27/02/2013

“A homossexualidade é uma bomba relógio na igreja”, diz ex-frei

 
Por Kiko Nogueira
 
Um ex-frei dominicano deu uma entrevista à veterana jornalista Christane Amanpour, da CNN. Disse ele que a homossexualidade é uma bomba relógio na igreja. Seu nome é Mark Dowd.
 
Dowd é gay assumido. Expulso de sua congregação, trabalha como jornalista free lancer e documentarista. Tem uma coluna no jornal inglês The Guardian. Segundo ele, os homossexuais são “amplamente representados na igreja. Cerca de metade das pessoas que entram em seminários são gays”.
 
Dowd falou depois que, na segunda-feira, o Vaticano anunciou a renúncia do arcebispo da Escócia, Keith O’Obrien, na esteira de denúncias de que ele havia tido relacionamentos impróprios com outros colegas. Jornais italianos vem dando matérias sobre uma rede de chantagens envolvendo uma certa “cabala gay”. Ela é um dos itens citados nos Vati-leaks, os documentos que mostram corrupção, disputas entre cardeais, transações financeiras mal explicadas e o diabo. Seria uma das causas de Bento XVI ter saído. Em seu último pronunciamento na Praça São Pedro, Ratzinger declarou que enfrentou “águas agitadas e vento contrário”, mas que tem fé que Deus não vai deixar “a igreja afundar”.
 
É claro que a história não contada da aposentadoria do papa envolve muito mais do que uma grande conspiração homossexual. Mas, numa instituição que vive do segredo e da culpa, segundo Dowd, você tem as condições ideais para o crescimento da extorsão e da manipulação.
 
A igreja tem uma expectativa absurda dos padres no que tange ao sexo. O celibato foi sacramentado no Quarto Concílio de Latrão, de 1215 e no Concílio de Trento, entre 1545 e 1563 (antes disso, conta-se que no Concílio de Constança, em 1418, 700 prostitutas atenderam os clérigos que debatiam o assunto). Alguns conseguem lidar com ele. Um bom pedaço – como se tem visto – não consegue.
 
Dowd é um militante da causa. Fez um documentário, Queer and Catholic, em que entrevistou dois sacerdotes que se apaixonaram e tentaram levar adiante essa questão com seus superiores. Foram rechaçados sumariamente. Um deles revelou que seus chefes mais homofóbicos eram os mesmos que procuravam parceiros no Monte Capitolino, famoso parque em Roma. (O cardeal O’Brien, antes de dar o fora, afirmou que o casamento entre pessoas do mesmo sexo era “uma tentativa de agradar um pequeno grupo de ativistas em detrimento de toda a sociedade. Eliminaria a ideia básica de que toda criança precisa de um pai e de uma mãe”.)
 
A homofobia não é exclusividade do Vaticano (vide, para ficar num exemplo recente, o nosso querido pastor Malafaia). Agora, a pressão para que seus líderes finjam ignorar sua sexualidade é injusta, sem sentido – e tem consequências. Como a igreja católica é medieval e pequenas e eventuais mudanças ocorrem a cada 500 anos, é altamente improvável que algo vá acontecer. Enquanto isso, os seminários continuarão cheios. Como diria Libaninho, o beato de O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queiroz, com as mãos na cabeça: “Nossa Senhora das Dores, que até pode cair um raio!”.
 
 

Um comentário:

Anônimo disse...

Que visão lúcida e definitiva da problemática sexual/moral do grupo religioso de maior prestígio no Ocidente. A previsão de mudanças na igreja católica a cada 500 anos parece até otimista, mas é a sociedade, o mundo real, que está a exigir pressa nas transformações. Bom descanso, Ratzinger, e que o sucessor seja um pouco menos reacionário!!!

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