Peter e Kenneth: uma história de amor com mais de 58 anos

 
Publicado pelo iGay
Com informações do The New York Times
 
Juntos ou separadamente, eles viveram ativamente grande parte da história da comunidade gay. Desde encontros no serviço militar durante a Segunda Guerra Mundial, passando por noites no Stonewall Inn – o bar berço do movimento pelos direitos LGBT, pela ferveção nas saunas nos anos 70, até chegar à transformação do bairro onde viviam, o Chelsea, em Nova York, num epicentro gay.
 
Kenneth Leedom , 88, e Peter Cott , 89, estão juntos há 58 anos e juram que nunca tiveram uma discussão séria durante todo esse tempo. Eles tiveram vidas bastante ativas. Cott trabalhou como ator, publicitário, gerente de teatro e foi diretor executivo de uma residência dos artistas. Leedom foi diretor-executivo da Academia de Artes e Ciências da Televisão, organizadora do prêmio Emmy.
 
 
 
 
O casal caminha na vizinhança do prédio onde mora,
na Baixa Manhattan. Foto: The New York Times
 
Hoje, Leedom anda com ajuda de uma bengala de alumínio por conta de uma queda no banheiro de seu apartamento há um par de anos. Cott usa dois aparelhos de surdez e recebeu um diagnóstico de que pode desenvolver a doença de Alzheimer.
Recentemente, um médico diagnosticou também um câncer de bexiga em Cott. A preocupação atual do casal é que um não possa mais cuidar do outro no futuro. Há três anos, eles se mudaram para um condomínio para idosos na Baixa Manhattan. No local, as refeições e as atividades do dia são todas programadas.
 
Os dois dizem que gostam de viver no lar para idosos, mas tem uma reclamação. “A única decepção que temos aqui é a dificuldade de fazer novos amigos”, se queixa Leedom, admitindo, no entanto, que o casal toma poucas atitudes nesse sentindo.
 
O antigo apartamento deles no Chelsea foi vendido com um lucro grande. “Nós compramos por US$ 150 mil e vendemos por R$ 4 milhões”, revela Leedom. Ele o parceiro fazem parte de uma faixa etária que cresce cada vez mais em Nova York, a dos idosos com mais de 85 anos.
 
Na paredes do apartamento do casal, fotos relembram
momentos importantes na vida de Cott e de Leedom.
 
Nas paredes do apartamento do casal, fotos deles dois ainda jovens ajudam a contar a a trajetória de vida deles. Entre os vizinhos e amigos, são poucas histórias de amor que resistiram há tanto como a deles. “Nosso relacionamento tem sobrevivido sem brigas”, conta Leedom, "Nós discutimos e temos nossas diferenças de opinião, mas isso nunca acontece de uma forma dramática. Nós estamos sempre juntos e compartilhamos tudo”, completa ele.
 
Em 2000, eles colocaram no papel essa relação tantos anos, casando-se numa cerimônia civil em Vermont. Essa história começou em 1955, no Festival Shakespeare de Teatro, em Stratford, Connecticut. Os dois trabalhavam juntos no local. Leedom arrecadava fundos para construir um teatro e Cott gerenciava o projeto.
 
“Numa sala cheia de gente, eu o vi pelas costas e pensei que aquele rapaz parecia ser bonito. Quando ele se virou, eu confirmei a minha intuição de que ele era muito bonito”, lembra Leedom sobre a primeira vez que viu Cott.
 
E Cott, o que pensou quando viu Leedom pela primeira vez? “Eu vou levar esse cara para cama”, responde ele, dando uma risada maliciosa. “E eu fiz isso, e ainda continuo fazendo”, se vangloria.
 
Leedom é um dos quatro filhos de um agricultor itinerante da Califórnia, crescendo numa casa onde a oração era importante, com um avô e um bisavô ministros da Igreja Metodista. O americano descobriu cedo o desejo pelo mesmo sexo, se interessando por um rapaz de uma fazenda vizinha. “Eu o paquerei com bastante empenho... Foi algo totalmente natural. Eu não parei para pensar no que estava fazendo”, explica ele.
 
Leedom e Cott juntos na juventude em porta-retrato
no apartamento do casal em Nova York

 
Já Cott, cresceu em Long Island, no vilarejo Cedarhurst. O pai dela era um fabricante de roupas e relógios. A família evoluiu de Judaísmo ortodoxo para o conservador. Ele também sabia desde cedo que gostava do mesmo sexo.
 
Descrevendo suas famílias como muito religiosas, eles dizem que nunca tiveram a sexualidade censurada em suas casas, até porque nunca falaram abertamente com os pais sobre o assunto. Ambos se relacionaram com mulheres quando mais jovens.
 
“Eu tive alguns parceiros e tive Peter no início da minha vida adulta. Meus pais simplesmente o aceitaram. Mas isso nunca foi discutido”, admite Leedom. "O padrão agora é que todo mundo tem de se assumir e dizer: ‘Eu sou gay’. Mas essa palavra nem existia em nossa vida na época. Não era algo que você tinha que falar, isso não importava”, analisa.
 
Leedom conclui reforçando a ideia de que a questão nunca foi discutida. "Ambas as nossas famílias nos acolheram com amor, sem questionamentos. Meus pais o adotaram e os dele me adotaram. Eu nem acho que minha mãe e meu pai sabiam que eu era gay. Eles só sabiam nos éramos amigos íntimos".
 

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