22/07/2013

Artigo: Existe uma literatura homossexual?



Publicado pelo Filipeia
Por Everton Silva.
 
A questão “Existe uma Literatura homossexual?” que por diversas vezes foi/é questionada, está ligada diretamente a outra questão: “O que é uma literatura homossexual?”. Sem muitas delongas e desprezando qualquer tipo de prolixidade, a resposta para a primeira questão é: sim, existe; embora muitos críticos literários não concebam essa realidade – digam-se críticos embalsamados no quesito “literatura geral”. Porém, conceituar o que seria a literatura homossexual, gay ou qualquer outra denominação para o sujeito em questão é, no mínimo, conflituoso. O conflito se dá na medida em que não há um consenso da sinalização da forma da escrita homossexual, em qualquer gênero textual, portanto, não podemos abarcar a amplitude do tema de forma definitiva.
 
No Brasil, a temática gay é ainda emergente e os escritores dedicados a esse ramo da literatura que reflete temas e questões muito próprios dos homossexuais, de homossexuais para homossexuais, é quase inexistente. Nem todos gostam de carregar esse rótulo, alguns consideram importante como bandeira, outros acham reducionista. Já na literatura clássica francesa, se voltarmos o tempo, lá pelas bandas do século XIX, a literatura já fazia alusões (raras) ao tema da homossexualidade, porém, o personagem gay estava longe de ser protagonista e muito menos “humanizado”, era um personagem existente na “literatura geral” tratados de maneira estereotipada, como pessoas perturbadas ou figuras folclóricas. A literatura clássica daquele século servia para vilipendiar essas maneiras vergonhosas condenadas pela Igreja. Essas raras alusões à prática homossexual podem ser encontradas nas obras de Diderot (Religieuse), Rousseau (Confessions) e numa pequena parcela de escritores medíocres da época. Essa volta ao tempo ainda não acabou… E para avançarmos no quesito “o que é uma literatura homossexual” é preciso esperar a chegada do século XX.
 
Do início do século XX até os anos 50, ou ainda, de Gide e Proust à Genet, aparece um verdadeiro discurso sobre a homossexualidade na literatura francesa. A emergência, desde o fim do século XIX, de uma “cultura gay e lésbica” é hoje bem estabelecida. Nessa história complexa, a literatura tem um papel fundamental, ela participa diretamente na constituição dessas identidades. Ainda que reprimida durante muito tempo, a homossexualidade foi abordada por numerosos autores no decorrer da história. Do ponto de vista literário, as questões que ela aborda são concernidas pela sua eficácia, de forma mais larga, podemos igualmente nos interrogar sobre a eventual ação dessas obras sobre as sociedades das quais elas se inscrevem. Ela contribuiu inicialmente à imposição de um modelo de homossexualidade, naquela época o homossexual masculino era um personagem efeminado, e em muitas obras esse estereótipo sobrevive ainda hoje. Em seguida, através dos romances populares, foram designadas as principais etapas de seu destino terrestre, iluminado quase sempre sob uma luz trágica. Tal representação da “condição homossexual”, talvez porque muito convencional, foi acompanhada de uma originalidade surpreendente no plano puramente literário. Vítimas da censura ou ainda da autocensura, um grande número de escritores elaboraram, no nível simbólico, uma forma “mística” do desejo homossexual. Simplificando, encontramos quatro tipos de homossexuais na literatura (podendo ser mesclados num único personagem): o debochado, o demônio, a vítima e o modelo. Este último inclusive fora citado em obras de Platão, como o personagem que assume seriamente a sua “condição sexual”. E não só temos tipos de personagem, mas a literatura homossexual assume também um papel preciso, podemos encontrar quatro ou cinco papéis que essa literatura desenvolve e provoca em seus leitores, são elas: a literatura para fazer rir; fascinar ou inquietar; emocionar; reivindicar e libertar.
 
Por fim, a literatura homossexual ganhou espaço nas editoras especializadas pelo grande contingente de leitores, o público alvo é emergente, visto que a “conscientização gay” que conhecemos hoje data de quatro décadas pra cá. Mas essa temática, mesmo que ridicularizada por séculos, já era abordada há muito tempo. Dos heróis aos libertinos do século XIX, a literatura gay desempenhou um importante papel na identificação gay dos dias atuais, ela é feita seguindo as inquietações, desejos, vivências e tudo o que permeia a vida social dos homossexuais. É uma literatura especializada, voltada para esse público, mas que não exime os heterossexuais à leitura. É libertadora! Mesmo que ainda seja tímida no Brasil. Ela existe, ela não tem um conceito predeterminado, mas ela é feita e merece “povoar” o imaginário dos seus leitores.
 
 

Um comentário:

aharom avelino disse...

Existe, mas não conseguimos divulgar. Meu livro NÃO EXISTE AMOR ERRADO não é divulgado nem pela imprensa gay

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