Teatro: "Éramos Gays e a liberdade sexual" Por Elenilson Nascimento

 

Por *Elenilson Nascimento para o Cabine Cultural 

Muita gente ainda se choca ao ver uma foto de cunho homo-erótico, como essas que postamos de um interessantíssimo musical “made in Bahia”. E isso é uma prova absoluta que, em pleno século XXI, o preconceito burro e alienante contínua sendo rasgado e ainda se escorre veneno pelo canto sujo da boca dos homens. Lendo uma matéria antiga, da colunista Eunice Tabacof (psicanalista e membro da sociedade francesa Psychanalyse Actuelle), onde ela respondia à carta de uma leitora que queria (desesperadamente) saber a opinião da psicanalista sobre, segundo ela, um “fenômeno de nossa época”, o aumento da homossexualidade. E, eu, cá entre os meus botões na minha camisa amassada, digo, com meus dedos nervosos em riste no teclado do meu PC, cheguei à conclusão de que as pessoas continuam tão preconceituosas quanto à sociedade da época da Inquisição.

Sábado passado, 10/08, fui, enfim, conferir de perto a história surreal de Alice Kate. Um gay (*que parecia sofrer de distúrbio bipolar) que promete a São Sebastião tornar-se hetero para se salvar de um desastre aéreo. A peça se passa no finalzinho do século passado e conta uma narrativa da hilariante aventura de um grupo de 400 gays (*não entendi essa quantidade no roteiro) que alugaram um boeing 747 e decidiram passar um fim de semana em Nova York  – mas poderia ter sido em Arembepe.
 No meio do Atlântico, os motores falham e Alice Kate decide fazer uma promessa para o santo nu e cheio de flechas. Se fosse salva, ela entraria em um armário e nunca mais olharia para “homi” nenhum. Nem para a bunda do Hulk. Passada a tormenta, Alice se vê destinada a cumprir o feito e se enclausura no armário. Um armário literalmente (cheio de cadeados) é colocado no centro do palco. Mas a aventura começa mesmo quando seus amigos, liderados por Isaac (uma borboleta mística que provavelmente foi aluna da UCSAL que tem contato direto com o São Sebastião), se juntam para tirá-la do armário.


Com esse enredo torpe, o musical mescla uma linguagem do teatro americano com muita música da Bahia. Entre as composições estão letras de Gerônimo, Capinam, Serginho Nunes (Adão Negro), Renato Fequini, entre outros músicos consagrados no cenário baiano – que eu pedi algumas letras para postar junto a esse texto e Aninha Franco nem deu importância. Essa metida! Ao todo, são 16 canções hilárias (*tem até uma versão de Amy Winehouse) todas compostas exclusivamente para a peça. Se o objetivo da peça, além de entreter, era provocar reflexão sobre as conquistas da humanidade a partir dos anos 1970, com foco em questões como a liberdade sexual, comportamental e de expressão, temas sempre atuais, acertou em cheio. Mas o “deley” em algumas cenas compromete o entendimento do público. Um bom exemplo é a cena desnecessária onde um telão é baixado no centro do palco e a imagem da Judy Garland no papel de Dorothy, adaptação do livro homônimo de L. Frank Baum, em “O Mágico de Oz”, que completa 74 anos hoje, cantando “Somewhere Over The Rainbow”, é de dá sono. Em outras cenas, os atores, mais preocupados em passar o texto, parecem terem esquecido de interagir com o público. Resultado: muita gente perdida na plateia – inclusive eu – tentando entender o texto.

Me vi assistindo um programa em tevê fechada, onde o Arnaldo Jabor fazia um comentário de que as faixas nobres do horário da televisão estavam sendo disputadas com programas de temáticas gays – e os patrocinadores disputando (aos tapas)  a veiculação de seus produtos nos intervalos.  Essa sim é uma bicha velha má! Mas em “Éramos Gays”, brincadeirinhas de cunho sexual aqui, risinhos contidos ali, e os atores quase que praticamente implorando à plateia que alguém explicasse o que anda acontecendo pelo mundo: se o homossexualismo estava aumentando? “A Bahia é gay!”, gritou alguém do palco. Logo depois, uma senhora com cara de vendedora de cosméticos, sentada do meu lado, cospe um comentário tipo: se minha filha fosse, eu respeitaria… E logo depois a ressalva: só que eu acho esta escolha muito difícil…

Apesar de o Teatro ACBEU ser muito aconchegante (*eu ainda não tinha entrado no teatro menor), o ar condicionado parecia um frigobar da casa do Joaquim Barbosa e o som estava muito alto, as vozes dos atores se perdiam no contrate com um som de boate, mesmo com o peso do nome do americano Jim Cooney, um dos coreógrafos oficiais da famosa série musical “Glee”, na produção. É ele quem assina as coreografias do musical baiano, com performances de tirar o fôlego (*Amaurih Oliveira de calcinha e cinta-liga ficou um tesão – eu pegava fácil!) e aquele gordinho sexy, o Mário Bezerra (*com tatuagem de Thundercat no braço), o que é aquilo? Nunca vi um cara rebolar tanto! A cena do stripper foi demais! Várias velhinhas (e velhinhos) ficaram ovulando nas poltronas. Foi muito boa a sacada do Cooney, que é também considerado um dos professores mais populares do teatro de dança da Broadway Dance Center. Ensinou Jazz, sapateado e teatro musical no mundo todo e seus alunos ganharam papéis de destaque na Broadway e reconhecimento nos quatro cantos do globo. Mesmo assim o som estava uma bosta!


Lembrei muito de filmes como “Priscilla, a Rainha do Deserto“ (porque tocou “It’s Raining Man”), além de “Para Wong Foo, Obrigada Por Tudo! Julie Newmar” e o excelente “Pecados da Carne”. Mas, em “Éramos Gays”, apesar de Aninha Franco viver dizendo que é uma peça para toda a família, há um mal-estar e um medo muito típico quando se aborda este tipo de assunto – pois o homossexualismo ainda é visto como algo contagioso, e perigosamente revelador, com se as famílias estivessem expostas a este vírus. Na saída do teatro, ouvi um senhor de meia idade, não tão meia assim, dizer que “essas viadagens seria uma doença contagiosa”. Malgrado este viés, depois de eu tê-lo questionado, o senhor tentou justificar que o texto também foi “muito esclarecedor”, pois retrata em suas observações dois tipos básicos de homossexuais masculinos: “O primeiro, feminino, que se identifica com a mulher, tem os seus trejeitos, sua forma de ser e gosta das mulheres, porque sofre como elas. Este sente-se muito bem na sua escolha sexual, salvo quando é atacado socialmente ou pela própria família”.  Como se eu não soubesse! “O segundo, seria o homossexual viril, que tem todo o formato masculino, mas odeia as mulheres, as despreza, mas na maioria das vezes tem que se casar com uma, por questões sociais”, filosofou, tento a sua senhora do lado fazendo cara de paisagem. Fiquei com a nítida impressão que o público baiano continua atrasado quando o assunto é a sexualidade.  Em outros lugares que já tive oportunidade de conferir espetáculos, principalmente em São Paulo, Rio e Minas Gerias, ao mesmo tempo em que uma peça como essa transborda liberdade, também é capaz de abordar temas com uma delicadeza fora do comum, como os homens que não se sentem bem como homossexuais e se censuram por isso, desprezam também outros homossexuais de tipo feminino (*tipos esses caras que nas salas de bate-papo fazem questão de dizer que odeiam os afeminados) e preferem rapazes heterossexuais.

Em cena, os atores Jorge D’Santos, João Saraiva, o delicioso Amaurih Oliveira (bunda linda!), Felipe Velozo, Mário Bezerra e Fernando Ishiruji, que substitui Daniel Rabelo (*porra!), integrante da primeira temporada, são jovens talentos escolhidos através de audição que avaliou suas aptidões enquanto atores, bailarinos e cantores. A coreografia além do já citado Jim Cooney tem também o Jason Sparks, ambos responsáveis, entre outras coisas, pela escolha do elenco do seriado “Glee”. E o elenco se desmonta e se monta, dança, rebola, rebola e dança, canta e interpreta um texto revestido de muito humor. Um humor, muitas vezes, cruel. Mas a vida é cruel mesmo, principalmente para os gays. E ser gay em Salvador, é bem pior. No espetáculo também é lembrado a história da sexualidade desde a Grécia Antiga a StoneWall Day (*um conjunto de episódios de conflito violento entre polícia e gays). No enredo surgem discussões acerca da intolerância, da diversidade e da liberdade de expressão. “Éramos Gays” também se configura como uma combinação de humor negro, música, dança e diálogos inteligentes, aliás, a melhor parte do texto. Adorei aquele bichinha intelectual! Conheci um monte desse tipo nas redações de jornais e nas escolas da vida. Nos gabinetes da política também tem um monte.

O espetáculo já ganhou o Prêmio Cidadania Em Respeito à Diversidade, conferido pela Secretaria do Estado de Cultura de São Paulo e pela APOGLBT (Associação da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo). Sucesso desde a sua estreia, no início do ano passado, o musical tem texto da já citada Aninha Franco e direção de Adrian Steinway. O norte-americano, radicado em São Paulo, traz na sua experiência participações nos espetáculos “Fantasma da Ópera”, “Mamma Mia” e no filme “Essa Maldita Vontade de Ser Pássaro” e pode ser considerado responsável por trazer a Salvador, com “Éramos Gays”, o início e espero que frutífero diálogo entre a Bahia e a Broadway.

Em suma, o musical pontua que existem ainda homossexuais masculinos onde se mesclam os dois tipos, os “anfissexias”, que traduzindo aqui ficaria algo como anfíbios sexuais. Claro que no texto de Aninha, parece querer listar uma fenomenologia de combinações que escapam às suas tentativas de classificação. Aliás, ter que classificar as pessoas em gêneros é meio clichê. Mas “Éramos Gays” é divertido sem ser didático, mas senti falta de Madonna no roteiro! Seria massa vê o Amaurih dançando “Vogue”! A peça parece querer inventar a cada passo um nome novo para um novo tipo de sujeito que se descobre em sua clínica particular. Contudo, brilhantemente, explica que os neologismos latinos e gregos sempre foram o fetiche das pessoas desde o século XVIII até a nossa era, mas ainda acho chato essa coisa de classificar, nomear, fazer nosologia. Como que se dando um nome a algo que visivelmente o extrapola, obtém-se algum poder. Então, suas bichas malvadas, saiam dos seus armários e vão conferir “Éramos Gays”.  O musical está em curta temporada. As apresentações estão no Teatro ACBEU, no Corredor da Vitória, sábados e domingos, sempre às 20h, no período de 10 a 25 de agosto. Os ingressos custam R$ 50 (inteira) e R$ 25 meia. Strike pose! Espero que seja lançado a trilha em CD!

*Elenilson Nascimento – dentre outras coisas – é escritor, colaborador do Cabine Cultural e possui o excelente blog Literatura Clandestina

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