25/05/2012

"LORCA" Por Ítalo Damasceno


*Por ÍTALO DAMASCENO especial para o Homorrealidade 


Quanto da vida de um autor está dentro de suas histórias? E quanto dele próprio está em suas personagens? Essa é uma das perguntas que perpassam pela cabeça ao ver a peça UMA ÚLTIMA CENA PARA LORCA, de Antônio Roberto Gerin.

Nessa história, Federico Garcia Lorca, o grande poeta e dramaturgo de Andaluzia, que hoje é comparado a Miguel de Cervantes em importância na literatura espanhola, escreve uma peça ao mesmo tempo em que foge do regime franquista. Em sua última obra, ele conta a história de Maria, uma moça moradora de uma aldeia, tão comum na obra de Lorca. Maria deu um mau passo e por isso não deve mais sair de casa e só pode usar preto ou cinza. Por causa disso, homem nenhum a quererá, mas, se ela vir a casar, será apenas por ser bonita, como dizem os vizinhos. Mas Maria não segue as convenções e usa roupas coloridas, se pinta e vai ao portão, para terror de sua mãe.

Para piorar, a essa personagem tão voluntariosa e difícil, Lorca prometeu dar-lhe um final feliz. E ela cobra dele esse final o tempo todo e nem mesmo os problemas de Lorca no mundo real são justificativas para que ele não o dê a ela. Mas como dar um final feliz a alguém que faz tudo o que quer? “O mundo não é assim, Maria”, lamenta Lorca. Na verdade, ele também tem esperança de encontrar um final feliz para a moça, porém sempre o destino, ou a própria Maria, agem de forma que fazem surgir mais um empecilho. Paralelamente, Lorca está lutando para sobreviver e precisa se esconder por ter feito tudo o que quis: difundir ideias comunistas e ser assumidamente homossexual. Como chegar a um final feliz com protagonistas assim?


Nesta última estória criada por Lorca - que não sei dizer se realmente foi escrita por ele ou apenas um mote para a peça -, se encontram todos os elementos típicos das suas obras mais famosas, como Yerma, Bodas de Sangue e A casa de Bernarda Alba: mulheres oprimidas pelo machismo e por regras que somente elas são cobradas de segui-las; um lugarejo pequeno, injusto e violento; personagens fortes e doloridos, como a tia solteira que sempre se veste de preto e cobra retidão moral de todos e a vizinha solteirona, porém alegre; além da traição, a mentira, o amor e a morte.

A montagem que se vê no Teatro Caleidoscópio, com direção de André Mauro, é um banho de Lorca. Trilha sonora espetacular que faz o coração tremer a cada batida do violão e a cada reviravolta nas vidas de Maria e Lorca. Sem contar o elenco totalmente afinado – nas interpretações e nas vozes, pois eles cantam muito. O espetáculo dá uma sensação de estarmos dentro da casa, preso junto com eles. Acho que por isso o espaço é tão pequeno, com número reduzido de expectadores, o que apenas torna a experiência mais forte e vívida.

Curioso pensar que, em suas peças mais famosas, as chamadas tragédias rurais, Lorca nunca dava um final feliz. Muito pelo contrário. Seu final é sempre um mergulho na dor profunda dos seus personagens e a conclusão sempre é de que aquela tragédia jamais poderia ser evitada. Não com um mundo como esse. Não com pessoas como aquelas.

Talvez por isso suas estórias tenham finais tão tristes. Para que as pessoas, após vê-las, se sintam tocadas de tal maneira que não tenham coragem de oprimir mais ninguém. E assim se tenha, quem sabe, um mundo melhor.



Data: 4 de Maio a 10 de Junho.
Hora: Sextas e sábados às 21h. Domingos às 20h.
Local: Teatro Caleidoscópio - SLSW 102 Bloco C, Sudoeste - Brasília - DF



Ingressos
R$ 40,00 (inteira) R$ 20,00 (meia)


Mais informações
(61) 3344-0444


*ÍTALO DAMASCENO é advogado; reza toda noite para que nunca apareça na vida dos seus leitores uma Carminha e nem uma Rita; e acredita que ser uma viúva de uma peça de Garcia Lorca é a pior coisa que possa acontecer na vida de uma pessoa.

6 comentários:

Anônimo disse...

Mais um ótimo post... esse Guri tem cultura

Conferido

Carlos

Augusto Martins disse...

Confesso que sempre leio as postagens do Ítalo só pra ver os comentários a seu respeito. É hilário! rs

Ítalo Damasceno disse...

Você não é a primeira pessoa que diz isso, Augusto, e eu posso te dizer que eu adoro quando alguém me diz isso. =D

Josuel Junior (só para escrever) disse...

Muito grato pelas colocações.

Ítalo Damasceno disse...

Caraca, você é o Lorca!!! Também vi você representando em "Dia de visita". Muito feliz que você leu o texto. O trabalho de vocês é demais.

Wilton Lopes disse...

Já assisti A casa de Bernada Alba e percebo que as montagens das obras de Lorca sempre segue essa ideia de se colocar os espectadores dentro da cena o que confere uma maior realismo a cena. Texto muito bom!

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