24/07/2013

Transexual tailandesa brilha no muay thai: "Sempre me senti mulher"

 
Publicado pelo SporTV
 
Aos 31 anos, ela tem 67 lutas de muay thai, sendo 59 vitórias, dois empates e seis derrotas. Um cartel que impressiona. Porém, sua maior vitória não é dentro dos ringues. Nong Toom é uma lutadora tailandesa transexual, que se tornou um ícone do país na modalidade, mesmo antes de realizar a cirurgia de mudança de sexo, ao vencer homens lutando com maquiagem e adereços e dividir opiniões no país (assista ao vídeo).
 
Nascido em família humilde, desde criança já manifestava que seu lado feminino era sua escolha. Enquanto os meninos queriam praticar muay thai desde cedo, ele preferia se dedicar à dança. Sua experiência em um templo budista, prática normal entre os garotos, que passam pelo menos um ano por lá como prova de gratidão aos pais, não chamou sua atenção também.
 
- Comecei a sentir que era uma mulher no corpo de homem antes mesmo de ir para a escola, quando era muito pequena. Uma vez, quando era criança, tive a experiência de ser noviço, que não é exatamente um monge. Ao menos uma vez os homens tailandeses budistas precisam experimentar a vida de monge para mostrar gratidão aos pais. Alguns seguem a vida de monge, mas como me sentia uma mulher, não continuei neste caminho. Tenho outras maneiras de agradecer meus pais, como cuidando bem deles - afirmou, em entrevista ao "Sensei SporTV".
 
Vítima de bullying, Toom encontrou no muay thai uma forma de se defender das agressões sofridas e também de melhorar a condição da família, já que, na Tailândia, o muay thai infantil é uma fonte de renda para muita gente. Entre 12 e 13 anos já era profissional, mas não fazia o estilo tradicional. Ele se maquiava, usava batom e outros adereços, mas garante que a maioria das pessoas eram respeitosas.
 
- Dependia da pessoa. As boas me respeitavam, porque a luta não é só para os homens. Mulheres também podem lutar. Eles percebiam que eu era diferente, mas davam mais importância para o que eu podia fazer. Mas tinha gente que me olhava rindo. Normalmente me respeitam muito, me adoram, porque poucos têm a coragem que tive de fazer o que fiz e continuar lutando - orgulha-se.
 
As vitórias eram uma rotina e a forma de cumprimentar os oponentes após cada triunfo era pouco usual. Um beijo no rosto.
 
- A luta não acontece porque não gosto da outra pessoa. É só esporte. Por isso nos cumprimentamos antes e depois, mas como sou e sempre fui mulher, cumprimento de maneira diferente. Era também uma maneira de pedir perdão por ter vencido - explicou.
 
O auge de Nong Toom foi em 1998, quando o principal estádio do país ficava lotado para assistir suas lutas e a imprensa voltava suas atenções para ele, que era a grande atração do circuito. O sucesso lhe deu condições de realizar seu sonho de realizar a cirurgia de mudança de sexo e o país era o mais propício para isso. A Tailândia é referencia mundial neste tipo de procedimento, atendendo pessoas de diversos países e as "lady boys", como são conhecidas, são muito respeitadas no país.
 
Entretanto, a mudança de sexo não causou tantas alterações na vida de Nong Toom de forma imediata. Ela continuou enfrentando - e vencendo - homens, enquanto seus níveis de testosterona ainda eram altos.
 
- Logo após a cirurgia não sentia nada de diferente na hora de lutar, mas ,com o tempo, comecei a sentir que tinha menos força por causa da mudança hormonal, mas meu coração continua forte como sempre. Não me arrependo de nada do que fiz na vida. Tento ser uma pessoa cada vez melhor agora e no futuro, e levar minha mensagem para cada vez mais gente no mundo - disse.
 
Atualmente, ela é cantora, atriz, professora de muay thai e representante de uma marca de artigos esportivos. Já anunciou aposentadoria algumas vezes, mas ainda se considera na ativa e deseja enfrentar mulheres, porém, só as mais fortes. Solteira, ela garante que muitos homens costumam telefonar, mas não dá bola para o assédio e nem para a moda do MMA, que já conta com muitos nomes femininos fazendo sucesso, como a americana Ronda Rousey, campeão peso-galo do UFC, e a brasileira Cris Cyborg, campeã dos penas no Invicta FC.
 
- Não gosto muito. Não é nem que não gosto, mas sou uma mulher e não me parece um tipo de luta que vou praticar facilmente. Sobretudo, não é uma modalidade para mim, que sou boa lutando em pé. Se vai para o chão me falta técnica. Às vezes luto contra mulheres, depende dos promotores dos eventos. Tem mulheres tailandesas que têm muita força e outras não, então luto com as que são mais fortes. Quando comecei a brilhar no muay thai se ergueu discussão sobre o espaço da mulher na modalidade. Não é um esporte só para homens, é pra todos - concluiu.
 
 

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