Conheça Liz Carmouche, lésbica e ex-militar que luta por vitória no UFC


Publicado no ESPN
Por Igor Resende

O UFC estreia neste sábado sua categoria feminina e aposta todas as fichas no carisma de Ronda Rousey para ter sucesso na nova empreitada. Uma pessoa, porém, não está nem um pouco interessada nos planos de Dana White em transformar a musa em um sucesso completo de vendas. Liz Carmouche entrará no octógono tentando desbancar a favorita. Mas, mais do que isso, ainda vai lutar por uma causa: a homossexualidade.
 
“Desde o arco-íris no protetor bucal até às camisetas. Faço tudo para mostrar quem eu sou e que superei as dificuldades. Quero que as pessoas saibam que também podem fazer isso”, disse Liz Carmouche, sem medo de esconder a sua opção sexual.
 
Nem sempre, porém, a lutadora teve a chance de ser quem realmente era. Carmouche precisou de 22 anos para aceitar a si mesmo. Depois, ainda teve que ultrapassar uma enorme barreira de preconceito, ainda pior do que o normal por ela ter feito parte do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos.
 
"Quando eu era criança comecei a perceber que era lésbica. Assistia aos filmes e imaginava que eu era o cara beijando a garota e pensava o quanto ela era bonita. Mas nunca me ocorreu até os meus 22 anos. Foi quando finalmente comecei a aceitar quem eu era. Agora estou em paz comigo mesma”, diz.
 
 
Carmouche fez parte do Corpo de Fuzileiros Navais por cinco anos e quatro meses, com direito a três missões na guerra do Iraque. A lutadora trabalhava como eletricista de helicópteros, mas chegou a estar em situações reais de combate. E mesmo quando não estava em batalhas, travava sua guerra pessoal contra o preconceito.
 
“Foi muito difícil estar na Marinha. Eu queria sair do armário, mas não podia fazer isso. Não sei quantas pessoas tinham certeza que eu era lésbica, mas muitas suspeitavam. Foi humilhante, vergonhoso. Sempre sentia meu estômago embrulhado, sempre olhando por cima dos meus ombros”, conta.
 
Até por isso, Carmouche deixou a Marinha com muitos ressentimentos. Nada, porém, que o tempo não curasse. “Quando sai, estava ressentida com a Marinha. Mas agora, olhando para trás, ajudou muito a formar quem eu sou hoje. Não conseguiria ser tão aberto quanto sou hoje e ser a primeira lutadora lésbica do UFC. Não estou mais ressentida. Me tornou forte para ser quem eu sou hoje”, diz.
 
Foi justamente como militar que Carmouche se aproximou novamente do mundo das lutas. Ela já havia praticado caratê quando criança, mas voltou a se interessar novamente por conta do grupo de artes marciais do exército americano. Desde 2010, quando saiu da Marinha, Liz coleciona um cartel de 10 lutas, com oito vitórias.
 
 
Cidade nova, vida nova – Carmouche mudou completamente sua vida pessoal quando deixou a Marinha. Para poder ‘sair do armário’, mudou até de cidade e passou a morar em Hilcrest, San Diego. “Aqui você pode encontrar bandeiras com arco-íris na frente de empresas e do comércio. A maioria faz parte da comunidade LGBT. Essa foi uma grande razão pela qual decidi me mudar para cá. Não queria ficar em Oceanside. Não sou capaz de ter relacionamento ficar preocupada em dar de frente com homofóbicos”, conta.
 
Ela, porém, está longe de ter o glamour que os desafiantes aos cinturões do UFC costumam ter. Carmouche trabalha em tempo integral na academia onde treina. Abre e fecha o local, atende telefones, fica na recepção e dá aula. São 14 horas por dia de trabalho, intercalada com o tempo que usa para treinar. Mas a situação deve mudar completamente domingo. Pelo menos é o que espera Liz.
 
“Agora é a Ronda que tem a fama. Ela tem o cinturão, tem tudo a seu favor. Eu sou a pessoa que vai tirar isso dela”, diz, sem esconder a confiança. “Esta é uma oportunidade única na vida. É algo que tenho que pular de cabeça e ir até o fim. Trouxeram-me para ser a perdedora. Todas acham que ela vai vencer. Mas não me importa com isso. Eu definitivamente vou estragar os planos do UFC”, completa.
 
 

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