Na semana da "cura gay", Niko e Eron recebem homofóbico em "Amor à Vida"


Publicado pela Folha
Por Renato Kramer*
 
Um verdadeiro soco no estômago a postura do "macho" que leva a mulher para "alugar" a barriga para o casal gay de "Amor à Vida" (Globo).
 
Em tempos bicudos, assim como também com avanços significativos de âmbito nacional, o autor Walcyr Carrasco ousa levar ao telespectador brasileiro um retrato da postura machista que vigorou no país por décadas a fio. Acreditamos ter avançado nisso também. Tanto assim?
 
Pois o casal gay da novela das nove recebeu no capítulo de quarta-feira (19) um casal hétero para negociar uma "barriga de aluguel". Um homem grosso como só ele, vivido com propriedade pelo ator Rafa de Martins -- apresentador do "Cartas na Mesa" (GNT), era o porta-voz do casal.
 
 
"Minha mulher é boa como uma vaca parideira!", anunciou a criatura sem meias palavras. E passando direto ao que lhe interessava, foi logo observando o ambiente e soltou como quem nada quer: "Eu tô vendo aqui... vocês ganham bem, né?".
 
Niko (Thiago Fragoso) foi atencioso em esclarecer rapidamente: "Bom, o Eron (Marcello Antony) é advogado e eu tenho um restaurante". E lá veio o coice: "Esse mundo é muito injusto, né, amor? Eu que sou macho, trabalho feito um burro pra ganhar alguma coisa... vocês dois que são 'bicha', moram nesse casarão!". Mas, bah, tchê (como se diria lá no sul)! Bota grossura nisso! O universo politicamente correto se encolheu em frente à televisão.
 
Mas e não foi (?) assim por muito tempo? Eron, estarrecido, só conseguiu retrucar pausadamente: "Eu não gostei do seu comentário". Niko desconversou: "Calma, releva... é só jeito de falar". Ora, quem fala assim é porque pensa assim!
 
E ainda veio mais. A mulher tenta despistar, dizendo que ele fala desse jeito, mas não tem preconceito nenhum (imagina se tivesse!). E o representante do "homem das cavernas" continua: "Eu não ligo pra essas coisas, não. Mas vocês são 'bicha', não são?". Eron permanece estupefato. Niko ri, talvez de nervoso, e responde: "Sim".
 
Para arrematar o desastre, acreditando que livraria a barra de Eron -- ainda estarrecido com o que está ouvindo na sua lata, a criatura primitiva solta mais essa: "Você, se estivesse na rua, eu diria que não... tem uma branquinha aí, por gentileza?". Velhos tempos ou história recente?
 
Impossível não associar a postura retrógrada desse personagem com o insano projeto que tramita atualmente na Comissão dos Direitos Humanos e Minorias: a "cura gay". Foi em relação a este absurdo que, muito oportunamente, o deputado federal Simplício Araújo declarou na recente reunião deliberativa extraordinária: "Não existe tratamento para o que não é doença. A doença aqui, que nós temos que combater, é a cara de pau de alguns políticos, é a corrupção desse país!".
 
E foi mais longe: "O que está prejudicando a instituição família neste país é a forma com que a classe política tem se comportado e que está mobilizando milhares e milhares de pessoas a ir às ruas!".
 
Importante a trama das nove trazer à baila uma postura, que já foi da grande maioria, e por vezes parece que ainda está jogada para debaixo do tapete. Importante termos um deputado federal na Comissão dos Direitos Humanos que professe com discernimento que não há cura onde não há doença, e que aponte para a verdadeira doença que assola o país.
 
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* Natural de Porto Alegre, Renato Kramer formou-se em Estudos Sociais pela PUC/RS. Começou a fazer teatro ainda no sul. Veio para São Paulo e ingressou na Escola de Arte Dramática (USP), formando-se ator. Escreveu, dirigiu e atuou em diversos espetáculos teatrais. Fez algumas colaborações para a Ilustrada e, sempre a convite, assinou a coluna Antena, da "Contigo". Nesse meio tempo, fez crítica de teatro para o "Jornal da Tarde" e na rádio Eldorado AM. Mais recentemente foi colunista da Folha.com, comentando o BBB11. Atualmente, além de atuar, cursa Filosofia.
 

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