30/06/11

Festival de cinema marca comemorações do Dia Mundial do Orgulho LGBT


Por Alana Gandra

Rio de Janeiro - A abertura oficial, hoje (30), da primeira edição do Rio Festival Gay de Cinema marca as comemorações, no Rio, do Dia Mundial do Orgulho LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros), celebrado no último dia 28.

Durante o festival, que vai até 10 de julho, serão apresentados seis longas e 35 curtas-metragens brasileiros e estrangeiros, nos gêneros ficção e documentário. Participam filmes de 13 países. Do total, cinco longas e 28 curtas farão sua estreia no festival, que será aberto ao público amanhã (1º).

As exibições ocorrerão no Cine Odeon Petrobras e no Centro Cultural Justiça Federal. Os melhores filmes, escolhidos pelo público e por um júri, receberão o Troféu do Rio Festival Gay de Cinema 2011.

O presidente da Agência Nacional de Cinema (Ancine), Manoel Rangel, disse à Agência Brasil que a entidade vê como “extremamente positivas todas as iniciativas que valorizem a diversidade cultural”. Destacou que diversidade consiste em trazer todos os filmes e visões que pessoas do mundo inteiro têm sobre a cultura.

“Portanto, a realização desse primeiro festival tem o sentido de permitir que se possa ter pluralidade de visão do cinema brasileiro e do cinema internacional disponível”. Rangel lembrou que em São Paulo já existe há alguns anos o Festival Mix da Diversidade Sexual e que o Rio Festival Gay de Cinema se soma a essa iniciativa. “É mais um festival que estimula o processo da reflexão cultural”, afirmou.

Para o produtor do festival, Julio Cesar Mello, a escolha do Rio para sediar o evento “tem tudo a ver”. Segundo ele, além de ser considerada porta de entrada do turismo estrangeiro no Brasil, a capital fluminense abriga muitas pessoas de mente aberta e ousadas. “O Rio de Janeiro é reconhecido internacionalmente por receber bem os turistas, incluindo os gays de todas as partes do mundo”, disse.

O festival abordará diversos temas relacionados ao público LGBT, com a finalidade de informar e esclarecer sobre questões ligadas à diversidade sexual. “Eles são pessoas normais, que têm filhos, trabalham, pagam impostos, são religiosos. Só que têm orientação sexual diferente”, acrescentou Mello.

O superintendente de Direitos Individuais, Coletivos e Difusos da Secretaria Estadual de Assistência Social e Direitos Humanos do Rio, Cláudio Nascimento, disse que o Rio Festival Gay de Cinema “vai mostrar que gays, lésbicas e transexuais são pessoas comuns, cidadãos com sonhos e histórias de vida, com tropeços, sucessos”.

Coordenador do programa estadual Rio sem Homofobia, Nascimento ressaltou a importância do festival “para trazer ao cotidiano o entendimento dessa luta”.

Saiba mais sobre o festival no site: www.riofgc.com




Rio Festival Gay de Cinema: VINHETA OFICIAL 2011 from Cromakey on Vimeo.

Confira as imagens dos santos que causaram polêmica na Parada de SP

Visto em A CAPA
Fotos: Ronaldo Gutierrez


As imagens dos santos musculosos espalhadas pelos postes de iluminação da avenida Paulista durante a Parada Gay de São Paulo podem ter gerado polêmica, mas também atraíram muitos admiradores.

O trabalho é do fotógrafo Ronaldo Gutierrez, que cedeu as imagens para a campanha da APOGLBT que alerta para o uso dos preservativos. "Nem santo te protege. Use camisinha", diz o slogan.

Ronaldo desenvolveu o trabalho antes da campanha. O fotógrafo, que sempre teve fascínio pela história dos santos, se inspirou nas imagens de arte sacra. "Apesar de não ser católico, gosto dos santos, li suas biografias e cheguei até a estudar a bíblia durante muitos anos. As histórias são cativantes", diz Ronaldo.

Conhecedor da arte sacra, o fotógrafo visitou vários museus e grande igrejas da Europa e fez uma pesquisa na internet para criar a imagem de cada santo.

Fotógrafo se diz ameaçado após campanha de prevenção com imagens sacras durante Parada Gay

Por Paco Llistó para A CAPA
Além das 4 milhões de pessoas que tomaram conta da avenida Paulista neste domingo durante a Parada Gay, outro fato chamou a atenção: pendurados nos novos e belíssimos postes de iluminação, cerca de 50 cartazes com santos musculosos e o slogan "Nem santo te protege. Use camisinha" alertavam para a importância do uso de preservativos na relações sexuais.

As imagens, feitas pelo fotógrafo Ronaldo Gutierrez, foram doadas para a APOGLBT (Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo) e causaram polêmica com a Igreja Católica. O cardeal Odilo Scherer chegou a comentar que os cartazes "ofendem profundamente e ferem o sentimento religioso do povo". "O uso debochado da imagem dos santos é ofensivo e desrespeitoso, o que nós desaprovamos", disse o cardeal.

Em entrevista exclusiva ao site A Capa, Ronaldo Gutierrez explica que sua intenção não foi causar atritos com a igreja e, sim, "fazer algo de bom para as pessoas". O fotógrafo chegou a receber e-mails com ameaças, mas diz que já esperava por essa reação negativa. Leia a seguir.

Como surgiu a ideia da campanha?

Sempre fui fascinado pela arte sacra e, apesar de não ser católico, gosto dos santos, li suas biografias e cheguei até a estudar a bíblia durante muitos anos. As histórias são cativantes. Juntei a isso meu gosto por pinturas e fiz esse trabalho para mim mesmo. A campanha surgiu depois, o Eduardo Lima (do Guia São Paulo de Bolso) entrou em contato com a APOGLBT e eu liberei o uso para eles. Gostei da ideia e cedi todos os direitos gratuitamente, e todo e qualquer dinheiro que entrar com essa campanha será doado a ONGs que ajudam pessoas carentes.

Quantos cartazes foram produzidos e quanto custou a campanha?

Bom, para ser sincero não sei, falaram que iriam produzir 50 cartazes além das camisinhas, mas pelo que pude ver na Parada esse número foi maior. Quanto aos custos, realmente não sei, deixei tudo isso nas mãos deles. Como não teria nenhum ganho financeiro com isso, nem me preocupei com custos, queria realmente fazer algo de bom para as pessoas.

Você disse que pesquisou sobre a imagem de santos para realizar as fotos. Como ocorreu essa pesquisa?

Pesquiso arte sacra há muitos anos, sempre vou a museus e igrejas e, na Europa, visitei todas as grandes igrejas. Especificamente para essas imagens, pesquisei antes na internet para depois começar a pensar em cada imagem de santo.

O cardeal dom Odilo Scherer chegou a comentar que as imagens "ofendem profundamente" a Igreja Católica. Você está sendo ameaçado de alguma maneira?

Não é bom ouvir na TV e ler nos jornais pessoas dizendo que você as está ofendendo, quando minha única intenção era ajudar. Venho recebendo algumas mensagens pesadas, que machucam. Mas já esperava por essa reação negativa...

Por que mexer num tema tão espinhoso como a religião?

Não é com a religião que estou mexendo, é com as pessoas que dizem que mandam nela. Como disse, acho a vida dos santos um exemplo de bondade e amor ao próximo, mas não é isso que vejo naqueles que comandam. Sei que a grande maioria dos católicos é formada por gente muito boa e que quer ajudar. Outros, infelizmente, aqueles que detém os meios de comunicação, são preconceituosos e ignorantes.

Você pretende expor as imagens em outros espaços?

Adoraria expor esse trabalho em algum lugar que respeitasse a ideia, mas por enquanto não posso, precisaria de um patrocínio para fazer isso. Não ganhei absolutamente nada com essas imagens, fiz realmente por achar que seria bonito e as pessoas gostariam de ver. Se eu conseguisse quem patrocinasse, faria a exposição com o maior carinho.

Iphone ganha primeiro jogo com super-herói gay



A Klicrainbow acaba de anunciar o jogo SuperGay & the Attack of his Ex-Girlfriends , que segundo a produtora, é o primeiro jogo com um super-herói gay para iPhone, iPad e iPod. O lançamento coincidiu com o Dia Internacional do Orgulho Gay (28).

O jogo, que apresenta gráficos estilizados que lembram muito as histórias em quadrinhos, conta com 32 níveis no melhor estilo plataforma. Mesmo tendo um estilo definido, SuperGayalterna bem entre fases de ação, dança e puzzles.

O jogador controla o franzino Dr. Tom Palmer, que trabalha em um laboratório com o sogro, o Dr. Arnold Himmer e Ilsa Himmler, sua amada noiva. Tom descobre algumas falcatruas, e infeliz com sua vida, resolve lutar contra sua família. Depois de um experiência mal sucedida, o herói acaba ganhando uma incrível força e poderes como o Gay Power e o Rainbow Ray.

Veja a matéria no Jornal do Brasil: clique aqui!

Cruzada religiosa combate direitos civis dos gays - Por Marcelo Semer

*Marcelo Semer De São Paulo para o Terra Magazine

O vereador Carlos Apolinário, ligado à Assembleia de Deus, apresentou proposta para criar em São Paulo, o dia do "orgulho hetero", levando o projeto para votação às vésperas da Parada Gay.

A Marcha para Jesus virou palco de repúdio à decisão judicial que garantiu a união estável homoafetiva, tendo como principal estandarte que "o verdadeiro Supremo é Deus".

A deputada Myriam Rios, hoje missionária católica, fez pronunciamento na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro propagando a expressão "orientação sexual pedófila". Dizia ter medo da proximidade de uma babá lésbica a filhas pequenas ou do assédio de um motorista travesti sobre seus meninos.

Porque a incorporação de direitos civis aos homossexuais está incomodando tanto assim aos ativistas da religião?

Não são eles os primeiros que deveriam se destacar pela defesa do amor, da solidariedade e do abrigo aos mais vulneráveis?

Onde estão as tradicionais preocupações com desigualdades sociais e manifestações de fraternidade?

Há quem diga que os grupos religiosos se sentiram intimidados com a proposta de criminalizar a homofobia.

Paradoxo dos paradoxos, pois a punição do preconceito é justamente o combustível para a liberdade de crença.

Em algum lugar do mundo, membros das mais diversas religiões já sentiram na pele o terror do preconceito e da intolerância. Como reproduzi-lo, então?

Depois da decisão do STF que autorizou a Marcha da Maconha, reconhecendo o legítimo direito à manifestação, muitos disseram em um misto de birra e revolta: se vale defender a maconha, vale falar qualquer coisa. Acabou-se a mística da homofobia.

É uma ideia equivocada.

Como bem explicou o ministro Celso de Mello, em voto primoroso, a liberdade deve ser garantida para expressar os mais diversos pensamentos. Mas nunca para ferir -o Pacto de San José da Costa Rica, que o país subscreveu, exclui do âmbito protetivo da liberdade de expressão todo estímulo ao ódio e ao preconceito.

Propor a legalização da maconha é legal. Dizer que os homossexuais são promíscuos, não.

Reverenciar o "orgulho hetero" também não é o mesmo que fazer uma parada gay -assim como prestigiar a consciência negra não se equipara em louvar o "orgulho branco", típico dos sites neonazistas.

A diferença que existe entre eles reside na situação de poder e de vulnerabilidade.

Os movimentos negros e gays se organizam pela igualdade e procuram combater a discriminação - o "poder branco", memória do arianismo, busca exatamente reavivá-la. Não quer igualdade, quer supremacia.

Basta ver que a proposta do "orgulho hetero" se impõe como um resgate da "moral e dos bons costumes", tal como uma verdadeira cruzada.

Por fim, mas não menos importante, a absurda vinculação entre homossexualidade e pedofilia.

Não é grave apenas pelo que mostra -um profundo desconhecimento da vida. Mas, sobretudo, pelo que esconde.

Jogar o defeito no outro, no diferente, naquilo que não nos pertence, é o primeiro passo para esconder o mal que nos cerca, e assim evitar sua punição.

Em vinte e um anos de judicatura criminal, vi inúmeros padrastos molestaram sexualmente suas enteadas, tios violentarem suas sobrinhas e até mesmo pais condenados por estupros seguidos em meninas de menos de dez anos. Na grande maioria dos casos, os crimes são praticados por heterossexuais.

Não se trata de tara, perversão ou qualquer outro atributo de fundo moralista. É simplesmente violência.

Misturar as estações não é ruim apenas por propagar um preconceito infundado. Mas por nos distanciar do problema e, em consequência, da solução.

Quando um dogma supera as lições que a vida nos traz, quando o apego à filosofia é maior que o amparo a dor, quando até o sempre solidário cerra os punhos, um sinal de alerta se acende.

É preciso relembrar que somos todos humanos.

*Marcelo Semer é Juiz de Direito em São Paulo. Foi presidente da Associação Juízes para a Democracia. Coordenador de "Direitos Humanos: essência do Direito do Trabalho" (LTr) e autor de "Crime Impossível" (Malheiros) e do romance "Certas Canções" (7 Letras). Responsável pelo Blog Sem Juízo.

Paradas, homofobia e o bom combate ao preconceito - Por Altair Freitas

Por *Altair Freitas para o Blog Palavras ao Tempo!

Como não poderia deixar de ser, a nova edição da Parada Gay em São Paulo, ao lado de todo o debate sobre direitos civis para quem tem orientação diversa da heterosexualidade, movimentam intensamente setores importantes da opinião pública. Entre defensores e detratores, o tema "igualdade de direitos" assume ares de radicalidade impulsionada principalmente pelos tradicionais setores coservadores/reacionários da nossa sociedade, notadamente aqueles assentados sobre fundamentalismos religiosos.

Do que estamos falando mesmo? Do elementar princípio da liberdade humana, do direito à cidadania, independente de gênero, etnia e orientação sexual (heterosexualiade, bisexualidade, homosexualidade). Em resumo, manifestações contra o preconceito e a discriminação que atingem setores da população que têm orientação sexual diferente da maioria - como a Parada Gay ou o recente reconhecimento da união civil entre homosexuais, por exemplo - inserem-se no mesmo contexto de luta contra a opressão da mulher, contra o racismo e outra mais, lutas essas referendadas por resoluções da ONU e já amparadas em diversas legislações mundo afora.

Olhando de modo mais abrangente, através da História, ao contrário do que imagina e propagandeia o mais ralo senso comum, a homosexualidade não é fenômeno novo, ou fruto de alguma degeneração moral da modernidade. Dos grupos paleolíticos de caçadores e coletores às grandes e brilhantes civilizações do passado, a homosexualidade era uma realidade presente, tolerada, e em algumas daquelas sociedades, perfeitamente aceita como prática corriqueira, sem nada de amoral. Por um motivo simples: estudos centíficos - e ciência é fundamental para tratar determinados assuntos, muito mais do que hipotéticas verdades religiosas - indicam que algo em torno de 10% a 15% da população mundial nasce com orientação sexual diferente da heterosexualidade, ou seja, é absolutamente natural termos setores da população que não exercitam ou não exercitariam a heterosexualidade, exceto se fossem ou forem obrigados a tal por imposições culturais castradoras da sua real orientação sexual.

A literatura médica, pesquisas arqueológicas, antropológicas - e a literatura em geral - está repleta de exemplos, estudos, casos, retratando esse componente da formação humana. Se tomarmos a população mundial atual pela sua base geral - 6 bilhões de seres- e pegarmos a população sexualmente diversa pelo mínimo - 10% - estamos falando de mais de 600 milhões de pessoas que nasceram com sua programação genética diferente da heterosexualidade. Então, a questão a ser discutida é: vamos tratar os diferentes como desiguais? Acaso, 600 milhões de pessoas devem ser consideradas doentes, degeneradas e sem direitos civis básicos, sem liberdade de serem o que realmente são e exercerem a própria sexualidade com quem compartilha dos mesmos sentimentos, desejos e expectativas de vida, cidadania e felicidade?

Alguns segmentos tergiversam, enganam, mentem, iludem e levantam argumentos profundamente equivocados para atacar a igualdade de direitos entre heteros e homosexuais. Um deles diz respeito a uma hipotética falência da heterosexualidade no futuro, como se o fim da discriminação estivesse em sinal de igualdade com a eventual obrigatoriedade de todos serem homosexuais, algo sem pé nem cabeça e que não resiste ao mais elementar olhar da ciência. O (des)nível na argumentação chega a tal baixeza que recentemente uma deputada estadual do Rio de Janeiro, evangélica, ex atriz, ex esposa do Roberto Carlos, sob aplausos de incautos e outros infâmes mentirosos, chegou a declarar que a homosexualidade é sinônimo de pedofilia! De quebra ela estabeleceu a pedofilia como mais uma "orientação sexual"! Pobre Jesus, como tenho pena do teu santo nome usando em vão!

Esse tipo de raciocínio transverso, essa prática de misturar alhos com bugalhos para iludir o venerável público, foi amplamente utilizado no passado, por exemplo, para tentar evitar o fim da escravidão, inclusive no Brasil, país cristão, cheio de "moral e bons costumes", e que convivia perfeitamente bem com o aprisionamento e brutalidades intensas contra os africanos aqui escravizados. À época, afirmava-se que o fim da escravidão levaria o Brasil à falência; que a liberdade dos escravos possibilitaria o aprofundamento da miscigenação e o enfraquecimento do povo brasileiro como "raça", condenando eternamente o país às profundas do inferno do desenvolvimento! Foi e continua a ser usado para evitar que as mulheres conquistem plena igualdade de direitos e condições efetivas - na lei e nos costumes - em relação aos homens.

Da mesma forma que a luta contra a escravidão jamais colocou em risco a liberdade de quem livre já era, pois tratava-se de acabar com um sistema odioso e não para substituir um tipo de escravo por outro, da mesma maneira que a luta contra a opressão sobre a mulher não resultou e não resultará na opressão sobre o homem, entendo que o eventual receio do estabelecimento da discriminação sobre heterosexuais é intensamente descabida. Mas, claro, assusta cabecinhas incultas e mentes preguiçosas.

Se a ciência está correta - e creio que está - e se a história nos serve para alguma coisa, é preciso considerar que a defesa da liberdade para as chamadas minorias, é também a garantia da consolidação da liberdade para as ditas "maiorias". Porque, mesmo a heterosexualidade e o seu pleno exercício, também foi profundamente limitada por regras tidas como "moralizadoras" vigentes até pouco tempo atrás. Basta lembrar as fantásticas normas impostas por religiões e seitas, notadamente de cunho judaico-cristãs, visando estabelecer um processo de limitação de qualquer tipo de sexualidade, sempre taxando-a como elemento pernicioso, pecaminoso, feio, sujo.

*Paulistano, professor de história, 48 anos e, nas horas vagas (de segunda a segunda), torcedor do Tricolor Paulista

Via Twitter, filho de Bolsonaro insulta homossexuais e celebra vitória do pai na Câmara

Por Bruno Siffredi para o estadão.com.br

O vereador do Rio de Janeiro Carlos Bolsonaro (PP) comemorou de forma inusitada o arquivamento da representação contra seu pai, o deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ), no Conselho de Ética da Câmara nesta quarta-feira, 29. Pelo Twitter, o vereador dirigiu insultos aos homossexuais e disse que a decisão da Câmara é “o início da queda da ditadura do homossexualismo” no País.

Após reiterar o mesmo insulto em duas mensagens (“ch…, vi…!”), Carlos Bolsonaro fez uma declaração de apoio ao pai: “Tenho orgulho d (sic) ser igual ao meu pai em todos os sentidos e um deles é colocar sua competência acima d (sic) sua sexualidade.” O vereador ainda afirmou se divertir coma reação dos “gays” no Twitter. Antes de se despedir, fez questão de reafirmar a própria orientação sexual: “Atenção Boiolas, p/ (sic) infelicidade d vcs (sic), eu sou hétero!”

Jair Bolsonaro foi alvo de uma representação do PSOL após ter discutido publicamente com a senadora Marinor Brito (PSOL-PA) e ter classificado de “promiscuidade” a possibilidade de um filho seu ter relacionamento com uma mulher negra durante entrevista ao programa CQC, da TV Bandeirantes.

O Conselho de Ética rejeitou por 10 votos a 7 a abertura de processo disciplinar contra Bolsonaro. Os deputados do Conselho entenderam que não se pode punir um parlamentar com base em suas opiniões.

"A guerra vai aumentar", diz Bolsonaro após absolvição em conselho

Por Robson Bonin Do G1, em Brasília

Depois de ter o processo de cassação arquivado pelo Conselho de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara nesta quarta (29), o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) afirmou que a decisão do colegiado “deu mais força” para que ele continue e aumente a “guerra” contra o que classificou de “fundamentalismo homossexual” nas escolas brasileiras.

"A luta continua. [A decisão] Me deu mais força ainda. Estou no caminho certo. Não posso admitir o fundamentalismo homossexual, a apologia ao homossexualismo nas escolas. A guerra vai aumentar”, disse Bolsonaro, crítico das políticas de inclusão do governo federal para homossexuais.

Bolsonaro era alvo de processo disciplinar por suposta prática de racismo e homofobia após ter dado declarações polêmicas em um programa de televisão. Ao ser perguntado pela cantora Preta Gil sobre como reagiria se o filho namorasse uma mulher negra, afirmou que não discutiria "promiscuidade".

O PSOL também queria cassar Bolsonaro por um bate-boca com a senadora Marinor Brito (PSOL-PA), depois que o deputado tentou exibir para as câmaras um folheto "antigay" durante entrevista da senadora Marta Suplicy (PT-SP).

Na tarde desta quarta, por dez votos a sete, e cinco ausências os integrantes do colegiado votaram contra o parecer prévio do relator, deputado Sérgio Brito (PSC-BA), que defendia a admissibilidade do processo e arquivaram o caso.

Questionado se havia se arrependido de ter instigado o polêmico embate com seguimentos defensores dos direitos homossexuais, principalmente em relação ao deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ), que é homossexual assumido, Bolsonaro reagiu com ironia.

“Vou me arrepender, pedir desculpa para o Jean Wyllys, que inclusive falou que tinha orgulho de ser veado? Tá de brincadeira. Toda a minha defesa estava pronta, e usaria caso fosse acolhida a denúncia. Vou colocar tudo na internet. Vou manter a minha postura. Fui eleito para falar, para ser parlamentar, colocar para fora minhas ideias. Esse bando não merece respeito”, afirmou Bolsonaro.

'Decisão é perigosa'

O deputado do PSOL avaliou que a decisão do conselho em livrar Bolsonaro de um processo administrativo é perigosa porque irá incentivar manifestações parecidas contra homossexuais.

“Acho uma decisão perigosa, porque se o deputado Bolsonaro já violava explicitamente e despudoradamente a dignidade da pessoa humana de homossexuais e de negros, agora ele vai deitar e rolar. De negros ele até recuou, porque sabe que existe uma lei que criminaliza o racismo. Ele recuou dos ataques aos negros para investir pesadamente nos ataques aos homossexuais”, afirmou Wyllys.

Questionado se o conselho havia sido conservador, Wyllys lembrou a reação do próprio Bolsonaro ao receber a decisão.

“O deputado Jair Bolsonaro, quando recebeu o resultado, sorriu e falou assim: ‘Não esperava outro resultado, afinal, a maioria do conselho é hétero’.”

A Decadência de Myriam Rios: de atriz mediana a política homofóbica

Por Lufe Steffen para A CAPA

Está no auge a polêmica envolvendo a ex-atriz Myriam Rios. Como já é de conhecimento público, a deputada estadual (PDT-RJ) proferiu um discurso onde defendeu o direito de demitir funcionários homossexuais, além de relacionar perigosamente os gays com atos de pedofilia e crime.

A situação surpreendeu a mídia e a classe artística, além de chocar toda uma geração, de pessoas entre 30 e 45 anos, que cresceram assistindo com simpatia à atuação da então atriz Myriam na TV. A imagem pública dela sempre foi agradável, e ela chegou a ser chamada por Caetano Veloso de "a primeira-dama da MPB" - obviamente, por ter sido esposa de Roberto Carlos durante dez anos.

Para entender Myriam Rios, é preciso conhecer sua história. Nascida em Belo Horizonte no final de 1958, ela iniciou carreira artística ainda adolescente. Em 1976, com 17 anos, venceu um concurso de novas atrizes no programa de TV de Moacyr Franco, na Rede Globo.

Logo estava na novela "O Feijão e o Sonho", no mesmo ano, exibida pela emissora às 18h. Myriam e Lídia Brondi interpretavam as filhas adolescentes do casal protagonista. Sua carreira como atriz de TV começou a crescer. Ela atuou nas novelas "Escrava Isaura" (1976/77), "Duas Vidas" (1976/77), "Sem Lenço Sem Documento" (1977/78), "Pecado Rasgado" (1978/79), "Memórias de Amor" (1979), "Marrom Glacé" (1979/80), "Coração Alado" (1980/81) e "O Amor é Nosso!" (1981).

A essa altura, ela já era um rosto conhecido no Brasil. E um corpo também - afinal, posou nua para as revistas "Lui" (em 1978) e "Ele & Ela" (duas vezes, em 1979). Outra razão de sua fama aumentar foi, claro, o relacionamento com Roberto Carlos. O cantor chegou, inclusive, a comprar das editoras os direitos sobre esses ensaios fotográficos, para impedir a republicação das fotos.

Atualmente, tais revistas valem ouro em sebos - mas em compensação, LPs de vinil com coletâneas estilo "Disco Hits 76" custam R$1, e em pelo menos duas delas Myriam posa na capa: seminua, contracenando com uma motocicleta (foto).

No livro "Roberto Carlos em Detalhes" (de Paulo César de Araújo, publicado em 2006 e recolhido das livrarias por ordem judicial, a pedido do próprio Roberto Carlos), o autor fala sobre a relação da atriz com o Rei. O namoro começou em 1978, e tornou-se público no ano seguinte. Eles se casaram no final dos anos 70. Myriam tornou-se uma espécie de "Lady Di" brasileira, e passou a acompanhar o marido em turnês, shows e camarotes de Carnaval.

Como ela mesma mencionou, Roberto solicitava a presença da esposa ao seu lado, priorizando a própria carreira dele. E assim ela fez: em 1981, foi anunciado que a novela "O Amor é Nosso!" seria sua despedida da profissão.

Apesar disso, ao longo dos anos 80 ela voltou a aparecer: atuou nos filmes "A Filha dos Trapalhões" (85, com o quarteto humorístico) e "Banana Split" (87, onde fazia uma moça meio "piranha", no início dos anos 60), e nas novelas "Tititi" (85/86) e "Bambolê" (87/88) - em ambas, contracenando com o ator Paulo Castelli, já que Roberto Carlos só confiava no rapaz para fazer cenas de beijos com sua então esposa.

Também foi apresentadora do musical "Globo de Ouro", ao lado do falecido Lauro Corona (1957-1989). O que pensaria Lauro, se estivesse vivo, da atual opinião de Myriam sobre os gays?

Em 1989, Myriam se separou de Roberto Carlos. Novamente, como ela declarou no livro citado, estava se sentindo frustrada, pois queria ter filhos, mas o Rei não concordava. Queria retomar sua carreira de vez, e ele também era contra.

Uma vez separada, ela tentou voltar à tona. Atuou na minissérie "Floradas na Serra" (91, na extinta TV Manchete) e "Irmã Catarina" (96, na CNT, interpretando uma freira). Conseguiu voltar para a Globo, onde atuou em "Era Uma Vez..." (98), "Aquarela do Brasil" (2000) e "O Clone" (2001, atualmente em reprise no "Vale a Pena Ver de Novo").

Ao longo desse período, conseguiu enfim ter filhos: um com o médico Edmar Fontoura, e outro com o ator André Gonçalves - com quem contracenou em "Era Uma Vez..".

Aí viria a mudança: em 2002, converteu-se à Renovação Carismática Católica, entrando assim para o time de ex-atrizes dos anos 70 e 80 que seguem o mesmo trajeto: posam nuas, fazem filmes "ousados", atuam na TV, e depois que são desprezadas pela mídia, vão buscar refúgio em religiões austeras e repressoras, e algumas viram até bispas, pastoras e pregadoras. Exemplos: Darlene Glória, Simone Carvalho, Leila Lopes (1959-2009), Luíza Tomé...

Depois de se converter, Myriam passou a atuar em prol da religião. Apresenta programas de TV, rádio e internet da comunidade Canção Nova, lançou CDs com material religioso, e o livro "Eu, Myriam Rios", de 2006 - editado também pela empresa Canção Nova.

Foi eleita deputada em outubro de 2010, com o apoio de uma votação expressiva coordenada por Wagner Montes - também ele, figura dos anos 70 e 80, ex-ator, ex-jurado do "Show de Calouros" do SBT, atualmente apresentador de TV, e que costuma também disparar opiniões bastante retrógradas.

Enfim, depois de todo esse histórico, fica mais fácil entender o disparate atual de Myriam Rios, uma ex-celebridade que volta à mídia de forma pouco louvável. Vale lembrar que o vídeo no YouTube com Myriam Rios fazendo o seu discurso homofóbico, além de tudo, impede os usuários de postarem comentários. Mais uma atitude despótica das mídias religiosas, que pregam a liberdade de direitos e de expressão para todos, menos para aqueles que querem criticá-las. É a velha história: todo mundo é livre, desde que seja a favor deles.

Parada Gay - Cultura Retrô 23/06/2011 - Rápida Retrospectiva


Matéria sobre diversas Paradas Gays

29/06/11

Coisas da Câmara: Bolsonaro é absolvido pelo Conselho de Ética


Visto no R7 Notícias
Por Priscilla Mendes/ R7 Brasília
Indicado por Arney Barcelos

Maioria dos conselheiros decidiu que as acusações contra o deputado são improcedentes

O Conselho de Ética da Câmara decidiu nesta quarta-feira (29), por 10 votos a 7, arquivar o processo de investigação contra o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ), acusado por quebra de decoro parlamentar devido a manifestações de preconceito, homofobia e apologia à violência.

O colegiado rejeitou o relatório do deputado Sérgio Brito (PSC-BA), que teve duas semanas para analisar o processo e decidiu pela admissibilidade da representação, de autoria do PSOL. A decisão do conselho é terminativa, portanto não há margem para recurso.

Presente à sessão, Bolsonaro disse logo no início que tinha certeza da absolvição e defendeu seu direito de ser contra a causa LGBT, a qual chamou de “fundamentalistas sexuais”.

O deputado provocou a comunidade LGBT ao dizer que uma entrevista sua na capa da revista masculina Playboy deste mês chamou mais atenção dos homossexuais do que a estrela da publicação, a modelo Maria (ex-BBB).

- Estou na capa da Playboy, abaixo ali da Maria, mas o pessoal LGBT vê mais a mim do que a ela. Eu sou o sonho deles.

Bolsonaro ironizou também o episódio em que bateu boca com a senadora Marinor Brito (PSOL-PA), um dos fatos em que a representação estava embasada. Ele se defendeu, disse que foi provocado e que o embate foi de “ação e reação”.

O deputado aproveitou para alfinetar os parlamentares do PSOL presentes na sessão, Jean Wyllys (RJ) e Chico Alencar (RJ).

- Ela [Marinor Brito] me chamou de misógino. Eu fui ao dicionário olhar o que é isso e vi que é quem tem aversão a mulheres. Se eu tenho aversão a mulheres, eu sou do time deles, do PSOL. Sou do time do Jean Wyllys.

Embate

Bolsonaro encerrou sua fala dizendo que “nenhum pai teria orgulho de ter um filho gay” e concluiu: “sou um parlamentar com P maiúsculo, não com H minúsculo de homossexual”.

O deputado Jean Wyllys aguardou ter direito a palavra para respondê-lo. Jean disse que não teria orgulho de ter um pai como Bolsonaro e o acusou de racismo.

- Eu tenho orgulho de ser chamado de veado por um outro veado, não pelo senhor. O senhor tem que lavar a sua boca antes de pronunciar essa palavra. Eu sou homossexual com H de homem, mais homem que o senhor, que diz que não é racista porque racismo é crime então tem que se dedicar à homofobia, que ainda não é crime.

Jean deixou a sala tão logo concluiu sua fala, mas foi provocado por Bolsonaro, que disse que ele deveria ficar para receber a resposta. Jean ignorou a provocação e saiu da sessão sob aplauso.

Acusações

Na representação que foi arquivada hoje, o PSOL alega que Bolsonaro “tem prestado continuamente um desserviço à população brasileira”. O partido lembrou o episódio em que o deputado concedeu uma entrevista ao programa de televisão CQC. Na ocasião, a cantora Preta Gil perguntou ao parlamentar o que ele faria se seu filho se apaixonasse por uma negra. No programa, Bolsonaro deu a seguinte resposta:

- Preta, eu não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Eu não corro esse risco. E meus filhos foram muito bem educados e não viveram em ambiente como lamentavelmente é o teu.

O PSOL diz que, nesse caso, Bolsonaro fez uma relação direta entre e mulher negra e a promiscuidade.

- Esta correlação, por si, despida de quaisquer relativizações, releva a prática do crime de racismo.

O deputado é acusado ainda de abusar da prerrogativa constitucional que o garante imunidade parlamentar no caso em que trava um bate-boca com a Senadora Marinor Brito (PSOL-PA).

No dia 12 de maio, após discussão no Senado sobre um projeto de lei que criminaliza a homofobia, Bolsonaro e a senadora quase partiram para agressão física porque ele apresentou às câmeras de TV um panfleto contra a causa LGBT.

Veja a matéria no R7: clique aqui!

Casais homossexuais: como falar sobre isso com o seu filho?


Visto na Crescer

A Justiça está acompanhando o que a sociedade tem respondido: gays e famílias formadas a partir de casais homossexuais estão conquistando seu espaço de direito. CRESCER conversou com especialistas para ajudar a você a tratar do assunto da maneira menos preconceituosa possível

Em uma decisão inédita no Brasil, um juíz de Jacareí (SP), converteu a união estável de Sérgio Kauffman e Luiz André Moresi em casamento nessa segunda-feira (27/06). O fato foi consequência de outra decisão anterior: no dia 05 de maio desse ano, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu por unanimidade à favor da união estável de homossexuais, o que garante aos gays o direito de adoção, herança, plano de saúde compartilhado e pensão. Tudo mostra que a sociedade brasileira caminha em direção ao respeito à diversidade sexual. Mas como agir quando o seu filho vê um casal gay na rua ou na televisão e questiona o por que de duas pessoas do mesmo sexo juntas? E como fazer com que essa não seja mais uma questão para as crianças e seja encaradada de forma mais natural?

“A tendência é que os pais passem para os filhos os seus valores. Ou seja: casais preconceituosos provavelmente irão transmitir isso aos filhos”, afirma Quézia Bombonato, presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia (ABPP).

Cada vez mais, pessoas homofóbicas têm seus valores questionados. Da polêmica causada pelo deputado Jair Bolsonaro aos beijos proibidos nas novelas, passando pelo destaque da Parada do Orgulho Gay em São Paulo todos os anos, o assunto não está mais atrás do armário. Ensinar o respeito ao próximo, assim como outras regras em geral, deve ser uma obrigação dos pais, acredita a psicóloga Ana Lúcia Castello.

“A estrutura familiar mudou", diz Ana Lúcia. "Hoje não é mais necessariamente um casal com filhos. As pessoas precisam estar abertas a isso.” Portanto, se você tem algum preconceito, precisa se atualizar.

Mas mesmo para as famílias que tenham isso mais bem resolvido ("tolerantes " é um termo que pessoas como cortella questionam, sabe?) este pode ser um assunto delicado. Tanto a presidente da ABP quanto a psicóloga afirmam que os pais devem falar sobre homossexualidade com as crianças na medida em que a curiosidade delas aparecer. Ou seja: responda somente aquilo que seu filho perguntar, sem explicações mais aprofundadas. E não se surpreenda se a primeira pergunta acontecer bem cedo. Além disso, afirma Ana Lúcia, a discussão sobre homossexualidade deve estar inserida em um contexto maior, o de educação sexual.

“Essa é uma maneira de tratar o assunto da maneira correta: com naturalidade”, afirma a psicóloga. Porque a questão que vem antes do sexo é uma só: o respeito à individualidade. São pessoas, acima de tudo.

Se ainda tiverem dificuldades de como conversar, a escola pode ser um grande aliado. Ela participa ativamente da educação do seu filho e é um espaço importante de convivência, perfeito para se exercitar o respeito às diferenças. Mesmo as crianças que venham com valores preconceituosos de casa, aliás, podem reverter esse quadro no espaço escolar. Lembre-se: o mais importante é saber que nem os pais, nem a escola tem a função de julgar, de dizer se é certo ou errado ser homossexual e, sim, mostrar que existe a liberdade de escolha individual.

Veja a matéria na Crescer: clique aqui!

Humor de Quarta: "Myriam Réus" - por Celso Andre


Inspirado em tristes fatos reais!
Não entendeu? Então veja aqui

Casamento civil entre mulheres homossexuais no DF é o primeiro do país - Jornal Correio Braziliense

Por Flávia Maia para o jornal Correio Braziliense

As funcionárias públicas Sílvia Gomide, 40 anos, e Cláudia Helena de Oliveira Gurgel, 44, não esperavam que em menos de dois meses elas pudessem realizar o sonho de 11 anos de relacionamento: a formalização da união. Ontem, exatamente às 13h40, por decisão da juíza substituta da 4ª Vara de Família de Brasília Júnia de Souza Antunes, as duas protagonizaram o primeiro casamento civil entre mulheres homossexuais do Brasil. Também foi o primeiro casamento homoafetivo do Distrito Federal e o segundo do país.

Assim que saiu a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de conceder direitos e deveres da união estável para casais homossexuais, as duas correram ao cartório e registraram a união. Isso no início de maio. Porém, incentivadas pela advogada Maria Berenice Dias, resolveram ir além e pedir à Justiça autorização para oficializar o casamento. “Decidimos casar porque é um direito que os brasileiros têm. E nós acreditamos que merecemos os mesmos direitos”, contou Sílvia. “A união estável não dá direito a mudar o nome, nem o estado civil e poderíamos ter problemas no regime de bens”, acrescentou.

O processo de conversão da união estável em casamento civil correu rápido no Judiciário. No último dia 6, a advogada deu entrada na ação. Menos de um mês depois da abertura do processo, a sentença da juíza estava em mãos e transitada em julgado, o que significa que nem o Ministério Público nem o próprio Tribunal de Justiça do DF e Territórios (TJDFT) poderão recorrer da decisão e ela fica na primeira instância. No mês passado, Sílvia e Cláudia registraram em cartório a união estável e, agora, celebraram o casamento. Com isso, Sílvia Gomide incorporou o Gurgel da companheira e passou a chamar-se Sílvia Del Vale Gomide Gurgel. As duas casaram-se com regime de comunhão parcial de bens.

A advogada Maria Berenice Dias baseou a defesa do casamento no Código Civil Brasileiro e na decisão do STF. “A lei diz que o Estado deve facilitar a conversão da união estável em casamento. Como o Supremo considerou os mesmos direitos de união estável para casais homo e héteros, apostei que o Estado também deveria facilitar o casamento civil para homossexuais”, afirmou a advogada.

Documentos

Para autorizar o casamento civil, a juíza pediu, além do documento provando a união estável, duas testemunhas. Certidões de nascimento, fotografias e inscrição de dependência no plano de saúde e aposentadoria do Senado Federal foram anexadas ao processo para confirmar a veracidade da união. De posse das provas, a magistrada escreveu na sentença: “As testemunhas demonstraram de forma clara, segura e convincente, que as autoras mantêm união estável homoafetiva como se casadas fossem. Na ausência de dispositivo legal que autorize o casamento civil de pessoas do mesmo sexo, a Suprema Corte, em decisão histórica, deferiu o tratamento isonômico às referidas uniões, idêntico ao das uniões estáveis heteroafetivas.”

A conversão da união estável em casamento civil de Cláudia e Silvia — que não pensam em adotar filhos — é a segunda do Brasil. A primeira ocorreu na segunda-feira, em Jacareí (SP). A Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transgêneros (ABGLT) comemorou as decisões. “Vamos incentivar que todos os casais homoafetivos procurem a Justiça visando seus direitos”, afirmou Irina Bacci, secretária-geral da entidade.

Casamento x união estável

» No casamento, quando um dos dois morrem, ao cônjuge sobrevivente é assegurado, independentemente do regime de bens, sem limitação de tempo, o direito real de habitação. No outro caso, ainda que o direito venha a ser aplicado, haverá limitação temporal: enquanto o sobrevivente não se casar ou constituir outra união estável.

» Quando casado, o cônjuge herda a totalidade da herança. Na união estável, somente um terço ou mesmo pode não herdar se houver contestação de familiares.

» No casamento civil, as pessoas têm a liberdade para trocar sobrenomes, enquanto na união estável a mudança pode ser questionada.

» Quem casa muda o estado civil. Na união estável, não: os companheiros continuam sendo encarados como solteiros.

» O reconhecimento imediato do relacionamento se dá no caso do casamento. Na união estável, é preciso um período de convivência pública.

Leitores do Correio comentaram no site a notícia do primeiro casamento gay no Distrito Federal. Veja algumas opiniões:

Eduardo
“Parabéns à Silvia e à Cláudia! Que sejam felizes enquanto casal e abençoadas em sua trajetória!”

Ademar Nova
“Observem como estão as coisas. Está virando bagunça. O certo virando errado e o errado, certo. Analisem e perceberão facilmente, é bíblico. Deus há de julgar essa Nação.”

Wilson Ramos Neto
“Não entendo o motivo da revolta. Essa decisão não me afeta em nada. Quem casou não foram elas? Elas é que vão ter que se aguentar, dividir despesas, pagar impostos... O que nós temos a ver se duas pessoas do mesmo sexo querem viver juntas?”

Thiago Mileski
“Ignorância... Casamento é uma união de casal de pessoas de sexos opostos. Isso aí não é casamento nunca, inventem outra.”

Marcos Oliveira
“Quantos comentários hipócritas. Por que não vão cuidar das suas próprias vidas?”

Lucas Mesquita
“Parabéns ao casal! Viva a igualdade e abaixo ao moralismo medieval da sociedade brasileira!”

Conselho de Ética da Câmara recebe hoje parecer do caso Bolsonaro


Visto no Valor Online
Por Fernando Taquari

O Conselho de Ética da Câmara se reúne nesta quarta para discutir se aceita o relatório do deputado Sérgio Brito (PSC-BA) no processo disciplinar contra o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ). Essa discussão é obrigatória pelas novas regras do Código de Ética.

Brito adiantou que o parecer prévio deve pedir a continuidade das investigações. O parlamentar foi acusado pelo PSOL de quebrar o decoro ao fazer declarações preconceituosas contra negros e homossexuais.

O partido incluiu na representação a discussão entre Bolsonaro e a senadora Marinor Brito (PSOL-PA), no dia 12 de maio, quando ambos debatiam sobre o projeto que criminaliza a homofobia. O PSOL sustentou que o parlamentar ofendeu a senadora.

Após a aprovação do relatório prévio, começa a ser contado o prazo para a entrega da defesa do deputado. Incluindo o tempo de defesa e elaboração do relatório final, a investigação deve durar 60 dias.

Veja a publicação no Valor Online: clique aqui!

Réguas e medidas...- Por Flávio Alves

Por Flávio Alves para o Idéias Canhotas

Eu gostaria de escrever sobre outro tema, mas hoje recebi uma crítica de um amigo (gay) e gostaria de fazer uma reflexão sobre ela.

Em uma conversa pela internet, esse amigo me disse em tom sacerdotal:

- Você é promíscuo... (!)

No caso dele, que é estudante de Psicologia, o tom foi mais de diagnóstico, só faltou um laudo que atestasse a minha promiscuidade. Sinceramente me incomodou um pouco a constatação. Ainda mais vinda de quem veio, e na situação que veio.

Nós, LGBT’s, somos freqüentemente chamados de promíscuos, o Deputado Jair Bolsonaro, Silas Malafaia, Magno Malta e outros da mesma linha dizem isso constantemente.

Os que são diferentes são promíscuos, imorais, indecentes, vagabundos, más-companhias, só para usar os adjetivos mais leves.

Como disse, ser chamado de promíscuo me incomodou. Passei uma parte do meu dia revendo minha vida, minhas ações, o que eu andava fazendo (e aprontando), passei em revista tudo aquilo que poderia me tornar “promíscuo”, os lugares que freqüento, minhas escolhas profissionais, minhas companhias, minhas convicções religiosas, políticas, meu gosto musical, e, é claro, minha vida afetiva e sexual. Visitei tudo o que pudesse me dar algum indício de minha promiscuidade e não encontrei nada que pudesse servir de sustentação para o meu mais novo título.

Pois então, o que nos torna promíscuos? Ou melhor, a partir do que somos chamados de promíscuos?

A partir dos valores de quem nos rotula. Confesso ser chamado de promíscuo por pessoas que pensam como o Bolsonaro de certa forma me orgulha, os valores que elas representam, são opostos aos meus.

E foi isso que me incomodou muito, os valores utilizados para me julgar, para me medir, não são os valores que eu tenho como meus. Sempre somos julgados a partir de valores que não são nossos, valores estes que sustentam atitudes preconceituosas, que excluem os deficientes, discriminam os negros, que oprimem as mulheres, que nos diz como devemos nos comportar, nos levam a agir de maneira que sejamos “moralmente aceitos” e exigir isso dos outros.

A sociedade, a família, todos esperam que eu corresponda ao que é moralmente correto. Que eu me case, que eu tenha filhos, que eu trabalhe, que eu seja monogâmico, heterossexual, branco e que eu seja casto, ou pelo menos seja discreto, a ponto de não dar motivo para os vizinhos falarem.

Ter uma condição diferente, expressar minha sexualidade de outras maneiras, e desfrutar dessas possibilidades me distancia cada vez mais do que esperam de mim, e foi isso que eu acredito que meu amigo quis dizer.

Ser gay (o que não escolhi) já me distancia desta expectativa, mas ao escolher outros caminhos me distancio mais ainda, e isso é imperdoável. Sendo gay eu deveria ficar quietinho na minha, não aparecer, fazer o possível para que as pessoas não me percebessem.

Confesso que muitas vezes agi assim. Me anulei, me escondi atrás da religião, da moral ou do que pudesse me proteger. E julguei muita gente também, gente que estava mais longe do modelo que eu. Ora era aquele que era efeminado demais, ora aquela que era masculinizada demais, espalhafatosa demais, pintosa demais, fica com gente demais. E por aí foi!

Tendo vida sexual ativa a situação fica mais complicada não?

Obviamente que desejo ter um parceiro, construir uma vida juntos, planejar coisas, mas isso ainda não aconteceu. E não ter parceiro fixo, estar solteiro e ficando por aí, aparentemente, é um dos itens que depõem contra a minha dignidade, aliás, depõe contra uma moral que não é mais a minha, me tira do lugar que me prepararam e que muita gente, inclusive gays, insistem que eu deva ocupar.

E é isso que eu gostaria de propor como reflexão, e que foi o que me chamou a atenção na conversa que contei no início texto.

Com base na moral de quem eu vivo? Com que régua sou medido? E com que régua eu meço?
Assumo que sou diferente, como todo mundo o é! Tento na medida do possível rever meus conceitos, e modificar meus preconceitos, sim, eu ainda os tenho. Vivo neste mundo, acabo carregando alguns vícios e preconceitos dele, logo, vivo me olhando, vendo onde posso melhorar, as vezes não dá muito certo admito!

Tento levar a minha vida do meu jeito, sem muitos parâmetros, sei que sou um bom filho, um bom amigo, tenho lá os meus defeitos, meus momentos de mau-humor.

Fiz escolhas na minha vida, e estou muito feliz por ter coragem de fazê-las, não nego o que sou, gosto de mim, e não acho justo estimular as pessoas a se negarem, a “não-serem”. Se não me enquadro nas medidas, se ofendo a moral dos outros, vejo isso com bons olhos, estou sendo percebido, sentido e me recuso a viver escondido.

Acredito em um país onde as pessoas possam ser o que são, como são, livremente. Sem medos, sem recriminações, sem medidas, ou “réguas morais”, apenas “sendo”.

Fui ao dicionário ver a definição de “promíscuo”. Segundo o Michaellis, a melhor definição para promíscuo é “confuso”, humano que sou, tenho meus momentos de confusão, de desordem, de mistura. Quem não tem? Então vai ver que sou meio promíscuo mesmo!

Mas de tudo isso de uma coisa eu tenho certeza e sem a menor confusão: construí ao longo da minha vida os meus valores, os meus conceitos e com a reguinha da moralidade eu não aceito ser medido mais!

A "NOVA" Família Brasileira - Publicado na Revista do Correio de 26/06/2011

E a família, vai bem? Muito bem, obrigada! Mas a clássica configuração pai, mãe e filhos já não é a única que pode ser chamada assim

Por Rafael Campos para a Revista do Correio (publicação dominical do Jornal Correio Braziliense (Colaborou Maria Fernanda Seixas)

A primeira definição de família dada pelo dicionário Houaiss é simples: um grupo de pessoas vivendo sob o mesmo teto. Não há preceitos de identidade, quais vínculos de sangue têm, nem mesmo prevê laços matrimoniais ou documentações legais para justificar o título. Apenas gente que decidiu viver junto e, a partir daí, cria e cultiva relações. São subdivisões desse conceito que, mesmo espalhadas aos montes por todo o Brasil, ainda não são completamente aceitas ou compreendidas: família concubinária, monoparental, unilinear, homoafetiva, intessexual, mosaico, unipessoal e eudemonista. Modelos tão antigos quanto a própria existência da forma matrimonial clássica — com seus laços de parentescos, dependências e normas de convivência —, mas que ainda são vistos como fenômenos da pós-modernidade.

Uma forma clara de perceber as mudanças dos padrões é observar as apurações do censo, que datam do século 19. As condições de reprodução, a diminuição da fecundidade e mortalidade, melhores condições de vida e saúde, novos padrões de relacionamento, acontecimentos históricos, econômicos, culturais e sociais são chaves para compreender as novas estruturas familiares.

Segundo o estudo População e Família Brasileira: ontem e hoje, de Arlindo Mello do Nascimento, o primeiro levantamento estatístico oficial brasileiro — o Censo do Império, de 1872 — reconhecia apenas três tipos de modelos familiares: 66% da população era de solteiros; 19%, de casados, e 15% eram viúvas. No início do século 21, o censo já indaga a filiação dos indivíduos, o tamanho da família, número de casamentos, grau de parentesco no casamento, número de filhos nascidos vivos e outros fatores que compreendem a complexidade dessa estrutura. Incorporou-se, enfim, a ideia da convivência.

“Por muito tempo, e ainda hoje, os valores associados à família estiveram apoiados num princípio que atrelava sexualidade, reprodução e casamento, resultando num modelo de família conjugal, com casamento indissolúvel e monogâmico. Mas vemos que as mudanças ocorridas nas famílias, dentro e fora de casa, atingiram todos os segmentos sociais”, afirma Arlindo Mello, no estudo.

“Nesse contexto, ainda mais importante que estudos como o censo é o reconhecimento da legislação às novas estruturas familiares. Até porque é a partir das mudanças na legislação que certos conceitos começam a ser absorvidos pela sociedade”, explica Adriana Caldas do Rego Maluf, mestre e doutora pela Universidade de São Paulo em direito civil e autora do livro Novas modalidades de família na Pós-modernidade.

Pensões alimentícias, comunhão parcial de bens, políticas públicas. São vários os aspectos garantidos pelo Estado a esses modelos que tanto podem abarcar o clássico “marido, mulher e filhos” como, desde maio, dois homens ou duas mulheres que mantém um relacionamento afetivo estável. “É dever da legislação manter-se ampliando seu caráter protetivo, evidenciando a primazia do indivíduo nas relações familiares, o valor da afetividade, o respeito à dignidade da pessoa humana e seus direitos fundamentais”, completa Adriana. Com a decisão do Supremo Tribunal Federal de reconhecer a união entre casais homossexuais, todos os modelos familiares brasileiros têm, agora, praticamente, os mesmos direitos e deveres.

Entretanto, canetadas judiciais não eliminam o preconceito. E, apesar da intensa discussão sobre o tema, outros tipos de famílias ainda lutam para serem socialmente reconhecidas. Mesmo entre aquelas que jamais tiveram dificuldades em receber amparo da lei há problemas em ganhar respeito. “Como se altera uma cultura que parte da sociedade julga negativa? Com tempo e atitudes afirmativas, não há outra maneira”, afirma o advogado especializado em direito civil e professor de direito Sérgio Roncador.

“Nunca existiu um modelo para a família brasileira e mesmo assim ela vai muito bem, obrigado”, afirma Maria Berenice Dias, vice-presidente do Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM). Para quem já vive a realidade de um lar incomum, o maior objetivo é o mesmo de qualquer outro: harmonia. Sejam os que se reúnem no amor entre iguais ou um grupo de amigos que se trata como irmãos de sangue, se todas as formas de amar são permitidas, nada melhor que aceitar também todos os modelos de quem se junta em nome dele.

Tipos de família

Matrimonial – Baseada em casamento legal, de papel passado;

União estável – Casais que vivem juntos e não pretendem se casar;

Concubinária – Casais que vivem juntos e têm a intenção de se casar;

Monoparental – Quando pai ou mãe cria o filho sozinho, em casos de abandono, viuvez ou divórcio;

Unilinear – Mulheres que tiveram filhos por inseminação artificial;

Homoafetiva – Casais do mesmo sexo, que vivem juntos;

Intessexual – Famílias compostas por transexuais ou pessoas de sexualidade ambígua;

Mosaico – Casais de divorciados que vivem juntos, com filhos de casamentos anteriores;

Unipessoal – Composta por apenas uma pessoa

Eudemonista – Pessoas que vivem juntas e são ligadas a qualquer tipo de laço afetivo (amigos, por exemplo)

Os meus e os seus, todos nossos

Apesar de selados como eternos, os laços do matrimônio seguem a dinâmica do bem estar: quando não há mais possibilidade dele existir, não custar nada guardar a aliança e seguir em frente. E, o melhor, saber que há sim muitas possibilidades de que esses mesmos laços possam ser feitos com outra pessoa.

A professora Juliana Marques, 34 anos, e seu atual marido, o músico Paulo Sharbell, 37, experimentaram os prazeres e os problemas do casamento antes de se encontrarem, em relacionamentos que, acreditaram, tinha tudo para darem certo. Mas não deram. Agora, sabem muito bem onde pisar e, mesmo sem buscar um ideal de propaganda de margarina, acreditam ter uma família bem feliz.

“Casei aos 19 anos com meu primeiro marido e, aos 25, resolvemos nos separar. Fiquei achando que jamais teria uma família de novo”, lembra Juliana. Da relação anterior, ficaram Lucas, 14, e Ana Luísa, 10. A professora diz que, por bons oito anos, a vida girava entre os três, mesmo com o pai deles fazendo visitas quinzenais. Ela recorda que ver-se divorciada foi muito difícil. Apesar da cobrança social ser menor, Juliana frisa que as crianças sofreram junto dela. “Elas não estão preparadas para essa situação. Lidei mal com a separação e transmitia minha dor para eles.”

Nos EUA, onde vivia, Paulo cuidava de Felipe, hoje com 4 anos, enquanto via seu casamento acabar. “Nos divorciamos depois de um ano e meu mundo caiu. Não conseguia nem ir a um restaurante se tivesse uma família ao meu lado”, garante o músico. Dessa confluência de histórias e experiências, nasceu essa nova família, que a Justiça classifica como mosaico: um casal que, com sua experiência e filhos anteriores, embarcam em uma nova relação.

A casa acorda cedo. Lucas, às 5h da manhã, tem que se preparar para a aula. Às 7h, Juliana e Paulo, bem como Ana Luísa, que, depois do café, senta à mesa para dar conta das tarefas escolares. Felipe é quem tem o privilégio de despertar às 8h. “Damos aula de inglês ao meio dia e, por isso, o almoço tem de começar a ser feito bem cedo. À noite, ainda confiro tarefa, lavo uniforme, faço jantar. Não tem descanso”, explica Juliana. Ela passou a infância inteira acreditando que as propagandas de família perfeita eram reais, sem querer que as brigas travadas pelos seus pais se repetissem quando ela tivesse a sua própria família.

Mesmo sem jamais ter imaginado uma situação assim — “É muita modernidade. Por exemplo, a atual sogra da ex-mulher do Paulo ama o Felipe, mesmo sem qualquer parentesco com o garoto” —, ela entende que foi preciso todos esses anos para que os dois entendessem como um lar funciona. E, claro, esse funcionamento vai sendo amadurecido com o tempo. A professora diz, por exemplo, que sempre é tenso quando ela ou o marido precisam recriminar os filhos alheios. “É preciso muito diálogo. Quando há reclamações, precisamos não só medir as palavras, mas sempre deixar tudo às claras, de forma bem honesta.”

Outro ponto é a própria visão que cada uma das crianças tem do casal. A mãe de Felipe vive na Finlândia e, apesar da boa relação fraternal, a figura materna do dia a dia é Juliana, que precisa também abraçar essa “atribuição”. “E o Paulo, mesmo com o pais dos meus filhos aqui, é quem representa um pai dentro de casa. Porque são todos filhos. A família é grande e precisa funcionar bem com o que representamos.” A experiência, claro, é benéfica nesse aspecto. Depois de casamentos que tiveram de acabar, agora, o casal pode se esforçar com mais afinco em temas que antes poderiam não ser tão explorados, pela falta de maturidade.

“Foi muito melhor encontrar o Paulo já com o Felipe, com a experiência de ser pai e marido. Agora, a gente busca melhorar nosso relacionamento.” Paulo se assustou um pouco quando montou sua nova família e já recebeu dois filhos no pacote. Mas, como lembra o tempo todo, é extremamente familiar e a sensação de ter tanta gente por perto o deixa bem mais satisfeito que assustado. “Sou filho único e meu pai não tinha irmãos também. Agora, vejo o Felipe com tantos avós e percebo que é melhor assim”, garante.

Um sonho real

No quarto da menina, um castelo de bonecas todo cor de rosa parece pequeno diante de tantos brinquedos. Na sala, ainda se recuperando da semana em que a mãe não pode dar conta de todo o serviço, sobram porta-retratos com fotos de sorrisos. Um deles chama atenção: a imagem dos cinco membros da casa emolduradas pelas letras do nome “family”. Pelo gramado verde que acolhe a casa, mais vestígios de uma família feliz.

No lar da Júlia Magdalena Viegas, 46 anos, vivem Kim, um rapaz de 20, Luiz, um garoto de 14 e Lia, a mocinha de oito. O quinto membro, infelizmente, não está mais presente. Mônica Lopes de Melo, companheira de Júlia por 15 anos, faleceu em 2007, devido a complicações após uma cirurgia de redução de estômago. A casa jamais se deixou abrir para a tristeza e a situação delicada mostrou, com mais força, o quanto eles são unidos.

“Tenho a família dos meus sonhos. A Mônica uma vez disse que eu parecida acomodada. Respondi que tinha tudo o que sempre quis, por que mais? Tinha emprego estável, filhos, uma casa com jardim e uma mulher que me ama”, lembra com bom humor e fala mansa a funcionária do Hospital Universitário da Universidade de Brasília.

A família surgiu de forma inusitada. Quando ainda morava no Piauí, aos 18 anos, Júlia convenceu os pais a adotarem uma criança. Manuela, tecnicamente, era sua irmã, mas ela a tratava como filha. “Sempre tive esse instinto maternal forte.” Aos 21 anos, Júlia foi viver só e, anos depois, adotou seu primeiro filho, Kim. Aos 27 anos, conheceu Mônica, e um relacionamento se iniciou quando as duas, que vinham de namoros que não funcionaram, deram uma chance. Mônica não queria ficar em Teresina e, ao passar em um concurso público, veio para a capital do país. “Ela acabou me convencendo a vir também, tentar um concurso”, lembra.
Passaram a morar juntas no Guará e Mônica, inevitavelmente, se envolveu fraternalmente com o enteado. A convivência deu tão certo a família cresceu: a companheira de Júlia adotou, em seu nome, Luiz, em 1996. O garoto, diferentemente de Kim, viu sempre a dupla como suas mães. “Ele me chamava de mãe e a Mônica, de mamãe. Era essa a diferenciação”, lembra. Mesmo assim, elas ainda mantinham a ideia de que cada uma era responsável apenas pelo seu filho. Até que Luiz foi questionado de quem era a sua mãe. De pronto, respondeu: “As duas”.

“No início cada uma acreditava que cuidava como mãe de seu filho no papel. E ele mostrou para nós algo que não queríamos enxergar. Éramos ambas mães das duas crianças. E como qualquer outra família”, garante Júlia. Foi esse momento que as fez dar início a maturação de um pensamento conjunto: adotar uma menina.

O processo agora era familiar e delicado: passariam pelo processo comum a todos os casais que adotam — mesmo que não pudessem adotar o futuro filho como tal. Fizeram terapia e todo o pré-natal de pais adotivos, conheceram outros casais homoafetivos dispostos a criar filhos. Até os garotos passaram por entrevistas (juntos e separados), nas quais afirmaram que queriam uma irmã, para que mais uma criança órfã tivesse a oportunidade de viver em uma família, como eles.
Lia chegou ainda bebê, e completou o lar feliz. Júlia explica que sempre mostrou aos filhos que, entre ela e a companheira, existiam amor, carinho, responsabilidade, compreensão, e também realidade, como desentendimentos e cobranças. “As crianças nunca questionaram sobre nossa relação. Até porque não sentamos com elas para ter conversas do tipo ‘somos lésbicas’. Da mesma forma como nenhum pai e mãe heterossexual precisa sentar com os filhos e explicar a relação.”

Júlia, que já foi mãe solteira, casada e agora viúva, garante que por lá, a vida corre normalmente. A rotina hoje é de uma mãe só. Emprego, correria, leva e trás de filhos, problemas de saúde, preocupações com o mais velho, mimos para a caçula e ainda os dilemas de toda mãe: “Como a Mônica era a disciplinadora e eu a tranquilona, agora tenho que aprender a ser a mãe que acaricia e que dá também a bronca.”

A lei que integra

5 de maio de 2011. Esse dia se tornou histórico para as relações familiares brasileiras. Em decisão unânime, o Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu a união estável entre casais do mesmo sexo. De fato, como disse o ministro Ayres Brito em seu voto, a interpretação do artigo 226 da Constituição, que trata da definição de família, deve levar em conta que qualquer agrupamento unido de forma duradoura e estável, com repercussões financeiras, por exemplo, é legalmente reconhecido como família.

O advogado e professor de direito Sérgio Roncador frisa que, agora, todo o judiciário tem de pautar casos como esse a partir da decisão do STF. Entretanto, deixa claro, a força da lei não é suficiente para mudar o pensamento da sociedade. “Tecnicamente falando, ninguém mais poderia contrariar. A tendência é que os pequenos obstáculos conservadores, com o tempo, venham a ser superados.”

Não há favorecimento algum aos casais homossexuais. O que acontece agora é que eles terão os mesmos ônus e bônus de uma relação heterossexual que assina um contrato de união estável. Porém, sem direito ao casamento legal. “É preciso que ela passe a ideia de durabilidade. Uniões esporádicas não serão consideradas, nem para heterossexuais, nem homossexuais.”

O advogado acredita que o viés conservador ficará mais nos discursos e os casais homossexuais serão favorecidos. Fenômenos como o de mulheres solteiras que criam os filhos sozinhas também tiveram de conseguir um reconhecimento cultural quando a lei já os contemplava.

Para a vice-presidente do Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM), a desembargadora aposentada Maria Berenice Dias, a decisão do STF não traz uma ideia de nova família. Todas as estruturas familiares sempre existiram, mas são atitudes assertivas como essa que garantem direitos, antes tolhidos por força cultural.

Berenice aponta a influência religiosa como um dos maiores empecilhos para que as diferenças familiares sejam consideradas comuns. “A família não pode mais ser encarada como um espaço de reprodução. A ideia do ‘crescei e multiplicai-vos’ só interessa às igrejas”, atesta. A vice-presidente classifica de bobagem a noção de que a família brasileira corre riscos. Para ela, não importa a estrutura, essa célula social será sempre indissolúvel.

República familiar

Na casa da estudante Amanda Felício Picchi, 22 anos, não há erro maior que deixar as louças sujas. Há também o dia certo para cada um varrer a casa e não tem essa de esquecer, pois, nesse lar, as figuras responsáveis são eles. Vivendo com a irmã, Isabela Felício Picchi, 18 anos, e o namorado, Diego Carlos de Pádua, 21, a divisão de tarefas é algo primordial nessa família em que a juventude não pode ser usada como desculpa para a irresponsabilidade.

Apesar dos parentes dos três viverem em Brasília, eles decidiram morar juntos para ficarem mais próximos da faculdade. Mesmo com o motivo nobre, todas as agruras e prazeres de se viver sozinhos vieram no pacote. “Somos uma família como todas as outras. Dividimos as tarefas, damos bronca um no outro e jogamos videogame”, brinca Amanda.

Essa estrutura diferente foi moldada com o tempo. Após a separação dos pais, Amanda continuou vivendo com o pai, enquanto sua irmã ficou com a mãe. Na faculdade, conheceu Diego, que fazia o mesmo curso dela, letras – japonês. Ao mesmo tempo, seu pai ia ficando cada vez mais na casa da namorada. “Como ele ficava muito tempo fora, a Amanda me chamava muito para vir aqui. Fui ficando, ficando… E agora eu moro”, lembra o jovem.

Em vez de uma crise de ciúmes, o analista de sistemas Ronaldo Pichhi, 47 anos, pai das garotas, adorou a ideia e deu seu aval para que eles vivessem sob o mesmo teto, indo morar de vez com sua companheira. “Prefiro muito mais que eles estejam aqui do que na rua, correndo riscos. Sem falar que essa é uma experiência que os ajuda a amadurecer”, reconhece.

Isabela, a mais jovem, tenta uma vaga na Universidade de Brasília e achou que aquele ambiente seria bem mais propício ao seu objetivo, também se tornando integrante da casa — e da nova família que ali se formava. Para aqueles que pensam que a vida dela é mais divertida que de suas pares na mesma idade, ela dá um aviso: às vezes, a situação é mais tensa que em uma família comum. “Principalmente quando eles gritam: ‘Bel, vai laçar a louça’”, conta, rindo. Isabela, porém, não deixa de ver o quão importante é poder estabelecer os próprios limites, já que, naquele ambiente, eles cuidam um do outro, sem cobranças. Amanda é enfática ao dizer que, realmente, não foi criada para cuidar de uma casa.

Mesmo assim, é quando ela conversa com colegas que percebe a vantagem de, agora, saber fazer tudo por si mesma. “É uma situação diferente, mas sempre tive pais liberais e isso ajudou.”

Ronaldo diz que a maior vantagem é que hoje elas não dependem de ninguém. Todos os problemas que acontecem em casa são resolvidos entre eles, o que é a prova do amadurecimento das filhas e do pseudogenro.

“Até mesmo as brigas não saem daqui. Eles são uma família.” Mas, não pensem que Amanda e Diego já se sentem casados. Os dois deixam claro que a mudança maior foi a possibilidade de poder fazer tudo juntos, mas a ideia ainda é manter o namoro por um bom tempo.

28/06/11

União lésbica também foi convertida em casamento em Brasília!


Publicado no IBDFAM
Indicado pela querida Maria Berenice Dias


Brasília também teve casamento gay nesta terça-feira. É a primeira sentença transitada em julgado, ou seja, não cabe recurso.

A juíza Júnia de Souza Antunes, da 4ª Vara de Família de Brasília, converteu a união estável homoafetiva de Sílvia del Vale Gomide Gurgel e Cláudia Helena de Oliveira Gurgel em casamento nesta terça-feira, dia 28, em Brasília. A advogada na ação, Maria Berenice Dias, vice-presidente do Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM) e maior especialista da área no País, comemorou a decisão. "Ninguém no mundo pode mudar esta decisão", disse.

Segundo Dias, "a Justiça continua nos mostrando que é corajosa". Com o casamento gay, todos os direitos são agora plenamente garantidos aos casais homossexuais. Para a vice-presidente, existe uma demanda reprimida. "Elas pensaram em mudar para a Argentina para se casarem", disse. Para a especialista em Direito Homoafetivo, "não tem porque a lei não atender os sonhos e os desejos das pessoas", garantiu. Para ela, o que o Supremo Tribunal Federal fez foi chancelar o que a justiça já estava fazendo. Berenice esclarece que o Ibdfam solicitou ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ) que todas as ações relacionadas a casais do mesmo sexo sejam encaminhadas às varas de família, onde estas varas específicas existirem.

Silvia Gomide Gurgel afirma que "essa sentença fez com que ganhássemos cidadania, nós não nos sentíamos parte do país. Agora somos cidadãs e desfrutamos de toda a legalidade". O casal conta que já vive junto há onze anos e que o casamento vai mudar apenas aspectos econômicos e emocionais. "Por nos sentirmos parte do país agora, nós, que havíamos pensado em mudar para uma nação que reconhecesse nossa união, vamos ficar e continuar nosso negócio no Brasil, além disso, a sensação de não pertencimento e de viver à margem foi transformada".

Cláudia e Silvia pontuam que a cultura do Brasil não é mudada com sentenças e que há um longo caminho contra a homofobia, mas elas se sentem orgulhosas de fazerem parte dessa transformação. "Achamos que essa sentença é mais importante para o País do que para nós e nos sentimos orgulhosas de fazermos parte disso".

Veja a matéria no IBDFAM: clique aqui!

Documentário Especial:“The Times of Harvey Milk”


O documentário “The Times of Harvey Milk” foi produzido nos EUA em 1984 e relata a vida e carreira de Harvey Milk, o político e ativista gay norte-americano assassinado em 1978. O filme foi dirigido por Rob Epstein, produzido por Richard Schmiechen, e narrado por Harvey Fierstein. Recebeu o oscar de melhor documentário americano em 1985 e o prêmio especial do júri no primeiro Sundance Film Festival, dentre outras premiações. Encontramos o filme completo e legendado no perfil de Jessikpda, no youtube, e postamos aqui, complementando nosso especial de aniversário de um ano do homorrealidade. Segue o documentário:

Passado Negro e futuro duvidoso – Os perigos do discurso religioso contra a democracia - Por Allan Johan


Por Allan Johan para a Revista Lado A

Há 20 anos, no Brasil, quando um casal formado por uma loira e um negro passava na rua, as pessoas olhavam, apontavam e riam. As domésticas eram obrigadas a usar apenas o elevador de serviço nos prédios e os negros eram chamados de pessoas de cor. Essas pessoas de cor eram chamadas de crioulos, macacos, pretos, azul, tição e a eles eram atribuídos os adjetivos: safados, burros, fedidos, pobres, ladrões, entre outros estereótipos anunciados em piadas, conversas e brigas. Na tevê, os negros eram vítimas do humor; Chamados de urubus - apanhavam e eram tachados de preguiçosos!

Se uma mulher branca era violentada, já iam à procura de um negro. Se algo sumia, era culpa deles. Até hoje se um negro passa em um carrão já falam que ele é ladrão. E até hoje polícia faz batidas e blitz com os mestiços e negros muito mais do que com os brancos! Se há um negro na universidade, já dizem que é por cotas. Fora que as vagas de empregos ainda os excluem. As crianças negras não são adotadas no Brasil, todos querem ter filhos brancos – pois eles sofrerão menos preconceito - argumentam! Veja o que o preconceito é capaz!

Em um passado mais antigo, diziam que negros não tinham alma, que não entrariam no céu. Depois, mudaram o discurso e separaram os negros em igrejas diferentes. A escravidão só acabou quando o Papa a condenou, antes, se baseava na Bíblia para dar o aval a esta crueldade. Porém, as religiões de matiz africana continuaram condenadas, a cultura negra foi renegada, colocada como pecado, afronta ao Deus cristão.

Leia o absurdo que chegou a dizer o ex presidente dos EUA, Abraham Lincoln, defensor da escravidão, em 1858: “Há uma diferença física entre as raças branca e negra, diferença essa que, acredito, irá para sempre impedir as duas raças de viverem juntas em termos de igualdade social e política. E, visto que elas não podem portanto viver juntas, enquanto elas permanecerem juntas é necessário existir a posição do superior e do inferior, e eu, assim como qualquer outro homem, sou a favor de que a posição superior seja exercida pelo homem branco". Agora troque as palavras branco e negro por heterossexual e homossexual.

Então, em 1989, criaram a lei que pune o racismo. A lei No. 7.716, de 5 de janeiro. Ela não resolveu o problema mas diminuiu drasticamente a agressão aos afro descendentes, colocando como crime inafiançável o desrespeito e preconceito com base na cor da pele, além de outros tipos de racismo. A mesma lei que o PLC 122 quer incluir a criminalização da homofobia, da discriminação de gênero, dos idosos e dos deficientes. A PLC 122 não cria nada novo, ela inclui outros segmentos nessa lei que impactou positivamente na sociedade brasileira, embora ainda vá demorar gerações até que o ranço da maldade do preconceito suma.

E aqueles que dizem que a liberdade de expressão será comprometida deveriam avaliar e ver se esse argumento se encaixa ao direito de criticar ou ofender os negros. Há os que defendem que estão querendo, com o PLC 122, criar um tipo de cidadão com mais direitos. Mas é a mesma lei do racismo!? Então, estas pessoas que acreditam que ser gay não é característica de nascimento mas um comportamento e afirmam que a Bíblia condena esta prática e não poder citar a Bíblia seria uma censura ao direito de culto ou liberdade religiosa ou de expressão. Ora, a sua religião é que se trata de comportamento, algo humano, aprendido e seguido. Gostaria que você fosse chamado de ignorante, burro, zumbi, alienado por escolher ser religioso? A lei do racismo inclui a proibição por religião. Como que podem criticar uma lei que justamente já os proteje?

Bem, a homossexualidade está presente em diversas espécies animais, inclusive na Bíblia, quando é citado o amor de Davi e Jonatas. E sobre a condenação dos negros na Bíblia, lá se encontram os mandamentos que legitimaram a escravidão do povo africano, bem como a subserviência da mulher e até o apedrejamento e mortes de inimigos. Por que não defendem então a liberdade de culto ou de expressão para combater as mulheres em período fértil que saem as ruas, os homens que cortam as barbas, ou ainda não defendem o apedrejamento, como prega a Bíblia? Ou vamos condenar moralmente a presidenta da República que é divorciada, ou o pastor que se casou novamente, ou mesmo o padre que não tem família pois não tem mulher ou que não faz filhos? Já que este é outro argumento para coibir a homossexualidade, sendo que gays e lésbicas podem sim ter filhos, embora o mundo já esteja superlotado, se não perceberam.

O nosso passado negro nos leva à Era das Trevas, na Idade Média, quando a Bíblia caçou, perseguiu, massacrou como nunca, em nome da fé. Ou mesmo o Holocausto, onde os mesmos argumentos foram usados contra judeus, negros, gays, comunistas e ciganos, entre outros grupos. O argumento da superioridade, o da missão divina, a auto denominação de guardiões da moral e do destino da humanidade. Sim, a religiosidade pode se tornar um princípio nazista, quando prega a superioridade e a higienização. Foi assim no Holocausto, quando foi negada a cidadania dos judeus, até que os tiraram toda a sua dignidade, o direito a serem humanos e legalmente os mataram em câmaras de gás. O discurso cristão apóia os crimes contra homossexuais, pois os assassinos subjugam suas vítimas, não olham ali um ser humano mas um pecador, um objeto de nojo e desprezo, tal como os nazistas aos judeus e outros grupos, tal como os fundamentalistas aos homossexuais.

Liberdade de expressão vem junto com seus deveres e obrigações. Ninguém tem o direito de subjugar o outro, de propagar ódio, ou de se denominar superior por causa de uma religião. Se os ditos representantes divinos assumem esse papel, devem assumir primeiro todos os crimes cometidos em nome da Bíblia, olhar para suas mãos ensangüentadas. Querem o direito de criticar mas não admitem que homossexuais acessem seus direitos constitucionais e nem manifestem o amor em público. Quem está querendo ser especial nesta história? Os heterossexuais nada perdem com o reconhecimento da cidadania plena dos homossexuais. Ganham até, pois aprenderão a evoluir, a se livrar de preconceitos, de mesquinharias. A felicidade alheia pode perturbar? Corromper? Preste atenção neste argumento. Se felicidade dos gays te incomoda, há algo errado com você.

Me nego a direcionar este texto aos religiosos, assim como não publico comentários fora de contexto, com referências a Deus ou à Bíblia no site quando há citações para discriminar gays ou palavras de juízo. Estamos falando de Democracia. O SEU Deus não é único, cada povo e pessoa tem o seu. Se você segue a Bíblia e acredita que este é um manual divino, bem, lamento te informar mas cada religião tem o seu livro e igualmente acreditam que ele é sagrado. E o cristianismo não é a maior religião do mundo, sinto informar novamente. Não importa no que eu acredito, estamos falando de direitos. E o seu começa quando termina o do outro. Então, siga a Bíblia se quiser, dentro da sua casa ou no templo. Do lado de fora, vivemos uma Democracia onde todos tem direitos, seja qual for o seu Deus, e até os que não acreditam em nada ou os que acreditam em divindades maléficas.

Para esclarecer: o meu Deus é bom, o meu Deus é onipresente e onipotente. Por isso não coloco palavras em sua boca, eu o vejo em todos os lugares e não julgo se isso ou aquilo é certo, pois sei que Ele se manifesta de várias formas, além da minha compreensão.

Todo ser humano nasce com um manual de instruções. Não é um livro, não é um destino, não é uma divindade. Todo ser humano nasce com um manual dentro de si e ele se chama cérebro; Foi feito para ser usado. Todo ser humano nasce livre e o jeito que ele usa o seu cérebro sentencia se ele morre livre ou escravo de sua ignorância.