16/03/2013

'Eu acho que está acontecendo um absurdo', diz Zé Celso sobre novo papa e Marco Feliciano


Por Frederico Antonelli para o Virgula 

“Eu acho que está acontecendo um absurdo”, diz José Celso Martinez Corrêa, o Zé Celso, que completa 76 anos dia 30 de março, sobre o mundo de hoje. “O mundo está muito louco. A gente lê cada coisa no jornal, tá todo mundo muito doido”, declara Marcelo Drummond, de 50 anos, que ao lado de Zé Celso, dirige a terceira e penúltima parte de Cacilda, que deve estrear no segundo semestre e tem, durante o mês de março, ensaios abertos (chamados de ritos-estúdio) às quintas-feiras. O Virgula Famosos acompanhou uma destas apresentações e conversou com alguns dos atuadores.

As declarações dos dois se referem aos fatos recentes como o conclave que elegeu o papa Francisco (“uma bosta”, na opinião de Zé Celso) e da nomeação de Marco Feliciano para presidir a Comissão de Direitos Humanos. “Eu acho que tem que ter uma intervenção nisso porque não é possível”, afirma o diretor que foi torturado na ditadura, em 1974.

E para ele, o teatro é o caminho: “O papel do teatro é de dar poder humano às pessoas”. Para Drummond, a função do teatro é “conceber uma catarse coletiva e servir como guia do que se pode fazer. O teatro é um espaço para experimentação”. Nesse contexto, o grupo prepara Cacilda!!! A glória no TBC. A peça retrata os anos da atriz no Teatro Brasileiro de Comédia, onde firmou a fama de primeira-dama do teatro brasileiro. 

A peça surgiu de uma promessa de Zé Celso. Seu irmão Luís Antônio Martinez Corrêa, assassinado a facadas em 1987 (acredita-se que o motivo do crime foi o fato dele ser homossexual) tinha o desejo de montar uma peça sobre atriz Cacilda Becker partindo da agonia dela no segundo ato de Esperando Godot (a atriz teve um derrame cerebral durante a encenação da peça em 1969, entrou em coma e morreu 38 dias depois).

Em 1990, Zé Celso teve uma erisipela (infecção cutânea causada por bactérias): “O que me fez parar inclusive na ala dos indigentes da Santa Casa e me disseram que poderia ser Aids. No hospital, eu pensei muito no meu irmão e na Cacilda e eu percebi como ela superava o corpo do teatro, a cena teatral como era naquela época. E eu fiz uma promessa de que, se eu não tivesse Aids, eu levaria a história da Cacilda para o grande público. E eu fui acordado por um médico lindo dizendo que o exame tinha dado negativo”.

A nova encenação terá a atriz Camila Mota como Cacilda Becker.  Ela conheceu o grupo em uma apresentação de Hamlet no Rio de Janeiro e se encantou. Veio para São Paulo pedindo asilo artístico para o grupo em 1997 e nunca mais saiu do grupo desde então. A atriz, que participou das montagens das duas primeiras partes da peça, diz que o diferencial é a intensidade do grupo que vive o teatro na sua totalidade. 

Com sua cultura antropofágica de ser, o grupo devora tudo ao seu redor e regurgita a história da dama do teatro brasileiro citando o novo Papa, Marco Feliciano, o Ecad, o vatileaks e até mesmo a melodia de Ah... Lelek lek lek lek, entram no samba do rito-estúdio.  As apresentações acontecem às quintas-feiras de março e são transmitidas ao vivo pelo site do grupo.

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