02/08/2013

"Programas da Globo debatem homossexualidade e estado laico na mesma noite" Por Tony Goes


Por Tony Goes* para a Folha 

Foi uma noite animada na tela da maior emissora do país. Nas telas dos computadores também: os comentários sobre "Amor à Vida" e "Na Moral" dominaram as redes sociais nesta quinta-feira (1º).
Na novela de Walcyr Carrasco, o vilão Félix (Mateus Solano) finalmente foi desmascarado em frente a toda sua família. Durante mais um daqueles jantares barraqueiros na mansão dos Khoury, Edith (Bárbara Paz) mostrou fotos do marido nos braços de outro homem e confirmou o que todo mundo sempre soube.

Foi uma cena longa e barroca, repleta de diálogos melodramáticos e até agressões físicas. Mas o que se seguiu teve um pé na modernidade: Félix se assumiu gay com a irmã, a mãe, a avó e o filho, recebendo o apoio de todos (com o pai, já sabemos que não vai ser tão simples assim).

Não é a primeira vez que um personagem de novela sai do armário e enfrenta a reação dos parentes. Mas o capítulo desta quinta de "Amor à Vida" inovou ao fazer com que o assunto fosse discutido por vários ângulos e ocupasse bem mais da metade do tempo do programa.

O que mais repercutiu na internet foi a expressão "orientação sexual", usada duas vezes pela mãe de Félix, Pilar (Susana Vieira). É de fato refrescante ouvir o termo correto na televisão, ao invés do equivocado "opção sexual".


Félix reagiu com alívio e remorso ao ser aceito por tantas pessoas queridas. Tanta emoção dá um pouco de profundidade ao personagem, que às vezes resvala para a caricatura. Mas também complica a motivação para suas maldades, principalmente as que cometeu contra a irmã Paloma (Paolla Oliveira).

Mais tarde, o "Na Moral" de Pedro Bial debateu um tema muito pertinente ao momento em que vivemos, e ainda assim pouco compreendido: o estado laico. Os convidados representavam diferentes correntes religiosa com o padre católico Jorjão, o babalorixá Ivanir dos Santos, o pastor Silas Malafaia e o presidente da ATEA, a maior associação de ateus do Brasil, Daniel Sotto-Mayor.

A discussão revelou a confusão que ainda se faz entre laicidade e ateísmo. Malafaia, por despreparo ou desonestidade intelectual, disse que "estados laicos" como a China comunista ou a extinta União Soviética, liderados por ditadores "sem Deus" como Mao Tsé-Tung ou Stálin, foram os responsáveis pelas maiores chacinas da história (e convenientemente esqueceu de dizer que Hitler não era ateu).

Ao ser corrigido por Bial, Malafaia choramingou que estava sendo perseguido por dar sua "opinião", a desculpa "padrão" de muitos líderes neopentecostais. Mas o que o pastor havia dito não era uma opinião e sim "fatos históricos", como ele mesmo frisou ao citá-los.

A partir daí, Malafaia ficou na defensiva, principalmente ao ser confrontado com a serenidade de Ivanir dos Santos. O babalorixá convidou o pastor a marcharem juntos pela liberdade religiosa, e teve seu convite prontamente recusado. Foi até divertido ver como o líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo se exalta e cai em contradição quando está fora de seu habitat.

Não é tão comum que dois programas da Globo enveredem na mesma noite por temas tão polêmicos, capazes de desagradar a boa parte da audiência. Mas sem dúvida que é saudável, e também um sinal de que estamos deixando de manter as controvérsias escondidas no armário.

*Tony Goes tem 52 anos. Nasceu no Rio de Janeiro mas vive em São Paulo desde pequeno. É publicitário em período integral e blogueiro, roteirista e colunista nas horas vagas. Escreveu para vários programas de TV e alguns longas-metragens, e assina a coluna "Pergunte ao Amigo Gay" na revista "Women's Health". Colaborador frequente da revista "Junior" e da Folha Ilustrada, foi um dos colunistas a comentar o "Big Brother 11" na Folha.com.

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