10/06/11

O descompasso do preconceito - por Augusto Martins e Adaor Marcos de Oliveira

Escrito por Augusto Martins e Adaor Marcos de Oliveira no Facebook
(@_augustomartins & @ADAOR)

Certos olhares sobre o Congresso Nacional Brasileiro causam estranheza. É estranho, por exemplo, ver a denominada “bancada evangélica” esmiuçar a palavra pecado. Tais deputados têm sempre aquele discurso pronto, com “argumentos” de que alguns desses pecados abomináveis são cometidos por homossexuais, os grandes “responsáveis” pela degradação familiar.

Tamanha foi a insistência, que conseguiram distorcer o projeto do MEC (Ministério da Educação e Cultura) que distribuiria nas escolas públicas o kit “Escola Sem Homofobia”, fazendo com que sua confecção fosse interrompida.

Tais religiosos, sempre com seu dedo acusativo, apontam os erros alheios, mas fecham os olhos para os seus. São deputados que já foram investigados, processados, cassados, mas que insistem em posar de bons moços, classificando a homossexualidade como algo errado, contrário à vontade de Deus.

E foi assim que a presidente Dilma Rousseff, sob o argumento de que não aceita propaganda de opções sexuais, mandou cancelar a distribuição do kit. Como uma pessoa esclarecida, como a senhora presidente, ainda crê ser a homossexualidade uma opção? Isso é motivo para cancelar um programa de combate à discriminação?

Ninguém é ingênuo a ponto de levar tal argumento a sério. Todos nós sabemos que a interrupção do kit trata-se de uma atitude política. Para salvar seu Ministro da Casa da Civil de investigação, Dilma, como moeda de troca, deu à bancada evangélica aquilo que eles queriam. Assim, todos ficam contentes: o ministro não é investigado e os evangélicos podem comemorar sua vitória em “defesa da família”.

Dilma Rousseff foi eleita com a imagem de grande defensora dos Direitos Humanos, a mulher que bravamente lutou contra a ditadura militar. Mas bastou o primeiro sinal de crise política em seu governo para que certas causas de campanha caíssem por terra.

Claro que o governo possui pessoas decentes, como a Ministra Maria do Rosário. Ou mesmo o Congresso Nacional, que ainda tem alguns desbravadores da democracia, que legislam verdadeiramente em prol de causas justas, humanitárias, ambientais, que fogem ao “olhar para o próprio umbigo”.

Tudo isso faz com que lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros saiam de tal episódio com uma leve sensação de derrota. Mas como dizia o filósofo Edmund Burke: "Quem luta contra nós, reforça nossos nervos e aguça nossas habilidades. O nosso antagonista é quem mais nos ajuda."

E para apenas para informar aquilo que muitos ignoram, o projeto “Escola Sem Homofobia”, que seria oferecido às escolas, tem imprescindível papel de conscientização, e dá conta daquilo que de fato se propõe, que é o combate ao preconceito e à violência.

Uma pessoa não se tornará homossexual em virtude um filme educativo. Se fosse assim, nos tornaríamos corruptos assistindo a películas como Tropa de Elite, ou violentos ao ver clássicos como Apocalypse Now, ou, ainda, psicóticos, depois de assistir a Cisne Negro.

O kit anti-homofobia não vai ensinar ninguém a ser homossexual. Vai ensinar o significado da palavra RESPEITO, termo desconhecido por essas bancadas que dizem representar a vontade do povo.

A proposta do MEC é louvável. O Ministério da Educação só está fazendo o que é dever das famílias: educar as crianças.

A educação que vem de casa é a base, tem poder transformador, é vacina contra o preconceito e contra a intolerância.

E para a bancada evangélica, que insiste em legislar “em nome Deus”, se esquecendo da laicidade do Estado, deixo as palavras de Frei Betto: “Pecado é aceitar os mecanismos de exclusão e selecionar seres humanos por fatores biológicos, raciais, étnicos ou sexuais. Todos são filhos amados por Deus. Todos têm como vocação essencial amar e ser amados. A lei é feita para a pessoa, insiste Jesus, e não a pessoa para a lei"

2 comentários:

Marquinhos disse...

Assino embaixo de cada palavra. O Homosexulaismo não é uma opção e sim uma condição. E pecado não é amar o mesmo corpo e sim, roubar, enganar, matar. Respeito é uma palavra simples e mal compreendida por muitos. Respeito é aceitar e amar as pessoas como realmente são, sem preconceito.

Marcela disse...

Concordo com tudo, e lutarei junto, pois todos temos o direito de amar e ser feliz. O RESPEITO é essencial na vida de todos, se queremos ser respeitados em primeiro lugar devemos respeitar. O preconceito já saiu de moda a muito tempo!!!