12/02/2013

Os amores de Tchaikovsky: a homossexualidade trágica de um gênio da música!



Por Élio Farias
Equipe Homorrealidade

Para alguns gays e lésbicas, a homossexualidade é uma característica tão intensa, com tantas repercussões dramáticas, que mais parece querer inspirar uma ópera, um concerto, um balé trágico. Para Piotr Ilyich Tchaikovsky (1840-1893), ela foi literalmente assim. Autor de clássicos como “Lago dos Cisnes” e “O Quebra Nozes”, o reconhecido compositor russo era homossexual, mas vivia num país e num tempo em que as relações amorosas entre pessoas do mesmo sexo eram oficialmente repudiadas. Mesmo décadas após sua morte, muitos biógrafos e musicólogos soviéticos preferiram negar sua homossexualidade, talvez numa tentativa de proteger sua imagem dos preconceitos que, mesmo em menor grau, ainda continuaram vivos.
 
 

Apesar de reprimido socialmente, o compositor não deixou de viver seus desejos na intimidade, deixando vestígios (em diários e cartas) de vários relacionamentos com rapazes, alguns servindo até de inspiração para suas obras. Um exemplo data de 1869, quando Tchaikovsky compôs um tema musical para a mais famosa história de amor de Willian Skakespeare. Na época, Tchaikovsky estava apaixonado por Edward Zak, um jovem de apenas 15 anos, primo de um dos seus alunos. O relacionamento foi tão intenso e proibido, que resultou no suicídio de Zak quatro anos depois. O registro dessa história ficou guardado no próprio diário do compositor, com data de 1887:
 
"É incrível como me lembro dele claramente: o som de sua voz, seus movimentos, mas especialmente a expressão no rosto, às vezes extraordinariamente maravilhosa. Eu não posso conceber que ele não está mais aqui. A morte deste menino, o fato de não mais existir, está além da minha compreensão. Parece-me que nunca amei tão fortemente ninguém como ele".
 
A dor pessoal de Tchaikovsky combinada com a tragédia escrita por Shakespeare colidiram na tensa e bela “Romeo and Juliet Fantasy Overture”, uma obra que, para muitos, representa a primeira expressão da verdadeira genialidade musical do compositor.
 
Trecho de Romeo and Juliet Fantasy Overture
 
Apesar da intensa história com Zak, a vida homoafetiva de Tchaikovisky não se iniciou e nem terminou ali. Há registros de vários outros flertes e amores, dos quais podemos destacar: Alexey Apukhtin, conhecido quando ainda era estudante de música (1867-1870); Vladimir Shilovsky, um rapaz jovem e rico com quem se reunia no Conservatório de Moscou e que financiou várias viagens para os dois (1868-1872); Alexei Sofronov, seu criado de 1872 até o fim de sua vida; José Kotek, conhecido em meados da década de 1870; e Vassily Sapelnikov, jovem pianista que o acompanhou em uma excursão para a Alemanha, França e Inglaterra. Além desses, muitos outros casos mais breves foram anotados em seu diário.
 
Tchaikovsky, Vladimir e Nikolai

Apesar das experiências, Tchaikovsky sempre pareceu incomodado com a própria orientação. Às vezes escrevia com pesar no seu diário: “o que posso fazer para ser normal?”. Era um comportamento que se contrapunha ao do próprio irmão, Modest, que também era gay e viveu de maneira relativamente equilibrada, tendo inclusive um relacionamento de 17 anos com Nikolai Konradi (ou 'Kolia'), um menino surdo e mudo a quem tutelava. Graças à presença deste irmão também homossexual, Tchaikovsky conseguia ao menos ter um confidente. Foi para ele, durante uma crise de meia-idade, aos 36 anos, que o compositor revelou, por carta, uma decisão contrária ao seu próprio desejo.
 
“Agora estou passando por um período muito crítico da minha vida. Eu vou entrar em mais detalhes mais tarde, mas por agora vou simplesmente dizer-lhe: eu decidi me casar. É inevitável. Eu tenho que fazer isso não apenas para mim, mas por você, Modest, e por todos aqueles que amo. (...) Como é terrível pensar que aqueles que me amam possam, por vezes, sentir vergonha de mim. Em suma, eu procuro casamento ou algum tipo de envolvimento público com uma mulher, para calar a boca de várias criaturas desprezíveis cujas opiniões não significam nada para mim, mas que estão em posição de causar sofrimento aos que estão perto de mim.”
 

Nesta época, 1876, compôs Lago dos Cisnes
 
A união de fachada realmente aconteceu na Igreja de São Jorge, em Moscou, no mês de julho de 1877. Tchaikovsky casou-se com Antonina Milyukova, uma mulher de 28 anos, sua ex-aluna no Conservatório de Música de Moscovo. Na verdade, ela o havia conhecido muito antes, quando tinha apenas 16 anos, na casa de amigos. Foi lá que se apaixonou platonicamente por ele, decidindo largar tudo pra estudar música ao seu lado. Anos depois de abandonar a escola por dificuldades financeiras, ela escreveu para o compositor, declarando seu envolvimento. Foi nesta ocasião que Tchaikovsky pensou numa possível companheira por conveniência.
 
Tchaikovsky e Antonina

De acordo com alguns pesquisadores, Tchaikovsky propôs o casamento para sua ex-aluna tentando deixar indícios de que era homossexual. Porém as convenções sociais da época não permitiam que uma pessoa fosse tão direta sobre tal assunto. Tudo precisava ser dito de forma simbólica, por meio de alusões ou eufemismos. O problema é que talvez Antonina não tenha compreendido a mensagem. Por conta desta dificuldade de entendimento, o próprio irmão de Tchaikovsky chegou a descrevê-la, em alguns relatos, como uma mulher alienada e uma louca imbecil.
 
Não deu outra. O casamento foi um desastre e os dois ficaram menos de dois meses juntos. Ao descobrir que o marido não era propriamente o que imaginava, Antonina praticamente surtou. No filme “The Music Lovers”, dirigido por Ken Russell em 1970, o casamento foi retratado como a união trágica entre um homossexual e uma ninfomaníaca.
 

O divórcio tornou-se a única saída para Tchaikovsky, mas a lei na Rússia era bastante rígida e só concedia a separação oficial em casos de adultério. O compositor, porém, não poderia se vincular a esse ato, seja evidenciando sua homossexualidade, seja simulando uma outra farsa. Antonina, por sua vez, se recusava em ser ela a adúltera. As repercussões internas desta disputa quase levaram Tchaikovsky a um colapso nervoso. Oficialmente, os dois continuaram casados, porém nunca mais dividiram o mesmo teto. Antonina acabou enlouquecendo anos depois. A experiência do casamento, porém, acabou ajudando Tchaikovsky a rever sua postura:

"Somente agora, após meu casamento, começo a entender que nada é mais inútil do que não querer assumir-se como somos", escreveu.
 
O último possível relacionamento de Tchaikovisky foi com Vladimir Lvovitch Davidov (1871/2-1906), seu sobrinho (segundo filho de sua irmã Alexandra), carinhosamente chamado de “Bob”. Os dois se tornaram amantes a partir do final de 1880. Durante suas turnês no exterior, Tchaikovsky sofria de saudades, sempre querendo voltar para casa e ficar ao lado do rapaz, a quem fez seu herdeiro. Uma carta escrita para Bob durante uma de suas estadias em Londres, em maio 1893, revela o sentimento que o jovem despertava:
 
"Eu estou escrevendo para você com um prazer voluptuoso. O pensamento de que este texto logo chegue em suas mãos me enche de alegria e traz lágrimas aos meus olhos”, declarou. 
 
Tchaikovsky e Bob

Naquela época, o irmão de Tchaikovisky já não vivia com o namorado e o plano era que, em breve, os três – o irmão, o compositor e Bob – passassem a morar juntos num apartamento em São Petersburgo. Mas nada disso aconteceu. Em novembro de 1893, menos de um mês após a estreia da Pathetique Symphonie (obra dedicada ao seu jovem Bob), Tchaikovsky morreu.
 
Até hoje, a cada biografia sobre a vida do compositor, surge uma nova teoria ou detalhe sobre a causa de sua morte. Já foram descritos os casos de contaminação por cólera, tifo e algumas suposições sobre assassinato e suicídio. Nesta última linha, uma surpreendente hipótese foi revelada pela musicóloga soviética Alexandra Orlova em 1978. Segundo sua apuração, um membro da aristocracia russa havia escrito uma carta direcionada ao czar Alexandre III acusando Tchaikovsky de seduzir e manter um relacionamento sexual com seu sobrinho de 17 anos. A carta, porém, não foi entregue diretamente ao czar, mas aos cuidados de um funcionário, Nikolay Jacobi, que coincidentemente estudou com Tchaikovsky na Escola de Direito de São Petersburgo.
 
Escandalizado com o conteúdo da correspondência e temendo que a história manchasse a reputação da Escola, Jacobi não entregou a carta. Preferiu instituir uma corte de honra incluindo outros seis companheiros da Instituição para discutir o assunto e tomar uma decisão. Foi assim que convocaram Tchaikovsky para uma reunião que durou cerca de cinco horas. Nela, induziram o compositor a dar fim à própria vida antes que o pior acontecesse. Caso a denúncia se tornasse pública, Tchaikovsky poderia ser exilado, perderia seus direitos civis e teria sua imagem manchada para o resto da vida, prejudicando familiares, ex-alunos, amigos e companheiros. Ao sair da reunião cambaleante e pálido, o compositor teria decidido ingerir arsênico, morrendo no dia 06 de novembro de 1893. Por ser considerada uma versão aparentemente sensacionalista, muitos historiadores questionam essa hipótese, mesmo que ela tenha sido confirmada por alguns conhecidos de Tchaikovsky.
 
Independente da causa da morte, não há dúvidas que o compositor foi vítima da homofobia do seu tempo. Ser obrigado a viver seus amores às escondidas provavelmente modificou sua forma de enxergar o mundo e, consequentemente, sua obra. Embora seja um dos grandes pensadores e criadores musicais da história, Tchaikovsky não costuma ser lembrado primeiramente pela complexidade ou brilho do seu trabalho, mas pelo lirismo melódico e sofrimento tão audível em suas criações. Se foi gênio, ríspido, voraz, romântico ou enlouquecido, ele não se dava ao trabalho de explicar. Envolvia mistério e autorrevelação nas suas composições e as jogava para o público. “Deixe-os adivinhar”, finalizava.
 

A última composição - Sinfonia nº 06 (Pathetique)  

Um comentário:

Rubens disse...

Excelente matéria desse compositor que é um dos melhores da música ocidental.

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