20/02/2013

A nova geração gay nas universidades dos EUA



Publicado pela Folha
Por Michael Schulman, do New York Times
Tradução de Clara Allain

Após a luta por direitos civis nos anos 60 e o desbunde dos 70, chega à maioridade geração que busca se afirmar com designações o mais abrangentes possível. Agênero, bigênero e intersexos estão entre as denominações abrigadas sob a nova sigla LGBTQIA, que já ganha espaço oficial em universidades dos Estados Unidos.
 
Em março do ano passado, Stephen Ira, aluno do Sarah Lawrence College, postou um vídeo no site We Happy Trans, que divulga "visões positivas" sobre a condição dos transgêneros. No vertiginoso monólogo, um descabelado Stephen, em seu quarto na residência universitária, declarou-se "bicha, guerreiro nerd, escritor, artista e um cara que está precisando cortar o cabelo" e discursou sobre tudo, de seus ícones de estilo (Truman Capote e "qualquer pessoa de identificação masculina que use meia três-quartos ou cinta-liga") a sua zebra de brinquedo.
 

 
Stephen, cujo nome de batismo é Kathlyn, é o filho de 21 anos de Warren Beatty e Annette Bening, e por isso o vídeo tornou-se viral e foi visto quase meio milhão de vezes. Mas só por isso. Com sua eloquência livre, movida a adrenalina, mais parecia um grito da nova geração de ativistas de gênero pós-gays, dos quais Stephen representa um raro rosto público.
 
Stephen e seus pares vêm forjando uma identidade política que volta e meia destoa da cultura gay do "mainstream". Se o movimento gay hoje parece ter como foco o casamento gay, a geração de Stephen busca algo mais radical: virar de ponta-cabeça os papéis e superar o binômio macho/fêmea. A questão não é quem eles amam, mas quem são --ou seja, sua identidade, diferente da mera orientação sexual.
 
Mas que nome dar ao movimento? Se já se usou "gays e lésbicas" para agrupar diversas minorias sexuais --e, mais recentemente, a sigla LGBT, para incluir os bissexuais e transgêneros--, a nova vanguarda quer uma abreviação abrangente. "Os jovens de hoje não se definem no espectro do LGBT", disse Shane Windmeyer, fundador do Campus Pride, grupo estudantil de defesa da causa, com sede em Charlotte, na Carolina do Norte.
 
Parte da solução é acrescentar letras à sigla, e a bandeira dos direitos pós-pós-pós-gays tem ficado mais longa --ou frouxa, para alguns. A sigla que está pegando, em especial nos campi de ciências humanas ou artes, é LGBTQIA. A mesma letra pode designar diferentes coisas. O Q pode ser de "questionador" ou de "queer" (bicha), termo que foi pejorativo até sua apropriação por ativistas gays, nos anos 90. I é de "intersexos". E o A simboliza tanto "aliado" (simpatizante) como "assexuado".
 
A Universidade do Missouri, em Kansas City, tem seu Centro de Recursos LGBTQIA que, entre outras coisas, ajuda os alunos a localizar banheiros "de gênero neutro" no campus. O Vassar College tem um Grupo de Discussão LGBTQIA nas tardes de quinta. A Universidade Lehigh promove sua segunda Conferência Intercolegial LGBTQIA, seguida por um Baile Queer. O Amherst College tem um Centro LGBTQQIAA, no qual cada grupo ganha sua própria letra.
 
"Há uma geração muito diferente chegando à maioridade, com concepções completamente diferentes de gênero e sexualidade", disse Jack Halberstam (antes Judith), professor transgênero da Universidade do Sul da Califórnia e autor, mais recentemente, de "Gaga Feminism: Sex, Gender, and the End of Normal" (Feminismo Gaga: sexo, gênero e o fim do normal).
 
"Quando você vê termos como LGBTQIA, é porque as pessoas enxergam tudo o que não se enquadra no binômio e exigem que seja criado um nome para elas", diz. Com a profusão de novas categorias, como "genderqueer" ["gênero bicha"] ou "andrógino", cada uma dotada de uma subcultura on-line, montar uma identidade de gênero pode ser um verdadeiro trabalho do tipo "faça você mesmo".
 
Oito calouros da Universidade da Pensilvânia se reuniram no ano passado, frustrados com a inexistência de um grupo que os representasse. A universidade já tinha duas dúzias de grupos de gays, incluindo o Negros Gays, a Aliança Lambda e o J-Bagel, a "comunidade judaica LGBTQIA". Mas nenhum tem como foco a identidade de gênero (o mais próximo disso, o Trans Penn, era composto por professores e pós-graduandos).
 
Richard Parsons, 18, transgênero masculino, descobriu isso no Gay Affair, evento patrocinado pelo Centro LGBT local. "Saí decepcionado", comentou o prolixo calouro de cabelo curto, óculos de armação de metal e roupas de mauricinho. "Era um Centro LGBT, mas todos eram homens gays."
 
Pelo Facebook, Richard e outros fundaram um grupo chamado Penn Non-Cis, abreviação de "não cisgênero". "Cis" significa "do mesmo lado que", e "cisgênero" denota aqueles cujo gênero coincide com seu corpo biológico; logo, se aplica à maioria. O grupo de Richard procura representar todos os outros. "É uma insurreição de calouros", disse Richard.
 
BIGÊNERO
 
Em novembro, cerca de 40 alunos lotaram o Centro LGBT para o evento inaugural do grupo. O microfone estava aberto a todos. Os organizadores panfletaram convites oferecendo "camisinha de graça! Protetor labial de graça!". Kate Campbell começou a apresentação: "Há um cenário LGBT muito dinâmico aqui. Mas ele engloba sobretudo o LGB, e não muito o T. Queremos mudar essa situação". Os alunos leram poemas e trechos de diários e cantaram baladas. Então subiu ao palco a espevitada Britt Gilbert, com sua franja loira, seus óculos de aro grosso e sua camiseta de banda de rock. Queria falar sobre "bigênero". "Alguém quer dizer ao público o que acha que é isso?" Silêncio.
 
Britt explicou que ser bigênero é manifestar tanto a persona masculina quanto a feminina, quase como ter um "pênis que possa ser colocado e tirado". "Há dias em que acordo e penso: 'Por que estou neste corpo?'" contou. "Em geral, acordo e penso: 'No que eu estava pensando ontem?'."
 
Britt explicaria mais tarde que ouviu o termo "bigênero" pela primeira vez da boca de Kate, que por sua vez o viu no Tumblr. As duas se conheceram e ficaram amigas durante o período de orientação aos calouros. No colégio, Kate se identificava como "agênero" (sem gênero) e usava o pronome "eles" ("they", que é neutro em inglês); agora ela vê seu gênero como "uma mancha amorfa".
 
Já a evolução de Britt foi mais linear. Cresceu num subúrbio na Pensilvânia e nunca aderiu às normas de gênero. Quando era criança, adorava a cantora e atriz Cher e achava "boy bands" revoltantes. Ao jogar videogame, não queria escolher um avatar masculino ou feminino. No ensino médio, começou a se descrever como bissexual e saiu com meninos. No ensino médio, saiu do armário e assumiu-se lésbica. Seus pais acharam que era uma fase --até que ela levou a namorada, Ash, para casa. Mas Britt ainda não tinha se resolvido.
 
"Eu tinha certeza de gostar de meninas, mas não de ser menina", disse Britt. Às vezes, saía de vestido e ficava pouco à vontade, como se estivesse fantasiada para o Halloween. Em outros dias, sentia-se ótima. Não estava "presa no corpo errado", como se diz --só não sabia que corpo queria. Quando Kate lhe falou do termo "bigênero", a identificação foi imediata. "Antes de saber o que era, eu já sabia o que era", disse Britt, acrescentando que o termo é mais fluido que "transgênero", mas menos vago que "genderqueer" --que pode abranger todo tipo de identidade de gênero não tradicional.
 
De início, só comentou com Ash, que respondeu: "E você demorou tanto assim para entender?". Para os outros, não era tão fácil entender. Assumir-se lésbica até que tinha sido simples, disse Britt, "porque as pessoas sabem o que é". Ao chegar à Universidade da Pensilvânia, ficou aliviada ao conhecer calouros que passaram por processos parecidos.
 
Um deles era Richard Parsons, o membro mais politicamente lúcido do grupo. Richard foi criado como menina na Flórida e entendeu que era transgênero quando estava no ensino fundamental. Certo verão, quis dividir o quarto na colônia de férias com um amigo transgênero, mas sua mãe não deixava. "Ela disse: 'Você está dizendo que ele é homem, não quero você dividindo quarto com um homem'. Respondi: 'Acho que eu talvez também seja homem'."
 
Depois de muito choro e muiotas brigas domésticas, Richard e sua mãe fizeram as pazes. Quando ela perguntou como deveria chamá-lo, ele não soube responder. Escolheu "Richard" e depois acrescentou Matthew, pois significa "dádiva de Deus". Ao chegar à universidade, já enfaixava os seios havia mais de dois anos e tinha dor nas costas. No evento inaugural, contou uma história dolorosa sobre o ataque de pânico que teve ao ser levado ao vestiário feminino no centro de saúde da universidade.
 
Mesmo assim, elogiou a universidade pelos alojamentos "de gênero neutro". O plano de saúde da faculdade inclui cirurgia de mudança de sexo, algo que "influenciou em muito minha decisão de contratar um seguro-saúde da Penn no ano que vem", disse.
 
REDAÇÃO
 
Se dez anos atrás o Centro LGBT quase não era usado, em 2010 a universidade começou a tentar atrair candidatos cujas redações mencionavam temas gays. Em 2012, a revista de notícias gay "The Advocate" classificou a Penn entre as dez universidades mais abertas a transgêneros. Um número crescente de universidades, sobretudo no nordeste dos EUA, vem se abrindo a estudantes que fogem das convenções de gênero.
 
Segundo pesquisa do grupo Campus Pride, ao menos 203 campi permitem que alunos transgêneros dividam o quarto com colegas do gênero de sua preferência; 49 têm um processo de mudança de nome e gênero nos registros da universidade, e 57 cobrem terapia hormonal. Em dezembro, a Universidade de Iowa tornou-se a primeira a acrescentar a opção "transgênero" no formulário em que o candidato assinala o seu sexo.
 
Mas nem mesmo essas medidas conseguem atender às exigências dos alunos, que vêm contestando os currículos, assim como fizeram os ativistas gays nos anos 80 e 90. Em vez de protestar contra a ausência de cursos de estudos gays, eles criticam as restrições que veem nos já existentes.
 
Vários membros do grupo Penn Non-Cis vêm se queixando de um seminário de redação que fizeram, intitulado "Mais Além de 'Will and Grace'", que analisou personagens gays de seriados de TV como "Ellen", "Glee" e "Modern Family". A professora, Gail Shister, lésbica, criticou alunos que usaram LGBTQ na redação, dizendo que é frouxo, e propôs o termo "queer". Alguns acharam a sugestão ofensiva. Foi o caso de Brett Gilbert, para quem Shister "não aceita coisas que não entende". Por telefone, Shister disse que a crítica é de natureza estritamente gramatical. "Sou a favor da concisão", disse ela. "'LGBTQ não se pronuncia com facilidade. Então digo aos alunos: 'Não usem siglas com cinco ou seis letras'."
 
Uma coisa está clara. Gail Shister, 60, que em 1979 se tornou a primeira redatora de esportes do jornal "Philadelphia Inquirer", é de uma geração diferente. "Francamente, sinto orgulho e inveja desses jovens, por crescerem numa época em que têm liberdade de amar quem quiserem", ela disse.
 
Mesmo no evento com microfone aberto, as fronteiras da política de identidade eram transpostas e perdiam definição. A certo ponto, o calouro Santiago, da Colômbia, dirigiu-se aos presentes. Ele e um amigo refletiam sobre os limites do que ele chama de "LGBTQ plus".
 
"Por que só determinadas letras entram na sigla?" indagou Santiago. Em seguida, desfiou uma lista de identidades de gênero, muitas delas tiradas da Wikipedia. "Temos nossas lésbicas, nossos gays", ele falou, prosseguindo "bissexuais, transsexuais, bichas, homossexuais, assexuais." Respirando fundo, continuou: "Panssexuais. Omnissexuais. Trissexuais. Agêneros. Bigêneros. Terceiro gênero. Transgêneros. Travestis. Interssexuais. Dois espíritos. Hijras. Poliamorosos."
 
E concluiu: "Indecisos. Questionadores. Outros. Humanos." A sala explodiu em aplausos.
 
 

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