07/10/11

MINI CURSO DE COMO LER MEUS TEXTOS (OU QUASE TODOS OS DISCURSOS DO MUNDO) Por Ítalo Damasceno

Por *Ítalo Damasceno especial para o Homorrealidade

Pense um pouco: quantas pessoas você já ouviu falar que odeiam mentira? Que alguém mentir para elas é o ato mais imperdoável que pode ser feito? Que elas amam a verdade e que, doa a quem doer, a verdade deve estar acima de tudo?

Agora deixa eu te contar uma verdade: elas todas estão mentindo.

Uma das principais armas dos mentirosos é, na primeira vez que falam com alguém, deixar muito claro que eles abominam a mentira. É a maneira que eles tem de ludibriar as pessoas. (Afinal, como diz o Axe, “a primeira impressão é a que fica”.)

Oscar Wilde já avisou: A verdade não é exatamente o que se deve contar a uma boa, doce e inocente menina. Muito sábio da parte dele.

Eu, contrariamente a estas pessoas, adoro a mentira. Minto. Minto muito. Minto quase sempre. Ou você acha que o que eu ponho nas linhas dessa minha coluna ao longo das sextas-feiras é a verdade? Ledo engano. Eu minto. Subverto idéias e ponho aqui o que me convém. Porque acredito que meu papel ao escrever estas palavras é fazer você, crente leitor, se chacoalhar, sentir que o chão te foge e te fazer refletir se o que você pensa é realmente do jeito que você pensa. Não estou aqui para dizer ou ensinar nada. Meu objetivo é, simplesmente, tentar ajudar a você aí do outro lado a questionar suas opiniões e idéias. E isso não tem nada a ver com a verdade.



Teria Capitu mentido para Bentinho? Ou teria Bentinho mentido para os leitores afim de justificar seus atos?


Ariano Suassuna diz que existem duas mentiras – a mentira de Deus e a mentira do Diabo. – Mentiria Deus, então? – Ele sempre diz: “Simpatizo muito com os mentirosos. Eu mesmo sou um mentiroso. Mas não minto para prejudicar os outros. Minto por amor à arte.” Na segunda categoria também me incluo.

Para ele, a mentira do Diabo é a mentira malévola, que quer trair, enganar e, pior, se beneficiar do engano alheio. Aí está o feio de mentir. Você fazer alguém agir em erro pela ignorância. Por acreditar num fato inverossímil. Ou, sendo mais gentil – nas palavras de Luís Fernando Veríssimo ao definir a mentira -: na verdade que se esqueceu de acontecer.

Porém, existe uma mentira que viria de Deus. Uma mentira boa. Uma mentira que faz bem: é a fantasia. O sonho. A invenção que brota da mente humana, muitas vezes, para nos aplacar a dor, nos tirar desse estado de desespero e desesperança. Um apoio para atravessar este “vale de lágrimas”.

Um livro ficcional, um filme, uma história que uma avó conta para uma criança dormir. Tudo isso são grandes mentiras. E todo mundo sabe disso. Ou seja, naquele momento, você mente pra você mesmo que aquilo é de verdade, afinal você quer saber o que vai acontecer. Você torce. E às vezes até chora porque algo ruim acontece num mundo e a alguém que não existe no plano real. - O sentimento é menos verdadeiro por vir de um fato que na verdade não aconteceu?

A que foi sem nunca ter sido.

Quase todos os gays mentiram em algum momento da vida. Mentiram para encobrir uma atração que não poderia ser revelada, porque os outros iam rir, ou, pior, bater. Mentem para proteger seus pais de uma pressuposta decepção. Mentem até mesmo dizendo que acham aquela loira da sala “mó gostosa”, para poderem ser aceitos e para não exporem algo que, na realidade, só diz respeito a eles mesmos e a mais ninguém. Eu defendo que, mais do que se ter o direito de falar “Sou gay” e ser aceito, você tem o direito é de não precisar falar nada. Afinal, ninguém tem nada a ver com o fato de a quem você ama.

Mas eu concordo com Gil ao dizer que “não há o que perdoar, por isso mesmo é que há de haver mais compaixão”. Não há mal nenhum em se perdoar uma mentira. Isso não te faz mais fraco que ninguém.

Portanto, mentir pra se salvar, é necessidade; falar a verdade quando se precisa mentir, é coragem; e não mentir quando não é necessário falar a verdade é, indubitavelmente, a principal forma de demonstrar confiança em si mesmo.


*ÍTALO DAMASCENO é advogado; em todas as fotos faz cara de Clarice Lispector; e só sobe numa árvore no estilo “Gabriela, Cravo e Canela”.

3 comentários:

WILTON LOPES disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
WILTON LOPES disse...

Acredito que você escreve o que está sentindo, por isso sem problema o seu texto hoje sair um pouco da sua linha. As vezes construimos uma mentira em torno de uma verdade, achando que tudo pode ser perfeito. Acabamos por esquecer que o próprio mundo é construído entorno de uma grande mentira e que tudo vive em perfeita harmonia.

karine tito disse...

eu já tinha comentado, mas ele não aparece aqui. :C vc é foda, foda, foda. sou sua fã.