24/05/2013

Mateus Solano: “Por que o mocinho ou o vilão não podem gostar de meninos?”


Publicado pela Marie Claire
 
Segunda-feira, 20 de maio. A cena de um homem engravatado pegando uma criança recém-nascida e perguntando “o que vou fazer com você, hein, ratinho?”, choca até mesmo o público menos conservador. Era apenas o primeiro capítulo da nova novela das nove, “Amor à Vida”, e o personagem em questão era o vilão Félix, interpretado por Mateus Solano.
 
Quinta-feira, 23 de maio. Três tentativas depois e no meio da gravação de cenas da novela, Solano consegue atender à repórter de Marie Claire pelo telefone. “Desculpe a correria”, já inicia a conversa com um bom humor contagiante. Quando falo da repercussão positiva nas redes – ele é alvo de piadas na web, inclusive com um perfil no Twitter, chamado “Félix Maléfica” com mais de 5 mil seguidores em menos de três dias - é inevitável ouvir o contentamento do ator ao receber o elogio. “Sério? Que legal!”.

Em entrevista à Marie Claire, Solano fala sobre o personagem que promete mexer com os nervos de quem assiste à novela (ou será que já mexeu?) e conquistar com suas tiradas maléficas. Será a nova Carminha, a vilã de “Avenida Brasil”? As comparações são bem recebidas, mas ele faz questão de frisar que não é a personagem de calças. “Eles são bem diferentes. O Félix é novo e inédito”. Confira a entrevista

Félix é polêmico. Como foi a construção dele?

Mateus Solano – Brinco que o Félix foi feito a oito mãos. Primeiro pelas de Walcyr Carrasco, que escreveu um personagem complexo. Depois pela forma como a direção foi o moldando. Ele é um homossexual enrustido, mas dá pinta o tempo, além de fazer piadinha na hora errada, ser rico, mas temer o pai. A parte infantil dele é muito forte porque não sabe lidar com nada que dê errado. Sem contar que a maldade sempre esteve nele, desde criança, e foi alimentada pela rejeição do pai e pelo excesso de mimo da mãe. Tudo isso é uma série de desafios para mim, mas eu sabia que ele tinha sido escrito para fazer sucesso. Para criar a parte psicológica, pautada pela maldade, mas cheia de bom humor, fui estudar sobre o assunto. Li o livro “Efeito Lúcifer” e estudei um pouco sobre Adolf Hitler e sobre o nazismo. Ele foi uma referência porque o que me interessa é o poder de sedução que conseguiu exercer sobre as pessoas.

Qual é a principal dificuldade em tratar sobre a homossexualidade em rede nacional? Você acha que a novela pode ser um divisor de águas na discussão do tema?

MS – Não sei se pode ser um divisor de águas, não gosto de ser tão definitivo assim. Sei, sim, que esse personagem é inédito porque nunca foi feito um vilão gay. Estamos em um momento muito importante para discutir essas questões. É incrível que, nos anos 2013, a gente ainda esteja discutindo o direito de pessoas gostarem de outras do mesmo sexo.

Você sempre foi visto como “bom mocinho”. No entanto, seu vilão já começou a novela chocando por suas barbaridades. Qual o desafio de um personagem como ele? O que muda em sua carreira?

MS – Todos os personagens têm algo a me ensinar. Não vejo o fato dele ser gay ou vilão mudar algo na minha trajetória. Cada personagem, seja ele bonzinho ou não, me leva para algum lugar e, por isso, não faço distinção. Sei que, agora, estou fazendo um personagem diferente dos que já fiz.

O Félix será uma oportunidade de não ficar estigmatizado apenas como galã?

MS – Sempre rejeitei o rótulo de galã . Sou ator e gosto de fazer cada um de forma diferente. Meu interesse é pela humanidade dos personagens. Não existe uma regra que diz que o galã, ou mesmo o vilão, possa gostar apenas de mulher. Por que o mocinho ou o vilão não podem gostar, também, de meninos?

Desde o primeiro capítulo, Félix já está fazendo outros personagens sofrerem e o público odiá-lo. Tem medo da reação das pessoas nas ruas?

MS - Não, como ele tem muito humor, as pessoas vão gostar do jeito dele também. Ele acaba liberando muito do que as pessoas têm preso na garganta, então acho que será tranquilo.

O que as pessoas ainda podem esperar dele?
 
MS – Tudo. Ele não mede esforços para conseguir o que quer. Qualquer pessoa que ameaçá-lo no objetivo de ser dono do hospital estará em sua mira. Em especial sua irmã, que é um alvo eterno.
 
Ele vai assumir a homossexualidade?
 
MS - Para todo mundo, não sei. Para a mulher, sim. A partir disso, ela deixa de ser uma mulher inocente e vai ser conivente. O argumento é que ele abriu só uma frestinha da porta do armário e vai fechá-la novamente. Ele quer continuar vivendo essa vida e essa escolha é de acordo com o que esperam dele, já que é vítima também.

Interpretar um vilão é mais interessante do ponto de vista criativo?

MS – Sem dúvida, o Félix está sendo um parque de diversões para eu brincar. Cada cena busco uma sacanagem, alguma coisa de humor ou remendo. Tem sido muito divertido.
 
O Félix é a nova Carminha?
 
MS - Ele é o novo e inédito Félix. Essa comparação está na saudades que as pessoas sentem da Carminha. Tanto ele, quanto ela, não medem esforços para conseguirem o que querem, existe uma falta de humanização. Mas eles são diferentes.
 
Na peça “Do tamanho do mundo”, seu personagem acorda um dia sem lembrar de como é viver em sociedade e começa a se questionar com as escolhas que tomou. Já se viu em momentos como esse? Se arrepende de alguma coisa?
 
MS - No caso do Arnaldo, o mal súbito que tem abre um buraco dentro dele. Ele começa a questionar as escolhas que fez e quanto dele existem nelas, quanto são pré-definidas pela sociedade ou pelas circunstâncias. Me comparo a ele quando voltava da maternidade com milha filha recém-nascida e comecei a olhar para o Rio de outra forma. Parecia outra cidade. Isso rola com todos nós quando acontecem coisas importantes para a gente se questionar e olhar para frente. Não me arrependo de nada. Sempre olho para frente.
 
Você sonha em trabalhar com alguém que ainda não trabalhou? Quem seria?
 
MS – Tenho oportunidade de trabalhar com gente incrível. Estou realizando essa peça, chamei quem eu queria para trabalhar comigo, minha mulher, Paula Braun, escreveu o roteiro. Me sinto realizado a cada dia porque trabalho no que gosto. O teatro faz com que em não esteja estacionado porque me exercito como ator em profundidade. O dia a dia na televisão é perigoso para o ator que trabalha com criatividade porque pode engessá-lo.
 
 

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