*Por ÍTALO DAMASCENO especial para o Homorrealidade
Quando alguém escreve
um livro, uma série de ligações se formam: a do escritor com seu personagem; do
escritor com o leitor; do leitor com o personagem. Essas relações são mágicas
e, algumas vezes, extremamente profundas, podendo determinar uma vida inteira.
Eu já tive várias dessas conexões e, quem já teve também, sabe como elas são
importantes para a nossa vida. Por isso AS HORAS (The Hours, 2002) é um filme
tão emocionante.
Feito a partir do livro
de Michael Cunningham, o filme de Stephen Daldry é lindo e a trilha sonora de
Philip Glass faz o coração bater mais forte.
Virginia
Woolf – interpretada pela premiada com o Oscar por este
papel, Nicole Kidman – está escrevendo Mrs.
Dalloway, nos anos 20, e tenta se adaptar à vida no subúrbio, em Sussex. Laura Brown – interpretada por Julianne
Moore – está grávida, é aniversário do seu marido e, para comemorar, ela
resolve fazer um bolo enquanto lê o livro de Virginia, em 1951. Clarissa –
feita por ninguém menos que Meryl Streep – vive no século XXI e está preparando
uma festa para um amigo poeta, que tem AIDS, e vai receber um prêmio. As três
histórias paralelas se passam em um dia da vida de cada uma, assim como da
protagonista do livro de Virgínia, até se encontrarem em uma epifania.
Oscar
merecido
O filme, assim como o
livro de Cunningham, tem o nome que primeiro Virginia batizou seu livro. Depois
ela mudou para Mrs. Dalloway, mas As horas define bem o sentido devastador
de uma vida oprimida. As horas de uma vida assim são dolorosas e nos empurram
para um desfecho trágico ao pensar nas horas pelas quais ainda vamos passar. A
menos que um acontecimento nos faça encarar o vazio em que estamos. Muitas
vezes, é necessário que seja um fato que nos doa de verdade para que se saia de
um estado de inércia e se encara a vida de frente.
Sem contar a histórica
bissexualidade de Virgínia e o fato de que Clarissa
é casada com uma mulher. Aliás, Virgínia trata da bissexualidade em um
livro seu, Orlando, a história do
belo homem que vive cinco séculos e, durante sua existência, magicamente vira
uma mulher. História digna de um post no Homorrealidade.
As
horas possui uma história de catarse, de enfrentamento da
existência. Do que significa de verdade enfrentar as horas. De que todos os
dias optamos entre a vida e a morte. E apesar de Virginia Woolf ter se matado
por conta de problemas psiquiátricos, este ato sempre me faz pensar. Pensar
naquelas pessoas que abriram mão das suas vidas para que pensemos quanto
realmente vale a nossa.
Trailer
Trilha sonora de Philip Glass
*ÍTALO DAMASCENO é advogado; era campeão de tabuada no colégio; e sempre pensa em sacanagem quando vê aquele monte de ovos de páscoa pendurados nos supermercados.


Um comentário:
Infelizmente nunca tive a oportunidade de assistir As horas, mas gostei muito da sua resenha do filme aliada a comentários da vida. Sobretudo esse fim, quando vc diz que (parafraseando) que é preciso alguns abrirem mão de sua vida para que nós (ainda viventes) valorizemos as nossas. Muito bom. És um excelente resenhista. Abraço.
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