11/02/11

"O Brasil continua com as mesmas taras de sempre", diz Xico Sá

Escrito por Vitor Angelo para o BLOGAY (FOLHA)

Xico Sá é o macho que o Brasil precisa. É urgente o país ter homens de sua qualidade, que se garantem, não no sentido da testosterona e da exaltação dos músculos, mas com a alma apaixonada verdadeiramente pelas mulheres. Mas seu amor louco pelo sexo feminino não o cega sobre o respeito que devemos ter por outras formas de amor. Não poderia ser outra pessoa, um libertário do século 19 com uma mente a frente do terceiro milênio para iluminar certas questões sobre os homens, os héteros, os gays, as transexuais e travestis

Blogay - Tanto eu como você elegemos o cartunista Laerte o homem do ano. Quais as suas razões?

Xico Sá - Mil razões: Desengaiolou geral essa questão de gênero como prisão solitária e Carandiru da existência, botou roupa de mulher e continuou desejando o que desejava – seja homem, seja mulher ou etc –, tirou onda dos caretas e “obrigou” agora o Adão [Iturrusgarai], o Caco [Galhardo] e o Angeli a serem mais machos ainda. Quem se habilita?

Recentemente escrevi aqui no blog que quem gosta de travesti e transexual é hétero (a grosso ui modo). Você concorda ou acha que é coisa de gay enrustido?

Quem gosta mais somos nós mesmos, os héteros, por fantasia e realidade. Mas, por favor, sem reserva de mercado. Sintam-se à vontade, mas a Lea T eu queria só pra mim, tenho ciúmes até do Herchcovitch que ela veste!!!

O ambiente de futebol já foi mais feliz e tolerante, famílias freqüentavam tranquilamente os estádios e não tinha muita violência, e teve até a Flagay uma época. Nos dias de hoje assistimos, por exemplo, um alto grau de intolerância como a torcida do São Paulo que há pouco tempo quando Richarlyson ainda pertencia ao time, era abertamente hostilizado por acreditarem que ele é gay (não vou entrar no mérito se ele é ou não). Por que o futebol brasileiro entrou nessa espécie de obscurantismo?

Reza a lenda que uma facção de torcedores do São Paulo ameaçou Richarlyson de morte. Se assumisse, no Fantástico, como estava previsto, que era gay, morreria. Não sei se procede 100%, mas duvido que não seja verdade. Pra variar, Hipocrisia Futebol Clube. Quem conhece minimamente o mundo do futebol, como o universo da igreja etc, sabe que nas categorias de base, os noviços, juvenis, os mais jovens, são assediados por técnicos, sacerdotes, padres, cartolas e jogadores mais velhos. Gays como em quaisquer outras profissões. Só que no futiba e na religião, os dois exemplos dados, os fanáticos não toleram, até porque têm no esporte e na divindade os escudos simbólicos, as barreiras instransponíveis de proteção ao desejo que um dia podem traí-los. Em bom futebolês de mesa redonda: quem tem cu tem medo.

O que na sua opinião um hétero pode ensinar a um gay e um gay pode ensinar a um hétero?

Ai está a chance da pedagogia dos oprimidos, como diria o gênio Paulo Freire, mas essa coisa de ensinar depende dos repertórios particularíssimos. Ninguém ensina nada a ninguém, a não ser na crença dos falsos manuais e nas revistas picaretas. Basta estar vivo e ter desejo, aí cada um escolhe como gozar melhor. Inclusive no troca-troca adolescente responsável pela iniciação sexual de muitos machos.

Existem muitas lendas em relação ao tal macho alfa, ele nunca olha o pau do outro no banheiro (não por desejo, mas por comparação), ele não sente prazer no ânus, ele é incapaz de ser fiel (nem que seja por uma semana). O macho alfa existe?

Isso é coisa de jornal, site, blog, revista ou coisa que a gente fala em programa de tevê para simplificar o mundo, reforçando todos os clichês e caricaturas necessários. Macho alfa? Apenas mais uma faixa de consumo, tanto quanto o metrossexualismo. Todo esse enquadramento de homem ou mulher, quando vira publicação ou rótulo, é para atender a uma demanda de negócio. Por isso, meu amigo, minha amiga, torne seu pau, seu cu ou sua buceta propriedades bem particulares. Ou dêem por desejo ou amor ou vendam MUITO, muito caro, caros!
O macho alfa é apenas um segmento de mercado, assim como o gay.
O macho alfa é o novo adolescente.

A Playboy acabou de declarar que não convidaria Ariadna (a BBB transex) para posar, porque diferente da época de Roberta Close, o Brasil vive outros tempos. O que mudou no Brasil de Roberta para o de Ariadna?

O Brasil continua com as mesmas taras de sempre, aliás, a Ariadna foi eliminada pelo tesão mal-resolvido, anfíbio e não-assumido. O transexual é uma unanimidade nada burra, caro titio Nelson Rodrigues, todo mundo deseja, mas ninguém segura a onda de pegar de verdade. Vejo como os taxistas e demais populares trincam os dentes de desejo quando passam diante dos travestis. Lembro também da Playboy encomendando texto ao Gilberto Freyre – e publicando com destaque – sobre a Roberta Close. O velho Giba, com quem tive o prazer de ter ótimas conversas fuleiras nos quintais de Apipucos, poderia até reclamar da magreza da Lea T, não-condizente com a mestiçagem, mas jamais faria esse discurso retrógado de não amar os trans-qualquer-coisa. Tô dentro.

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