26/08/2013

"O tango sai do armário" por Gabriela Antunes


Por *Gabriela Antunes para o Blog do Noblat 

“El tango se baila de a dos” ou, como se diz em inglês, “It takes two to tango”. São necessários dois para a dança, diz o ditado que não define o sexo desse par de dançarinos.

Dizem que o tango, em suas origens, era um baile no qual dois homens dançavam juntos. Por volta de 1800, nos antigos prostíbulos e cabarés de Buenos Aires, o tango era coisa de machos que se juntavam numa valsa viril para polir seus passos antes de encarar as damas.

Com o passar do tempo, o ambiente “tanguero” foi se transformando em algo mais conservador, com liturgia própria, e o hábito masculino se converteu na dança tal a conhecemos (ou conhecíamos?): o lascivo entrelaçar de pernas e olhares entre um homem e uma mulher.

Porém, dois séculos depois, dois homens voltam a dançar juntos no prestigiado Mundial de Tango que, nessa semana, trouxe aficionados do mundo inteiro às pistas portenhas.

Dizia um conhecido compositor do gênero que o “tango é um sentimento triste que dança”. Mas Juan Pablo Ramírez e Daniel Arroyo dançam a alegria de ser um dos primeiros casais do mesmo sexo a deslizar pelas tradicionais pistas do Mundial.

Eles não são os únicos a desfrutar do direito de participar do evento dançando com pessoas do mesmo sexo e causando frisson nas pistas do Mundial. Muitos, inclusive não casais na vida real, mas, diante da abertura, aproveitam para livrar-se do preconceito.

“Estávamos cansadas de não sermos tiradas para dançar”, contaram à imprensa as parceiras de tango Marlene Heyman e Lucía Christe, que decidiram resolver o problema formando a dupla.

O tango, assim como o contexto argentino, vem se transformando. Nos últimos tempos, a dança vem sofrendo um processo de globalização. Esta edição do festival trouxe a Buenos Aires 556 casais de 37 países (entre eles o Brasil) que lutam pela chance de se tornarem os melhores do tango.

A Argentina vem dando um show no que diz respeito aos direitos LGBT. Em 2010, saiu na frente ao se tornar o primeiro país latino-americano a reconhecer o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Buenos Aires é considerada por muitos um dos melhores destinos “gay friendly” da América do Sul. Para se ter uma ideia, possui até uma “milonga” (espaço dedicado ao tango) para casais do mesmo sexo, como a Tango Queer, que funciona desde 2005 no boêmio bairro de San Telmo.

“O tango é sentimental, amoroso, dramático, uma arte, é liberdade”, explicou Ramirez aos meios locais. Ao que tudo indica, esta liberdade chegou para ficar num dos nichos mais conservadores da cultura argentina. 

*Gabriela Antunes é jornalista e nômade. Cresceu no Brasil, mas morou nos Estados Unidos e Espanha antes de se apaixonar por Buenos Aires. Na cidade, trabalhou no jornal Buenos Aires Herald e mantém o blog Conexão Buenos Aires. 

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