"Não gostou, recalcada?" Por Dando Pinta


Por Dando Pinta para o site Os Entendidos 

É intriga e fofoca pra todos os lados! Amigo cutucando namorado de amigo, BFF falando mal de BFF em “grupo secreto”, e esse tipo de picuinha aumentando ainda mais o abismo entre os LGBTXYZ! Nessa mania de cultuar a Regina George, será mesmo que só Anitta expulsa as invejosas? Se liga no papo…

Segundo a psicanálise, o recalque é um “processo inconsciente pelo qual uma ideia, sentimento e/ou desejo, tidos como repugnantes por um indivíduo, são por ele excluídos de admissão consciente, mas persistem na vida psíquica, causando distúrbios mais ou menos graves”. No popular, é inveja mesmo.

É fácil entender como os conceitos se misturaram, pois a inveja é algo que todo mundo tem, mas ninguém admite. É até pecado, aliás. Logicamente que os níveis variam de pessoa para pessoa, de acordo com as situações. Entretanto, mais cedo ou mais tarde, todos têm aquele ressentimento chato porque alguém tem alguma coisa, material ou simbólica, que não temos e julgamos merecer. Aí, como não é coisa que se assuma, vamos e fazemos um comentário mordaz, tentamos diminuir, fingimos que não é conosco… E está pronto o “recalque”!

Hoje há todo um “movimento cultural” ligado a isso porque o humor é uma das melhores formas de lidar com coisas desagradáveis, e já que nossa comunidade é mestra em pegar as pedras que nos atiram e transformar em colares, estamos na vanguarda disso também.

Como identidade social, a homossexualidade ainda é vista como um “defeito”, que somos estimulados a contornar. Dessa forma, é coerente que exista uma mágoa em relação a quem é visto como “normal”, e uma necessidade de “superar a falha” com grandes conquistas materiais ou intelectuais. Logicamente que nada disso é regra, mas em graus variáveis são fatores presentes nessa vivência, justamente porque a sexualidade ainda se apresenta como agente definidor.

Estereótipos como o da “bicha má”, representado pelo vilão Félix da atual novela das nove, existem por causa disso. A própria construção da identidade masculina reforça atitudes assertivas, de combate direto, em oposição a uma ideia de que mulheres são invejosas, manipuladoras e venenosas. Como homossexuais seriam teoricamente “fracos”, agiriam da mesma forma que as mulheres diante de situações de confronto. E segundo o machismo, essa feminização nos torna desprezíveis. Somos o terror “dazinimiga”!

Um amigo disse que seu namorado é feio, apesar de ele ser a cara do Brad Pitt? Recalque, óbvio! Aquele colega desmereceu seu trabalho, que logicamente foi muito melhor do que o dele? Inveja! E o que dizer daquele conhecido que fala mal de você, mas vigia todos os seus passos? Sua fã incubada! Não seria ótimo mandar todo mundo pro inferno, ou pelo menos “cutucar a onça” ao mostrar que você está mesmo numa situação melhor?

O humor é ótimo pra mitigar a dor e é parte da cultura gay, mas também serve para “dourar a pílula” e deixar passar aquela alfinetada espertinha. A coisa vira um esporte e faz florescer um mercado próprio, hoje representado por diversas páginas sarcásticas, memes “da depressão”, culto a filmes com o tema, músicas provocativas e é claro, a infinita “Diva Wars” entre fãs de estrelas pop. Como ocorre com tudo que nos diverte, às vezes nos excedemos, e cabe um certo cuidado com os sentimentos do outro. Tudo bem que estamos tratando com “inimigos”, mas não dá para sair de superior se uma ironia implicante cruzar o limite e acabar virando maldade. Todo mundo já esteve do outro lado dessa briga, então é sempre bom ter isso em mente, até porque o mundo dá voltas. Vai que a “recalcada” de hoje vira a “poderosa” de amanhã? Como sempre, no fim das contas, a melhor posição é o quadradinho de borboleta a da Diva-filósofa-rainha-entidade-suprema Valesca: vida longa às inimigas, que assim elas poderão ver o seu sucesso.

Seja fabuloso, keep calm e deixa de recalque!


Comentários