01/03/2012

Psicólogo não muda orientação sexual, rebate presidente de Conselho Federal


Publicado no Terra
Por Ana Cláudia Barros

O presidente do Conselho Federal de Psicologia (CFP), Humberto Verona, considerou "muito preocupante" a movimentação da Frente Parlamentar Evangélica (FPE) para tornar sem efeito a resolução da categoria que "estabelece normas de atuação dos psicólogos em relação à questão da orientação sexual". Um Projeto de Decreto Legislativo com esta finalidade foi apresentado pelo deputado federal João Campos (PSDB-GO), que preside, no Congresso, a FPE, atualmente composta por 76 parlamentares, três deles, senadores.

A Resolução 001/99 do CFP determina que os profissionais da área não podem exercer "qualquer ação que favoreça a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas", nem adotar "ação coercitiva tendente a orientar homossexuais para tratamentos não solicitados". Veta ainda qualquer manifestação pública de psicólogos no sentido de "reforçar preconceitos sociais existentes em relação aos homossexuais como portadores de qualquer desordem psíquica".

- Nossa resolução é muito cara aos psicólogos, não só brasileiros, mas os de todo o mundo. Somos chamados em vários países para falar dessa experiência que temos no Brasil. Ela tem sido um exemplo. Vamos fazer todo esclarecimento público possível. A intenção dos deputados que estão cuidando disso é outra. Ela tem uma origem moral, nos seus conceitos religiosos. Não há uma preocupação real com a sociedade. Se houvesse, esses deputados estariam defendendo a resolução, o direito de as pessoas terem sua orientação sexual exercida com liberdade e respeito. Vamos tentar sensibilizar a opinião pública para que isso não avance - afirma Verona.

Na avaliação do presidente do CFP, a bancada evangélica além de interferir diretamente no exercício da profissão, pode abrir precedentes, ferindo à laicidade do Estado.

- Achamos que uma lei que possibilite, por concepções religiosas, que profissionais tratem de orientação considerada "inadequada" é um problema grave para a sociedade brasileira. Não podemos deixar isso passar. O projeto é um retrocesso e é uma interferência na própria legislação do País, que organizou o exercício das profissões. No Brasil, temos leis que criam conselhos e que delegam aos próprios profissionais fazer a regulação da sua profissão de acordo com as necessidades e demandas da sociedade. Queremos continuar a ter garantias do nosso direito de fazer isso.

Verona lembra que a concepção de naturalidade da orientação heteroafetiva é contestada pela psicologia.

- Toda essa pressão está muito dirigida à orientação homoafetiva, porque há aqueles que acreditam na naturalidade da orietação heteroafetiva, como sendo a orientação natural da espécie humana. A psicologia e outras ciências já compreenderam que não é assim. A heterossexualidade não tem nenhuma natureza especial, diferente da orientação homoafetiva. Ambas as orientações fazem parte da dimensão subjetiva, da experiência da sexualidade humana. Então, para nós, não existe uma orientação que é a natural e a normal e uma desviante, que precisa ser tratada. Há um equívoco de base na compreensão da própria questão da sexualidade. Sabemos que o equívoco não é por ignorância, mas acontece por uma questão de filiação a fundamentos religiosos, que pregam isso.

O presidente do CFP explica como deve ser a abordagem do profissional quando procurado por um paciente em conflito devido à orientação sexual:

- Por termos outra concepção, nosso código de ética nos impede de oferecer cura. Nem o heterossexual que quer virar homossexual nem o homossexual que quer virar hétero. Temos que investigar qual sofrimento está sendo produzido naquele sujeito a partir da sua orientação sexual. Nosso papel é cuidar do sofrimento. Temos que acolher o sujeito e ajudá-lo a entender porque sofre. O sofrimento não é pela prática de uma orientação sexual, mas pelo conflito que isso gera em função da expectativa que a pessoa tem em relação ao grupo social no qual convive. É nosso papel ter essa compreensão.

Humberto Verona esclarece que a prática do psicólogo não pode sofrer interferência de crenças religiosas.

- A fé de cada um não pode ser exercida numa prática comum no conjunto de uma categoria profissional. Todos têm o direito de ter sua fé individualmente, mas no momento do exercício profissional, dispomos de métodos, técnicas, teorias que são validadas socialmente, por órgãos de regulação, por instâncias de pesquisas. Não dá para misturar o exercício da profissão com a profissão de fé de cada um.

Veja a publicação no Terra: clique aqui!

5 comentários:

Beatriz Alencar disse...

muito explicativo...gostei.

Tîagkauê disse...

Os homossexuais não recorrem aos psicólogos para permanecerem do jeito que estão. No fundo, eles sabem que estão lutando contra a própria essência. Discordo dessa posição de que a sexualidade independe da natureza. Pois a própria ciência afirma que o natural do homem e ter atração pela mulher e vice-versa. Portanto, o que se opõe a isso não é natural.
Os homos buscam auxílio profissional porque sabem que algo está errado e querem reparar. Esse "algo" não está necessariamente ligado ao medo da rejeição. Pois o verdadeiro conflito está dentro deles.
A psicologia poderia, por exemplo, contar o número de pessoas que fizeram cirurgia de mudança de sexo e ainda assim não se sentem felizes como estão?
Os psicologos devem ajudar essas pessoas com a confusão em suas mentes, e não ajudarem elas a afundarem ainda mais no problema. Já imaginaram como deve ficar um homem que ao se olhar no espelho vê uma mulher, sabendo que ele não é assim e que está, na realidade, vivendo uma mentira? Por isso, acredito que,quando essas pessoas conseguem encontrar o que as conturba e as vence, passam a se aceitar como são por natureza: héteros.
A propósito, a religião é criticada nesses aspectos, porque os religiosos têm uma visão muito mais ampla do que o superficial, conseguindo assim detectar o que realmente está afetando o ser humano.
E como pode a culpa ser da religião se, com tantas igrejas espalhadas pelo mundo, a maioria das pessoas continua sem religião nenhuma? E é extamente a maioria que não aceita a prática homossexual? O povo não precisa ser cristão para enxergar o que está tão claro.

CatarinaZS disse...

Vc diz que "Pois a própria ciência afirma", vc se refere a que teorias e estudos? Verona fala com base em pesquisas, estudos e teorias. E você fala com base no senso comum ou ciência?

Vc diz: "acredito que,quando essas pessoas conseguem encontrar o que as conturba e as vence, passam a se aceitar como são por natureza: héteros." Não é uma questão de crença, mais uma vez eu pergunto: há experiencias e relatos de caso que afirmem que em terapia um conflito foi resolvido resultando em mudança de orientação sexual? aponte as fontes do estudo que gostaria de conhecê-la!

E se uma pessoa me procura porque está em conflito psicológico porque descorbriu que é portadora da AIDS e acha que com terappia eu devo curá-la? como o psicólogo deveria proceder? como charlatão prometendo o que sabe não ser vapaz de cumprir ou auxiliando a pessoa a conviver com a realidade?

MFIRME disse...

E ainda complememto: o que me diz dos casais héteros que se traem? Acha que não sofrem com isto? a traição é um ato no meu ponto de vista, que causa muito mais sofrimento em um ser humano. E o que a religião diz disso? A homossexualidade vem desde antes de cristo, por isso acho que é uma questão genética. Por isso que penso que religião só serve para disseminar o ódio e o preconceito entre os povos. É tão hipócrita essa bancada evangélica sabendo que entre os seus, existem tantos que são homossexuais.

Edson disse...

Existem sim metodos na psicologia que podem mudar o comportamento, sobretudo no comportamentalismo e na psicanalise profunda, que podem sim muda a orientação, é direito dos profissionais usarem esses metodos caso sejam solicitados pelo livre arbitrio do paciente em sã consciencia.