19/05/2013

Marcello Antony e Thiago Fragoso acham que vão protagonizar primeiro beijo gay nas novelas

 
Publicado pelo O Globo
 
Marcello Antony e Thiago Fragoso estão certos de que esta é a hora. E de que serão eles os primeiros atores a protagonizar uma cena já comum em seriados americanos, mas ainda inédita (e cercada de polêmica) nas novelas brasileiras: um beijo que represente o amor entre dois homens.
 
— É o timing perfeito — acredita Thiago.
 
Com o casamento de pessoas do mesmo sexo na ordem do dia, os atores argumentam que o autor da trama, Walcyr Carrasco, não perderá a chance de avançar nesta abordagem com o casal interpretado por eles. Os dois terão papéis de destaque em “Amor à vida”, trama das 21h que estreia amanhã na Globo e marca a entrada de Walcyr no horário nobre da emissora.
 
O folhetim vai retratar diferentes núcleos familiares. Dos mais tradicionais aos novos, como o casal formado por Eron (Marcello) e Niko (Thiago). Na trama, os dois são homossexuais assumidos e bem-sucedidos. E suas questões são mais complexas do que um possível beijo. Eles moram juntos, dividem uma vida e sonham ter um filho. É uma história que deve significar um avanço em relação a outros casais gays já mostrados em novelas.
 
— A intenção é falar de dois homens que querem formar uma família. Seria até bem tradicional se não fossem parceiros do mesmo sexo. Não estou preocupado se vão politizar ou não a questão. Eu sinto que há um movimento muito forte na sociedade para que gays e lésbicas tenham seu espaço como famílias constituídas e tive vontade de retratar este momento — explica Walcyr que, no entanto, desconversa e não revela se mostrará um beijo do casal na trama.
 
Apesar de dizerem que não pretendem levantar bandeira, Marcello, 48 anos, e Thiago, 31, têm total disponibilidade para contar a trama imaginada por Walcyr. Eron é um advogado que já foi casado com uma mulher, mas, agora, mantém uma relação estável com Niko, dono de um restaurante. Eles passam longe de estereótipos e afetações.
 
— O trabalho de ator também tem sua função social. Servimos como condutores. Estou ali falando um texto de um autor que quer discutir algo. E também existe a figura do diretor — aponta Marcello.
 
Eron e Niko entram no ar no capítulo 17. Mas a promessa de abordar um casal gay de forma inédita nos folhetins vem gerando curiosidade. Na coletiva de imprensa de “Amor à vida”, há pouco mais de duas semanas, Marcello e Thiago foram os atores mais assediados entre os nomes do numeroso elenco da novela, com direção de núcleo de Wolf Maya e direção geral de Mauro Mendonça Filho.
 
— A relação será moderna e real. É uma história de amor pontuada por afeto. Tem cumplicidade e intimidade. E isso pede o toque entre a gente. Mas ninguém quer ser agressivo ou chocar — avisa Thiago.
 
O ator aceitou o papel, que seria de Paulo Vilhena, sem saber quem seria o seu par. Vindo de “Lado a lado”, que terminou há apenas dois meses, Thiago aprovou a escalação de Marcello. A satisfação foi recíproca.
 
— O meu comportamento em cena será como os que tive com outros pares românticos. Já atuei ao lado da Ana Paula Arósio e da Patrícia Pillar. Agora terei Thiago Fragoso! Quer melhor? — brinca Marcello.
 
Os dois vão trabalhar com um preparador de atores para buscar naturalidade e evitar possíveis constrangimentos ao gravar. Marcello dá exemplos da intimidade que pretende estabelecer com o colega:
 
— Quando pai e filho se tocam em cena, não há conotação sexual. É um carinho natural. Com a gente, será assim. Nenhum deles teme arranhões em suas imagens de galãs. Ambos têm vasta galeria de tipos na TV. Marcello inclusive já fez um gay caricato no filme “Sexo, amor e traição”, de 2004.
 
— Somos pessoas conhecidas, heterossexuais. Walcyr até poderia ter posto dois atores novos nos papéis. Não foi o caso — observa Marcello.
 
Sem fazer novelas desde “Passione” (2010), ele não teme possíveis “pedradas” em função do novo papel.
 
— Cheguei a um ponto em que não dependo da aprovação do outro para ser feliz. Sou casado, tenho filho e sou feliz. Mas sei que tem gente que é estigmatizada por querer a mesma coisa. Tem que haver discussão mesmo — diz Marcello.
 
Ele reclama do politicamente correto e da hipocrisia. Diz ter visto recentemente adolescentes gays rebolando ao som de funk no “Esquenta!”, à tarde. E questiona as razões de um casal homossexual no horário nobre ser polêmico.
 
— O brasileiro não se acha preconceituoso. Aqui não tem racista — declara Marcello, irônico: — No Brasil, a mulher tira a roupa no carnaval, mas, se bota o peito de fora na praia, é agredida e chamada de piranha. Temos de lembrar que uma novela se dirige a todos. Vamos falar também para aqueles que elegeram o Feliciano (Marcos, deputado do PSC-SP e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados acusado de homofobia).
 
Na opinião dos atores, o beijo só deve acontecer após o centésimo capítulo, quando Eron e Niko já tiverem a torcida do público.
 
—Mas nem adianta esperar um chupão — diz Marcello.
 
O frenesi em torno do beijo gay em novelas surgiu forte nos últimos anos com Junior (Bruno Gagliasso) e Zeca (Erom Cordeiro), de “América” (2005). Os dois gravaram a cena, que não foi exibida. A cada novo par, novas especulações. Mas os recentes carinhos entre personagens como Julinho (André Arteche) e Tales (Armando Babaioff), de “Ti-ti-ti” (2011); e Eduardo (Rodrigo Andrade) e Hugo (Marcos Damigo), de Insensato coração” (2011), não foram explícitos.
 
Em “Paraíso tropical” (2007), Rodrigo (Carlos Casagrande) e Tiago (Sérgio Abreu) dividiam o mesmo teto sem grandes demonstrações de afeto. Rubinho (Fernando Eiras) e Marcelo (Thiago Picchi), de “Páginas da vida” (2006), adotaram uma criança no final, mas tiveram pouco destaque.
 
Ainda tido como um tabu na TV aberta, o beijo entre dois homens foi mostrado no último dia 9 em “A grande família”. O ato não representou um carinho de casal. Na série, Tuco (Lúcio Mauro Filho), disposto a provar que é ator, beija Thiago Lacerda, no papel dele mesmo, numa cena da peça “O beijo no asfalto”, de Nelson Rodrigues.
 
Em “Amor à vida”, Eron e Niko recorrerão a uma barriga de aluguel e contratarão a enfermeira Amarylis (Danielle Winits) para gerar o filho deles. Os dois doarão sêmen e não saberão quem será o pai biológico. Mais adiante, Eron, que é bissexual, se envolverá com Amarylis, formando um triângulo. Marcello e Thiago sabem que a história depende da reação dos telespectadores para deslanchar. Walcyr é enfático:
 
— Eu não tenho a menor dúvida de que vou desenvolver a trama de Niko e Eron como imaginei porque, sinceramente, é uma bela história que vai emocionar o público.
 
 

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