Maria Konrath, 55 anos, estilista gaúcha, mãe de Igor Konrath, 20, estudante de comunicação social

Para boa parte dos jovens gays de hoje, a vida subterrânea nunca fez sentido. Diz o produtor de moda carioca Victor Guedes, 19 anos: "Desde que ficou claro para mim que meu interesse era pelo sexo masculino, não pensei em esconder isso dos meus pais. Só esperei a hora certa para abrir o jogo, com todo o tato". É gritante o contraste com as gerações anteriores, às quais lança luz o livro Cuidado! Seu Príncipe Pode Ser uma Cinderela (a ser lançado pela editora Best Seller), das jornalistas Consuelo Dieguez e Ticiana Azevedo. O conjunto de depoimentos ali reunido revela o sofrimento diário enfrentado por políticos, diplomatas e figurões do mercado financeiro que nunca saíram do armário.

Ele conta tudo no Twitter


"Solitário, aos 14 anos resolvi dividir com a minha irmã aquilo que já era muito claro para mim: gostava de meninos, e sabia que isso decepcionaria minha família. Ela chorou, disse que logo essa fase passaria, e o pior: contou para todo mundo. Minha família chegou a me encaminhar ao psicólogo. Depois, à igreja. Não foi fácil, mas o alívio de compartilhar a situação me transformou em outra pessoa. Pouco falo sobre meus namoros, e agiria da mesma forma se eles fossem com meninas. Fico, no entanto, bem à vontade para falar de minha vida amorosa no Twitter, no qual tenho mais de 1 700 seguidores. De onde menos se espera às vezes ainda vem uma agressão gratuita, mas a coisa está mudando para melhor."Lucas El-Osta, 17 anos, estudante do 2º ano do ensino médio no Rio de Janeiro

Ao longo da última década, a indústria do entretenimento tem refletido, de forma acentuada, as mudanças culturais em relação à sexualidade. Na televisão, nunca houve tantas séries retratando o universo gay. Entre as produções de maior sucesso, figuram o seriado americano Glee, que tem como um dos protagonistas um adolescente recém-assumido gay para o pai, e The L Word, sobre um grupo de lésbicas atraentes e chiques de Los Angeles. Nas novelas brasileiras, os homossexuais já não são mais tratados de maneira tão caricatural. "É possível exibir na TV a vida comum de casais gays sem que isso provoque a rejeição do público, como no passado. Hoje, esses personagens fazem o maior sucesso", analisa Manoel Carlos, autor da atual novela das 8, Viver a Vida. Isso não só ajuda a levantar o diálogo sobre a homossexualidade em casa como ainda minimiza a resistência a ela. O rol de celebridades que se assumem gays também cumpre, em certo grau, esse papel. O último a deixar o armário foi o cantor porto-riquenho Ricky Martin, autor do sucesso Livin’ la Vida Loca, que, aos 38 anos, declarou ser gay em tom profético: "Hoje aceito minha homossexualidade como um presente que a vida me deu".

A atual geração jamais espera tanto. A idade precoce com que os gays trazem à tona sua orientação sexual chama a atenção dos especialistas. Aos 16 anos, estão ainda na adolescência - uma fase de experimentação e dúvidas. Pondera a doutora em psicologia Ceres Araujo: "Esperar que essa escolha seja eterna para todos é uma simplificação. O que dá para afirmar é que esses jovens têm grande propensão de seguir se relacionando com pessoas do mesmo sexo". Para eles, a homossexualidade está longe de ter a conotação negativa de tantos outros períodos da história. Durante as trevas da Inquisição, arremessavam-se os gays à fogueira. Na Inglaterra do século XIX, eles eram considerados nada menos que criminosos. Em 1895, num dos mais famosos julgamentos de todos os tempos, o escritor irlandês Oscar Wilde, homossexual assumido, foi acusado de sodomia e comportamento indecente. Penou dois anos na prisão. Na Hollywood dos anos 50, o agente do galã Rock Hudson arranjou, às pressas, um casamento de fachada para o ator, com uma secretária. Às voltas com fofocas sobre sua homossexualidade, ele corria o risco de perder contratos. Só em 1985, aos 59 anos e vitimado pela aids, doença que o mataria naquele ano, Hudson se assumiu gay. Num cenário inteiramente diferente, os novos gays não precisam mais passar por esse tormento. Resume o estudante mineiro Hector Gutierrez, 17 anos - típico da geração tolerância: "O dia em que eu contei a verdade a todos foi o primeiro em que me senti realmente livre e feliz".

Recém-saídos do armário


Reprimidas durante anos, celebridades das mais diversas áreas resolveram vir a público nos últimos meses para assumir-se gays com estardalhaço: da esquerda para a direita, a cantora gospel Jennifer Knapp, o jogador de rúgbi galês Gareth Thomas e o cantor Ricky Martin.

16/07/10

Carta à mulher de um gay



Prezada... Como posso lhe chamar?

Você não me conhece, mas acompanhei um pouco a sua história. Confesso que fiquei intrigado. Sei que muitas mulheres namoram e se casam com homens homossexuais, mas geralmente as relações terminam quando elas se dão conta dessa realidade. Mas seu caso parece diferente. Você sabe de tudo e ainda assim continua com ele por algum motivo. Isso é tão curioso que me impulsionou a escrever. Por que você abriria mão da própria vida para fazer parte da farsa de outra pessoa? Estaria você também disfarçando algo de si? Qual o sentido dessa anulação? O que haveria em troca? São tantas perguntas...

Não se preocupe, pois não quero expor a sua intimidade. Sequer estou citando nomes. Estou aqui como um expectador de uma peça dramatúrgica – essa que você e o seu marido encenam todos os dias para a sociedade. A carta é uma espécie de crítica. Talvez minhas palavras tenham fundamento, talvez não. Por isso pontuo mais as perguntas que as afirmações. E a principal delas é a seguinte: por que essa “atriz” se contenta em ser coadjuvante de um filme canastrão se poderia ser a protagonista da própria vida? Será que não confia nas suas próprias potencialidades? Será que se apaixonou cegamente pelo ator que faz o “mocinho” e se submeteu a esse papel? Será que tem medo de perder a fama que conquistou com essa personagem?

Quanto ao seu marido, nada é mistério. Ele é um homem que se atrai por outros homens, mas não sabe lidar com os preconceitos e morre de medo de assumir sua condição. Então ele finge que é hétero para a sociedade, usando você como argumento e vivendo as relações com outros homens de forma clandestina, de maneira provavelmente promíscua, deteriorando pouco a pouco qualquer vestígio de dignidade. É um tipo muito comum, infelizmente. Mas quanto a você... ainda restam dúvidas. Qual seria sua motivação?

Há mulheres que se prestam a esse papel por vários motivos. Pode ser por interesse, em troca de conforto, dinheiro, status ou oportunidades. Pode ser por medo da solidão, por não encontrarem outros homens que as desejem ou amem de verdade. Por ingenuidade, acreditando que seu amor ou um milagre possam transformar esses gays em héteros. Por alienação, quando negam qualquer indício da homossexualidade de seus parceiros. Ou por conformismo, quando acham que deus ou o destino quis assim e pronto. Tudo bem triste, não é? Mas qual desses motivos seria o seu? Ou essas visões são simplórias demais?

Até concordo que essas motivações podem vir juntas ou que existam outras questões em jogo. Por exemplo, podem existir os filhos, gerados de forma natural ou com ajuda da medicina. Sim, às vezes a farsa vai tão longe que chega ao ponto de envolver outras pessoas, crianças inclusive, ingênuas dessa lama. Realmente é delicado. Imagine um filho descobrindo que foi gerado principalmente para ser o álibi de uma mentira? Praticamente um filho objeto! Por mais que seja amado, dificilmente acreditará em quem lhe nega uma verdade tão pontual. Ou será que ele seria enganado por toda vida? A propósito, e se esse filho também for homossexual? Pobre vítima. Provavelmente vai ter que lutar sozinho pela dignidade que não encontra em sua família. Ou pior, poderá seguir os passos dos pais, fingindo ser outra pessoa, perpetuando a farsa social. Tão retrógrado! Quanto mais retardamos a verdade, mais raízes crescem na mentira.

Sabe o que existe em comum entre o seu marido e os outros homens homossexuais que fingem ser héteros? Eles são covardes! Cederam ao medo e, não importa o que façam, continuarão se atraindo por homens. E sabe o que existe em comum entre você e as outras mulheres que aceitam o “compromisso” com esses homens? Vocês não têm amor próprio. Abriram mão da própria verdade. Abriram mão da plenitude. Abriram mão até da inteligência. Tudo isso em troca de quê? Conforto!? Status!? Segurança!? Imagem social!? De que vale tudo isso se você perde sua liberdade? Será que encarar a homossexualidade traria conseqüências tão mais graves que as geradas por essa mentira toda?

Essa peça que vocês encenam é muito antiquada e repetitiva, nunca vai convencer a todos. Sempre haverá alguém com acesso à coxia, alguém que os verá sem maquiagem. Que tal aproveitar o espelho do seu camarim e olhar um pouco para você mesma? Será que essa pessoa refletida não merece ser feliz de fato? Será que você não deveria abandonar esse drama inventado e viver a sua própria história? Talvez não seja aquela história dos seus sonhos, mas será a sua, real, melhor que uma farsa. Sempre é tempo...

Mas nada disso é da minha conta realmente. Talvez você prefira continuar assim, como sempre esteve. Talvez considere essa carta uma grande bobagem, sem o menor fundamento. Pode até achar que estou com inveja ou querendo ficar com seu marido. Ora, ora, seria até engraçado! Mas, não! Como poderia invejar você se sequer sei quem você é de fato? Da mesma forma, como poderia me atrair por seu marido?

Eu gosto de gente de verdade! E você?

Cordialmente,

Élio Farias 

13/07/10

Desdobramentos do assassinato do jovem Alexandre Thomé Ivo Rojão


Texto de Carlos Alexandre Neves Lima do site:
http://carlosalexlima.blogspot.com/

Aos poucos os fatos que culminaram no brutal assassinato de Alexandre Thomé Ivo Rojão vão se revelando. Conforme entrevista da mãe de Alexandre, D. Angélica, fica claro que seu filho estava num churrasco com amigos e que uma menina teria dito ser agredida por Jailson, um amigo de Alexandre, e que tal menina teria ligado para o primo (um dos acusados) que foi acompanhado pelos demais acusados a tal festa, partindo para a briga com o referido amigo de Alexandre.

Alexandre e o amigo foram à delegacia para registrar a ocorrência de tal agressão e, a partir daí, todos sabemos o que ocorreu. Segundo D. Angélica, a mãe de Alexandre, a menina foi a grande propulsora para o trágico fim que teve seu filho, nas mãos dos acusados:

Assista no vídeo abaixo toda entrevista de D. Angélica, mãe de Alexandre, e os esclarecimentos da polícia e as alegações da advogada dos acusados:
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O site “São Gonçalo On Line” revela que em depoimento prestado a delegacia, um dos acusados, Allan, sugeriu que o assassinato poderia ter sido praticado por Eric, afirmando que “Talvez ele tenha só tentado dar um pau nele e exagerou na dose”, relatou Allan, no depoimento:

"Em mais um desdobramento do crime que chocou São Gonçalo, o eletricista Allan Siqueira de Freitas, 22 anos, um dos suspeitos de ter assassinado o jovem Alexandre Thomé Ivo Rajão, 14 anos, tentou, em seu depoimento à polícia - ao qual O SÃO GONÇALO teve acesso, com exclusividade - incriminar o brigadista Eric Boa Hora De Bruim, 22 anos. Após confessar ter sido simpatizante do grupo skinhead na adolescência, e ter acompanhado a ideologia do grupo na internet, Allan contou aos policiais que o brigadista não tolerava os amigos de sua prima Meriam Chistyanne, dona da residência onde foi realizada a festa, que antecedeu o crime. Segundo o depoente, Eric não tolerava os amigos homossexuais da sua prima: “Eu acho que pode ter sido o Eric!(...)” “Talvez ele tenha só tentado dar um pau nele e exagerou na dose”, relatou Allan, no depoimento.

Eric, assim como o açougueiro André Luiz Marcoge da Cruz Souza, 23, negou a participação no crime. O brigadista disse, em depoimento, que estava em casa na hora que ocorreu o crime".
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A advogada dos acusados está tentando se valer da ausência da prova “real”, ou seja, a prova concreta que os acusados teriam praticado o crime, pois todos os fatos são meramente circunstanciais e também baseados num telefonema anônimo do disque denúncia.

Segundo consta no site Mundo Mais:
Na manhã desta quinta-feira, 24, familiares, amigos e a advogada dos acusados estiveram na delegacia para protestar contra a prisão. Segundo a advogada Kelli Vanessa, o eletricista Allan Freitas só foi tirar satisfações com a vítima porque sua irmã estava envolvida na discussão durante a festa. Ela alegou também que o cliente não tinha participação com grupos neonazistas ou de skinheads. “Ele disse que simpatizou quando adolescente com a filosofia skinhead, mas que foi uma coisa de adolescente”, disse a advogada. Sobre a denúncia que acusa os três suspeitos, a advogada disse que partiu de um “jovem com problemas psicológicos”.

É importante que quem conheça os fatos ou já tenha sofrido nas mãos desses skinheads denuncie a polícia o que souber. Hoje existe serviço de proteção a testemunha e é muito importante colaborar para que a justiça seja realmente feita.

Há referências na internet que a mãe de Alexandre, a princípio, teria negado que a orientação sexual do filho fosse homossexual. No entanto, o que se viu na sua entrevista no RJTV exibido no dia do sepultamento e no vídeo acima reproduzido não leva a esta conclusão. D. Angélica, tanto num quanto no outro, declarou que independia a orientação sexual do filho para que se fizesse justiça. Aliás, ressaltou que a orientação sexual era questão privada do filho.

Dentro do Movimento LGBT há informação que Alexandre participava ativamente pelos direitos LGBTs, inclusive, apesar da pouca idade, era integrante do grupo organizador da parada de São Gonçalo. Tem lógica, considerando que Alexandre e seu amigo foram a delegacia registrar ocorrência de agressão homofóbica sofrida por este.

O aludido grupo que Alexandre fazia parte, soltou uma nota, a qual parcialmente reproduzo:


MAIS UM GAY É ASSASSINADO EM SÃO GONÇALO VÍTIMA DA HOMOFOBIA!


O Grupo Gay Atitude amanheceu hoje com um companheiro a menos, triste com mais um episódio que se repete a cada dois dias em qualquer lugar deste pais. Na última segunda feira foi assassinado o jovem " Alexandre Ivo" companheiro de nosso grupo e colaborador da organização da Parada Gay 2010. ALÊ como era conhecido, foi espancado, vítima de terríveis atos de crueldade ... Em 2007 o grupo denunciou pela 2 vez a Polícia Civil ao Ministério Público- RJ, um material extraído do site de relacionamentos Orkut, contendo dezenas de comunidades contendo apologia fascista, orientando como abordar e agredir gays. " Não há dúvidas que a diversidade sexual vem sendo ameaçada na 2 maior cidade do Estado, é nessas horas que mostramos para a sociedade o nosso real compromisso em defesa da liberdade e dos direitos humanos. Não daremos trégua há quem quer que seja, enquanto estes monstros não forem identificados e punidos, exigimos que as autoridades cumpram o seu papel, definindo rigor neste triste caso" declarou Alexandre Costa, presidente Grupo LGBT Atitude. O crime chocou a cidade e por conta disso, um ato pela justiça, contra a homofobia e pela implantação da Delegacia Especializada LGBT será realizado neste domingo (27) a partir das 15 horas nas imediações da Praça Zé Garoto, no Centro. Uma bandeira preta de 30 metros será fixada nas grades da tradicional praça, havendo distribuição de fitas simbolizando luto pelo ocorrido. A manifestação contará com a presença de diversos líderes do movimento além de autoridades. Contamos desde já com a presença de todos para este importante ato em defesa da vida e contra qualquer forma de intolerância.

Grupo LGBT Atitude São Gonçalo-RJ
7861-7440 /ID: 83* 65215 /8428-9590
E-mail; ggasg@ig.com.br


O Grupo E-Jovem foi um dos primeiros a reagir e se pronunciar publicamente. Em nota encaminou protesto intitulado “Estão matando nossos jovens gays!”, lembrando que às vésperas da comemoração do Dia do Orgulho LGBT, a homofobia mata barbaramente um adolescente de 14 anos, encerrando a referida nota lembrando uma triste concidência: “A próxima segunda, 28, será o Dia do Orgulho LGBT. Será também o sétimo dia da morte do Ilê.”

A Presidente do Grupo Arco-Íris do Rio de Janeiro, Gilza Rodrigues, também imediatamente se comunicou com o detetive responsável pelo caso pedindo providências. No mesmo sentido se deu na reunião ocorrida do Conselho Estadual do RJ que luta pelos direitos LGBTs, tendo a SUPERDIR do Governo do Estado do Rio de Janeiro (órgão responsável no Governo do Estado pelos direitos LGBTs) já declarado que acompanhará todo processo de perto.

Da mesma forma, nosso decano do MLGBT, Luiz Mott, do Grupo Gay Bahia, mesmo estando na Colômbia, soube dos fatos e, por correspondência, solicitou a mobilização do Movimento.

Toni Reis, Presidente a ABGLT – Associação Brasileira de Gays, Lésbica, Bissexuais e Trangêneros deve em breve se manifestar e engrossar os protestos pelos fatos ocorridos com o Alexandre.

Como muito bem lembrado pelo Grupo E-Jovem, em 28 de junho, dia internacional que se comemora a rebelião ocorrida no bar Stonewall, marco do movimento homossexual, será também o sétimo dia da morte de Alexandre.

É importante a mobilização. A morte de Alexandre e o sofrimento de sua mãe não podem ser em vão. Alguma lição deve ser tomada de toda esta tragédia.

Mobilize-se, insurja-se sobre esta monstruosidade no orkut, facebook, blog, twitter ou qualquer outro meio que você possa utilizar.

Fontes do texto:
http://www.jornalsg.com.br/pol%C3%ADcia/2010/6/25/14056/%E2%80%98exagerou+na+dose%E2%80%99
http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/rj/policia-vai-ouvir-mais-uma-testemunha-da-morte-de-jovem-em-sao-goncalo/n1237679047434.html

Texto de CARLOS ALEXANDRE NEVES LIMA
NO BLOG: DIREITOS FUNDAMENTAIS LGBT
NO SITE: HTTP://CARLOSALEXLIMA.BLOGSPOT.COM/

10/07/10

Nunca vou defender os gays!!!




Em 1969, uma batida policial no bar Stonewall, frequentado por gays e lésbicas em Nova York, deu início à primeira grande manifestação pela liberdade gay no mundo. A prisão e o espancamento de várias pessoas levou cerca de dois mil manifestantes às ruas da cidade no dia 28 de junho daquele ano.

O tempo passou, as paradas tomaram o mundo e deixaram de destacar a liberdade para defender o orgulho. Mas quantos homens e mulheres homossexuais deixam de assumir claramente sua condição por não se identificarem com a chamada cultura gay? Quantos homens e mulheres gays que assumem sua condição publicamente contribuem de fato para a redução do preconceito por meio de suas demonstrações de orgulho?

Nos registros da imprensa, é gritante a diferença entre as atuais manifestações pelo mundo e as originais. Hoje, o que se divulga com destaque pelos meios de comunicação são essas gigantes massas de pessoas reunidas em torno de seres extravagantes, exaltando humor ou apelo sexual, fantasiados em arco-íris, num carnaval elogiado pelos seus benefícios comerciais. Equívoco da mídia ou realidade? Não sei. Não sou fã de aglomerações e por isso não posso julgar as paradas. Mas posso falar por mim e expor minha posição. Hoje, definitivamente, afirmo: nunca vou defender os gays! Acho inútil!

Mas calma, guardem as pedras verbais por um instante. Antes de condenar minha opinião, seria interessante ler meus argumentos até o fim. Isso é o mínimo que se espera de pessoas que se dizem contrárias ao preconceito: que só julguem depois de conhecer. Não é mesmo?

Vejamos! Quem nunca interagiu com algum homem gay ou mulher lésbica e pensou internamente: “mas que filho de uma p...!”? Pois é, há muitos desse tipo. Há de todo tipo. Bons e maus, decentes e indecentes, admiráveis e insuportáveis. Não dá para defini-los de uma maneira só. Mas quando alguém é chamado de gay, lésbica ou homossexual, não adianta, o senso comum já imagina uma série de outras coisas além da sexualidade. Já antecipa a índole da pessoa, seu gosto musical, seu jeito de falar, andar, vestir... é um inferno! É o tal preconceito em ação, criando um perfil antes mesmo do indivíduo se apresentar. E se o indivíduo não segue o estereótipo, não importa que diga “eu sou gay, eu sou gay” que certamente vai ouvir “Nossa, mas não parece!”.

Desde quando os homossexuais precisam necessariamente se parecer uns com os outros? Isso faz sentido? Eles se restringem a sua sexualidade? Evidente que não. Então como se pode julgá-los de uma mesma forma? E ao contrário, como se pode defendê-los? Não há como. Por mais que os termos (gay, lésbica, homossexual, bi) se refiram à sexualidade, o entendimento sempre será focado no indivíduo integral. Não podemos ignorar isso.

Não defendo os gays por isso, pelo mesmo motivo que não os posso condenar, porque são indivíduos diversos, independentes, com escolhas de vida, posturas, opiniões, sonhos e índoles diferentes. Se afirmamos que ninguém deve ser condenado simplesmente por ser homossexual, também não podemos absolver ninguém simplesmente por ser homossexual. A homossexualidade em si não torna ninguém bom nem mal. O que fazemos dela, a forma como a vivenciamos ou tratamos é que pode ser positiva ou negativa. Mas essa escolha sempre será individual, mesmo que condicionada ou baseada em pressões alheias.

Mas o que defendo afinal? Que devemos seguir nossas vidas e ignorar as agressões cometidas contra homossexuais? Claro que não. Posso ser gay, mas não sou maluco! O que defendo é uma mudança de foco. Não acho que o preconceito possa ser combatido com idéias igualmente pré-concebidas. Não posso sair dizendo que todos os gays são maravilhosos e dignos de respeito quando sei que muitos não são. Seja pela forma como conduzem sua sexualidade ou pela maneira como lidam com a verdade em suas vidas, muitos realmente não merecem o menor respeito. O que fazer então? Ora, vocês, eu não sei, mas eu quero muito retomar a motivação daqueles manifestantes de quatro décadas atrás. Não preciso propriamente expor meu orgulho gay, mas sem dúvida preciso defender que a homossexualidade seja vivida com liberdade, sem qualquer tipo de culpa ou medo.

Não defendo os gays, mas defendo a homossexualidade. Essa é a grande diferença. Defendo essa característica humana que torna os gays comuns uns aos outros, por mais diferentes que sejam. É a homossexualidade que merece justiça e o devido respeito. Ela sim é erroneamente compreendida, erroneamente tratada e alvo de inúmeros preconceitos, inclusive entre pessoas homossexuais. Ela jamais vai formatar a personalidade de quem a possui, mas existirá independente do que façam. A homossexualidade é um fato e contra fatos não há argumentos.

Vivida de maneira saudável, a homossexualidade nunca será negativa, pois compreende simplesmente o amor, o afeto e/ou a atração física entre pessoas do mesmo sexo. Se essas pessoas estão cientes do que fazem, se não foram obrigadas a isso, se não estão se agredindo ou agredindo a outras pessoas e se podem ser felizes assim, qual o problema? Quem haveria de ser contra? Deus? A Bíblia? Quem até hoje conseguiu provar, sem contestação, que essas condenações existem ou têm fundamento? Além disso, quem se acha tão importante a ponto de falar, decidir ou julgar em nome de Deus? Falemos por nós. Tenhamos coragem!

A homossexualidade em si não faz mal a ninguém e todos nós sabemos disso. A homossexualidade não é errada, não é anormal, não é doença, não é crime e também não deveria ser afirmada como pecado. O que destrói é o preconceito, que continua alimentando a ignorância, o deboche, a vergonha, o medo, a repressão, as agressões, a intolerância e a mentira. Quem é responsável por isso?

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06/07/10

O Novo Adolescente Gay


Autor: Deco Ribeiro

Jovens em todo o mundo estão assumindo sua homossexualidade muito mais cedo que há uma geração anterior. No Brasil, existe muito poucas pesquisas sobre esse assunto, mas é visível que o adolescente está redescobrindo a homossexualidade.

César, o caçula de dois irmãos, se lembra de que aos 12 anos de idade amarrava fitinhas de Nosso Senhor do Bonfim no pulso pedindo para deixar de ser gay. Mas ele sempre cortava a fitinha antes do tempo e cancelava o pedido. Seu amigo Alan comenta que aos nove anos começaram a surgir os xingamentos preconceituosos na escola "bicha", "viadinho", mas assume que nem sabia o que significavam. E não identificava os seus sentimentos com qualquer desses nomes. Para a menina Aira o problema era gostar de jogar futebol: às vezes chegava roxa em casa, depois de brigar com os garotos que implicavam por ela ser a única menina entre eles. As situações que César, Alan e Aira descrevem podem parecer familiares a muitos outros homossexuais.
E, para muita gente, seriam motivos mais que suficientes para que eles reprimissem sua sexualidade e passassem a viver no armário, certo? Errado. Pois os três ainda nem estão na faculdade mas já sabem o que vão ser quando crescer: gays e lésbicas. E não sentem necessidade de sofrer por causa disso. Quando perguntados se já ficaram com pessoas do sexo oposto, todos respondem que sim, mas porque achava que tinha de ficar, era o que todo mundo fazia, ficou por ficar só pra ver como era, foi pressionada ou era o que deveria ser. E mesmo esse tipo de comportamento não passou dos 15 anos. A partir do momento em que esses jovens entraram definitivamente na adolescência, a atração por pessoas do mesmo sexo falou mais alto a diferença é que eles escolheram viver isso plenamente.


A NOVA ONDA


E não estão sozinhos. Jovens em todo o mundo estão assumindo sua homossexualidade muito mais cedo que há uma geração atrás. Isso foi identificado no ano passado nos Estados Unidos pelo pesquisador Ritch Savin-Williams, autor do livro "The New Gay Teenager". Segundo ele, garotos já estão se dando conta de que são gays aos 12 anos e tendo seu primeiro contato sexual com alguém do mesmo sexo entre 14 e 16 anos exatamente como seus colegas héteros. A novidade é que muitos estão se assumindo antes mesmo de completar o ensino médio. No Brasil, existe muito poucas pesquisas sobre esse assunto. Mas para o sexólogo Cláudio Picazio, acostumado a lidar com adolescentes em seu consultório e a dar palestras em escolas sobre sexualidade, é visível que o adolescente está redescobrindo a homossexualidade.
Na pré-adolescência a criança fica confusa pois percebe uma atração, sente sensações boas, com ambos os sexos, ou até mais voltado a um deles, mas teme aquilo que começa a sentir. É na adolescência mesmo, quando o corpo fica pronto, que não dá mais pra segurar o desejo. Por que essa confusão inicial? Para o psicólogo, isso se dá graças ao papel da sociedade. Há uma desconstrução da homossexualidade, diz Picazio. Se o adolescente é afeminado, dizem que ele é homossexual. E ele já é discriminado por causa disso. E essa discriminação começa cada vez mais cedo.


MÁ EDUCAÇÃO


Segundo relatório de 2004 da UNESCO, órgão das Nações Unidas responsável pela educação, publicado no livro "Juventudes e Sexualidade", é preocupante o nível de homofobia nas escolas brasileiras. Foi verificado que de cada quatro alunos, um não gostaria de ter homossexuais como colegas de classe. Minoria, mas uma minoria barulhenta. O método mais comum de violências contra homossexuais nas escolas é a ofensa verbal, o xingamento, sempre com o intuito de humilhar, discriminar, ofender, ignorar, isolar, tiranizar e ameaçar. Mediando esse conflito, estão, na linha de frente, os professores. Mais atrás, orientadores pedagógicos, coordenadores e diretores.
A posição destes em relação à homossexualidade em sala de aula foi documentada pela UNESCO como sendo mais liberal que a dos alunos, de cada 100 professores, apenas 2 indicam que não gostariam de ter homossexuais como alunos. No entanto, a pesquisa aponta que, ao mesmo tempo em que isto é reconhecido, há uma tentativa de banalizar tal fato. Ou pela dificuldade em lidar com o assunto, ou fingindo que nada acontece e, assim, pelo silêncio, compactuando com a violência. Isso, claro, quando não são os próprios professores os agentes da agressão, fazendo piadinhas com homossexuais em sala de aula, por exemplo.
Esse preconceito por parte dos educadores é revelado quando perguntados se acham que homossexualidade é uma doença. De um mesmo grupo de 100 professores, 10 respondem afirmativamente. Isso mostra que a tolerância por parte de alguns professores com relação aos alunos gays e lésbicas é um tanto abstrata. Enquanto alguns jogam a culpa nas próprias vítimas, que tenderiam a se isolar em oposição a serem isolados pelos colegas, outros chegam a censurar o aluno homossexual, dizendo que ele não deve deixar transparecer que é gay. Em vista disso, é realmente de se espantar que os jovens estejam tendo coragem de se asumir cada vez mais cedo.



ALIADOS HÉTEROS


Marcos, um ator de teatro de 20 anos, não pensa duas vezes ao dar uma explicação para essa coragem. Não é que ser gay seja fácil. Só é mais fácil que antigamente, porque hoje em dia existem muitos héteros com a cabeça mais aberta para a homossexualidade. Sua amiga Maiara é uma delas. Eu acho os gays maravilhosos, são as melhores pessoas pra se ter como amigos, diz ela, heterossexual e simpatizante assumida. O que incomoda é a crítica das pessoas que têm preconceito, que te rotulam só porque você anda com um amigo gay.
Mas é porque elas não os conhecem. Para os dois amigos, o fato das pessoas estarem convivendo mais com a diversidade sexual vai, aos poucos, abrindo caminho para essa maior aceitação. E essa convivência se dá em diversas áreas. Adolescentes gays desse início de século aprenderam a escrever em e-mails, conversam por videofone no computador e estão acostumados às dezenas de canais das TVs a cabo. Eles se descobrem gays lado a lado das personagens lésbicas Clara e Rafaela, da novela Mulheres Apaixonadas, de Jenifer e Eleonora, de Senhora do Destino, ou do Júnior, de América. Assistindo a homossexualidade retratada em seriados populares como The O.C., Will and Grace e Queer Eye for the Straight Guy. Isso para não mencionar os altamente gays Queer As Folk (traduzido no Brasil como Os Assumidos) e o lésbico The L Word. No cinema, temos personagens gays simpáticos (que não são caricaturas humorísticas ou meros figurantes) desde Priscila, A Rainha do Deserto até Alexandre, o Grande com direito até a um dramalhão nos moldes tradicionais, com Brokeback Mountain. Personagens gays aparecem em video games, nos quadrinhos, nos jornais.
Antes, os únicos gays que tinham evidência eram os mais afeminados, diz Marcos. Agora, parece que até aqueles que não se entregam naturalmente estão escolhendo se assumir, pois sentem o ambiente mais tranquilo. Com voz grossa e sem trejeitos, ele mesmo não se encaixa no estereótipo padrão de homossexual. Algumas pessoas, como seus irmãos, tiveram de se esforçar para acreditar que ele pudesse ser gay. JOVENS COMUNS Os jovens gays de hoje não têm dúvidas: ser gay é sentir atração por alguém do mesmo sexo, mas, mais que isso, um desejo de ficar junto, embaixo do edredom, comendo pipoca e vendo filme de terror, de namorar, casar e ter filhos com alguém do mesmo sexo.
Uma coisa que revolta a ambos é todo mundo achar que homossexualidade tem a ver só com o ato sexual, só com sacanagem. Nada a ver. Eles lembram de quando ainda eram virgens e já sabiam que eram gays. Para eles, ser gay não é melhor nem pior do que não ser. Não estufam o peito e nem tentam se matar por causa disso. Eles se preocupam mais com a nota da última prova e com o horário determinado pela mãe para que voltem para casa do que com suas sexualidades. Como qualquer adolescente comum.
O pesquisador Ritch Savin-Williams termina seu livro sobre adolescentes gays com uma frase do estudante Andrew James, que escreveu um artigo intitulado "In Search of Ordinary Joes" (Em Busca dos Caras Comuns): Revelar perfis de homossexuais que são pessoas comuns pode não ser fabuloso, nem ser a última moda, mas acho que deveria ser a próxima onda do movimento gay.? Ele conclui dizendo que é errado afirmar que a adolescência gay é definida apenas por dor e sofrimento. Os que se comportam assim são uma minoria. A maioria é feliz, se acha normal e quer viver essa normalidade gay, lésbica, bi ou seja lá como essa sexualidade se apresenta.

Autor:
Deco Ribeiro

Recomendo a leitura do Blog: Segredos de um Adolescente Gay:
Muito sincero e real...
Postado por Leopoldo