Por Jota Mombaça para o Substantivo Plural
Dica de @jotamombaca_
Queer é um adjetivo da língua inglesa que, se traduzido literalmente, significa “estranho, esquisito”, mas pode também designar “bicha, viado”. No campo da antropologia, as Teorias Queer são aquelas responsáveis pelo estraçalhamento do binarismo de gênero (masculino-feminino) impregnado às perspectivas universalista e relacional. Os Estudos Queer, ou Transviados (como gosta de traduzir Berenice Bento), portanto, estão atentos à imensa diversidade e ao trânsito de identidades que caracteriza a sexualidade humana de um modo geral.
Solange Tô Aberta! é a banda Queer Punk de Pedro Costa (cuja atual “definição de gênero” é bicha-trans-lésbica), que tocou nessa quinta-feira, na última Noite Cultural (termo usado para substituir a palavra “festa”, que é execrada pelos bobões da academia) do XV ENEARTE (Encontro Nacional de Estudantes de Arte) realizado na UFRN. A banda de Pedro se apropria da estética do Funk Carioca (eletrônico, escrachado, etc) para reclamar o espaço negado à experiência queer. Longe de ser politicamente correto, ele agride deliberadamente os bons costumes com sua putaria politizada (mas não panfletária) e sai a distribuir tapas na cara da nossa sociedadezinha injusta e frágil. Mas não é fácil fazer o que ele faz. E isso ficou claro na noite de quinta-feira.
Marcado para as 23hrs, o show da STA! foi escanteado para as 2 da manhã. Mas isso não foi problema, ou pelo menos não teria sido se na hora do show não tivesse havido tanta resistência (do técnico de som? do dono do Circo da Luz? da produção do ENEARTE?) em fazer com que a base eletrônica da música de Pedro pudesse ser ouvida a contento. O papo era aquele do horário avançado, dos limites impostos pela UFRN, etc… Mas a Leilane Assunção puxou o microfone e lembrou algo que os responsáveis pelo ENEARTE parecem ter esquecido: “a natureza do estudante é a insubmissão.” Só então deram a Pedro o som.
Mas ainda assim o show não conseguiu transcorrer sem constantes interrupções de um ou outro “responsável pelo evento” que ficava ali zanzando com cara de preocupação, eventualmente interrompendo a apresentação para falar alguma coisa ao Pedro, que, no palco, BOTOU PRA FODER apesar dos pesares. Cheguei a ouvir, nos bastidores, uma das figuras da produção comentar com a outra que se dali caísse algum vídeo no youtube e alguém da reitoria visse, eles (os estudantes responsáveis pelo ENEARTE) estariam fodidos. Mas que bando de covardes acatando o fascismozinho mal-disfarçado dos babacas da instituição!
A certa altura, quando Pedro já estava de calcinha no palco, e o público em êxtase no centro da arena, foram avisá-lo que lhe restavam apenas mais 15 minutos de apresentação. Então ele decidiu deixar Fuder Freud (minha música preferida) para lá e partir direto para a Dança da Passiva, encerrando assim seu conturbado show. No entanto, no meio da música, quando o público, que estava no chão, subiu ao palco (do mesmo modo como Pedro desceu à arena várias vezes, desconstruindo a hierarquização artista-público que se materializa na mais-altura do palco) para dançar o último Funk-Punk da noite, ocorreu a cena mais absurda que eu já vi nesta (merda de) cidade: os seguranças subiram ao palco para tanger para baixo artista e público, criando uma confusão que culminou no truculento corte do som de Pedro.
Acreditem: CORTARAM O SOM DA FESTA! Mesmo assim não conseguiram cortar a garganta da platéia nem a de Pedro, que seguiu cantando a Dança da Passiva apesar do som cortado. No fim, ainda comentou, antes de ir embora: “liga não, gente… eu tô acostumado… aconteceu a mesma coisa em Brasília…”
Mas eu digo que não dá para não ligar. O fato de que o único queer escrachado (porque de Macho Transtornado o paraíso está cheio) a subir ao palco das “Noites Culturais” do ENEARTE tenha sido também o único artista a ter o show dificultado neste mesmo palco é por demais forte simbolicamente para eu não me abalar.
CUCETA – A Cultura Queer de Solange Tô Aberta

























