06/04/12

"AS HORAS" Por Ítalo Damasceno



*Por ÍTALO DAMASCENO especial para o Homorrealidade


Quando alguém escreve um livro, uma série de ligações se formam: a do escritor com seu personagem; do escritor com o leitor; do leitor com o personagem. Essas relações são mágicas e, algumas vezes, extremamente profundas, podendo determinar uma vida inteira. Eu já tive várias dessas conexões e, quem já teve também, sabe como elas são importantes para a nossa vida. Por isso AS HORAS (The Hours, 2002) é um filme tão emocionante.

Feito a partir do livro de Michael Cunningham, o filme de Stephen Daldry é lindo e a trilha sonora de Philip Glass faz o coração bater mais forte.

Virginia Woolf – interpretada pela premiada com o Oscar por este papel, Nicole Kidman – está escrevendo Mrs. Dalloway, nos anos 20, e tenta se adaptar à vida no subúrbio, em Sussex. Laura Brown – interpretada por Julianne Moore – está grávida, é aniversário do seu marido e, para comemorar, ela resolve fazer um bolo enquanto lê o livro de Virginia, em 1951. Clarissa – feita por ninguém menos que Meryl Streep – vive no século XXI e está preparando uma festa para um amigo poeta, que tem AIDS, e vai receber um prêmio. As três histórias paralelas se passam em um dia da vida de cada uma, assim como da protagonista do livro de Virgínia, até se encontrarem em uma epifania.

Oscar merecido

O filme, assim como o livro de Cunningham, tem o nome que primeiro Virginia batizou seu livro. Depois ela mudou para Mrs. Dalloway, mas As horas define bem o sentido devastador de uma vida oprimida. As horas de uma vida assim são dolorosas e nos empurram para um desfecho trágico ao pensar nas horas pelas quais ainda vamos passar. A menos que um acontecimento nos faça encarar o vazio em que estamos. Muitas vezes, é necessário que seja um fato que nos doa de verdade para que se saia de um estado de inércia e se encara a vida de frente.

Sem contar a histórica bissexualidade de Virgínia e o fato de que Clarissa é casada com uma mulher. Aliás, Virgínia trata da bissexualidade em um livro seu, Orlando, a história do belo homem que vive cinco séculos e, durante sua existência, magicamente vira uma mulher. História digna de um post no Homorrealidade.

As horas possui uma história de catarse, de enfrentamento da existência. Do que significa de verdade enfrentar as horas. De que todos os dias optamos entre a vida e a morte. E apesar de Virginia Woolf ter se matado por conta de problemas psiquiátricos, este ato sempre me faz pensar. Pensar naquelas pessoas que abriram mão das suas vidas para que pensemos quanto realmente vale a nossa.


Trailer


Trilha sonora de Philip Glass


*ÍTALO DAMASCENO é advogado; era campeão de tabuada no colégio; e sempre pensa em sacanagem quando vê aquele monte de ovos de páscoa pendurados nos supermercados.

Um comentário:

Anônimo disse...

Infelizmente nunca tive a oportunidade de assistir As horas, mas gostei muito da sua resenha do filme aliada a comentários da vida. Sobretudo esse fim, quando vc diz que (parafraseando) que é preciso alguns abrirem mão de sua vida para que nós (ainda viventes) valorizemos as nossas. Muito bom. És um excelente resenhista. Abraço.