Por Augusto Martins - especial
para o Homorrealidade.
A gente nunca cansa de ouvir uma
boa conversa quando o assunto é "homem", "mulher" e "relacionamento afetivo", "vida e morte", "beleza e autoestima", "desafios e superações". Sabe aquelas dúvidas
que todos nós temos quando embarcamos (ou pensamos em embarcar) em um
relacionamento? O homem ideal existe? Quais os requisitos do seu homem ideal?
Foi numa conversa via facebook que
um dos meus amigos me indicou o livro da ex-BBB, Elenita Rodrigues. Confesso
que eu não gostava da Elenita no reality show, mas mudei de opinião
ao ler o seu livro.
“Homem Ideal e Outras Conversas”
é basicamente um misto de textos sobre amor-próprio, fim de relacionamento,
solteirice, amor, infância e um monte de coisas confusas e interessantes. Ouso
em dizer ainda que não se equipara à grandeza das palavras da Martha Madeiros –
escritora brasileira, que fez sua carreira literária deslanchar nos últimos
anos escrevendo muito bem sobre a descrição de sentimentos universais
provocados pela perda e pelo amor em si. Quem tiver oportunidade, leia os
livros de Martha; é uma bagagem pra vida toda.
Vasculhando algumas pastas esses
dias achei antigas fotos que me levou para uma cena que nunca me esqueci: era
junho de 2009. Estava sufocado e não via a hora de terminar o ensino médio.
Levantava da cama e seguia rumo à escola como se todo dia eu enfrentasse um
parto normal para sair da minha cama, com grito, choro, dor e revolta. Tinha
terminado um relacionamento e não passaria os dias dos namorados ao lado de uma
paixão de outono. Uma sensação de quietude amortizante pairava no meu
quarto, na rua, na escola. Só as amigas mais próximas que me consolava.
Teve um dia que não me controlei:
chorei durante as cinco aulas e fui surpreendido com a seguinte voz lá no fundo
da sala: “mas por que ele tá chorando? Ele é gay” Juro para vocês que não sabia
o que responder. Mal sabe ela que o amor homossexual é tão legítimo quanto ao
hétero.
Voltando a história do livro e
aproveitando a data de hoje – dia dos namorados – resolvi transcrever um trecho
do “Homem Ideal e Outras Conversas” para todos aqueles que buscam encontrar
esse tal homem.
Meu namorado imaginário tem
mais ou menos a mesma idade que eu, não fuma, gosta de filosofia (pode não
entender nada, mas tem que achar lindo!), não tem história mal resolvida com
ninguém, gosta de cinema, domingo em casa, passeio no parque e é absolutamente
encantado pela beleza das coisas pequenas: um cheiro, um beijo, um carinho, um
jasmim. Sem motivos. A gente tem um cachorro (que pode morar na casa dele, já
que meu apartamento é MUITO pequeno), planos compartilhados de visitar o
Oriente, plantar flores num jardim e passar férias longas em um país estrangeiro.
Desses bem esquisitos. A gente se entende pelo olho, pele, saliva, coração.
Nosso tesão começa é na alma. Só que explode.
Meu namorado imaginário tem o
sorriso mais bonito do planeta Terra. E quando sorri de cantinho (disfarçando
pra eu não ver que ele não gostou do meu sapato cor de melancia), eu finjo que
fico brava, mas na verdade eu acho lindo. E ele me abraça de um jeito que me
faz sentir mais perto de Deus. E a gente se encontra naquele intervalo entre as
coisas que são ditas e as coisas que as palavras não alcançam... e se
transubstancia em galáxias, cores, cometas, estrelas, incandescências... tudo
ao mesmo tempo (imanências).
Meu namorado imaginário, às
vezes vai comprar pão quentinho de manhã bem cedo, mas às vezes fica na cama
ronronando feito um gatinho, cheio de manha, até tarde enquanto pede mais um
dengo emburrado. E a gente se embola num aconchego gostoso de quem esqueceu que
segunda é dia de trabalho. E as histórias de domingo estampam sorrisos mudos
que nos escorrem pelos olhos. E a gente chora sem lágrimas. E se sente meio
como numa história de cinema. Francês.
Meu namorado imaginário apoia
meus sonhos, mesmo que não concorde com eles. É um homem que admiro muito mais
do que consigo expressar com palavras. Tem manias tão irritantes quanto lindas
que nos rendem as mais inusitadas histórias. Como ter medo de escuro ou não
lavar a camisa em dia de jogo contra o Palmeiras. Ele me ensina a ser uma
pessoa melhor. E me entende quando eu não consigo. Porque ninguém consegue às
vezes. Nem ele.
Com meu namorado
imaginário cada dia é um mergulho. E eu não preciso ter medo, porque nosso
desejo é enternecer nosso universo. De um jeito que a gente não entende, mas
que vibra e de repente faz tudo parecer que tem sentido. E a gente entende, como
naquele texto da Marla, que ‘encontramos leveza nas emoções
que nos transbordaram porque estávamos prontos e escrevemos um dicionário de
palavras distraídas. Adentramos no corpo de um poema recente, ainda disforme e
falamos de amor usando a metáfora mais inocente. E então agradecemos
profundamente por esta outra pessoa inteira, que jamais será uma metade e que,
para a soma, com todas as alternativas que teve, preferiu seguir...’
Namorei três vezes e nunca passei
o dia nos namorados com alguém ao meu lado. Acho que é essa é minha sina: não
receber presentes no dia 12 de junho, não ganhar mimos e muito menos café da
manhã na cama. Quando? Onde? Quem? Eu não sei. Mas o mais importante é
mesmo a jornada e não a meta. Um dia a gente o encontra e ele nos reconhece.
Se existe algo que possa confortar
os solteirões de plantão está aqui:
12 de junho - dia dos namorados.
Os outros 364 dias são nossos.
Um abraço com muita ternura!!!


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