21/10/2013

A homofobia se educa!

 
Publicado pelo Uebi
Texto de Eliseu Neto.
By Superpride.
 
O Brasil teve um aumento de 40% nos cri­mes de homo­fo­bia em 2012. Temos deba­tido no comitê de cida­da­nia LGBT cari­oca se houve um real recru­des­ci­mento do ódio ou se sim­ples­mente nos­sas cam­pa­nhas sur­ti­ram efeito e as pes­soas têm denun­ci­ado mais.
 
Meu olhar, via con­sul­tó­rio e redes soci­ais, é que o aumento da visi­bi­li­dade dos LGBTs e a uti­li­za­ção do embate por líde­res pseu­do­re­li­gi­o­sos ou “depu­ta­dos fede­rais que não tem pro­jeto mas ado­ram um grito na tri­buna” têm feito com que as pes­soas se posi­ci­o­nem, para o bem ou para o mal. Infelizmente, no país que está em 40º lugar numa lista de 41 em edu­ca­ção, mui­tos se posi­ci­o­nam atra­vés do ódio, da into­le­rân­cia e da ignorância.
 
Desse aumento, 30% foi na vio­lên­cia den­tro da pró­pria famí­lia, o que é de uma cru­el­dade atroz: qual­quer outra mino­ria, ao ser humi­lhada, tem na famí­lia suporte; o gay é o único que apa­nha na rua e apa­nha de novo em casa por ser “via­di­nho”. Lembro do caso de um garoto de 15 anos que me rela­tou ano pas­sado durante minha cam­pa­nha para vere­a­dor, que o pai fez com que ele quei­masse toda a sua cole­ção livros da série ame­ri­cana “Crepúsculo” (“Twilight”) pois ele os con­si­de­rava “coisa de bichinha”.
 
Outros 30% do aumento da homo­fo­bia no país, pas­mem, foram regis­tra­dos na escola. O ambi­ente; que deve­ria ser apro­pri­ado para a for­ma­ção do cida­dão, com exem­plos nos quais o jovem possa se espe­lhar, tornou-se um lugar do ódio, da agres­são. O índice de sui­cí­dio de jovens gays é 3 a 7 vezes maior que o de jovens hete­ros­se­xu­ais. E isso tudo ocorre ape­sar da Lei de Diretrizes e Bases da edu­ca­ção bra­si­leira, que define:
 
Art. 1º. A edu­ca­ção abrange os pro­ces­sos for­ma­ti­vos que se desen­vol­vem na vida fami­liar, na con­vi­vên­cia humana, no tra­ba­lho, nas ins­ti­tui­ções de ensino e pes­quisa, nos movi­men­tos soci­ais e orga­ni­za­ções da soci­e­dade civil e nas mani­fes­ta­ções cul­tu­rais. (LDB)
 
A figura do ori­en­ta­dor edu­ca­ci­o­nal ou do psi­có­logo esco­lar (pra­ti­ca­mente) sumiu da edu­ca­ção, inclu­sive de alguns colé­gios pri­va­dos. A escola virou uma “máquina de pas­sar em pro­vas” e dei­xou intei­ra­mente de lado a ideia de for­ma­ção do cida­dão e do com­bate ao ódio. Abandonou a pers­pec­tiva de ser um espaço de diver­si­dade e dis­cus­são sobre direi­tos civis.
 
Em tem­pos em que pro­fes­so­res vêm sendo espan­ca­dos por bri­ga­rem pela edu­ca­ção, esse texto parece uma uto­pia, mas acre­dito que den­tre as mudan­ças que deve­ría­mos estar todos exi­gindo está uma esco­lar que real­mente forme “gente”.
 
E quando falo “gente”, quero dizer o ser humano que entende que a ima­gem de dois homens se bei­jando não deve­ria cho­car uma cri­ança e sim ser vista como neces­sá­ria ao seu apren­di­zado sobre diver­si­dade; que ver o dife­rente, o novo, aquilo que não é comum é a con­cep­ção mais pró­pria de educação.
 
Espero que neste debate haja espaço para ser tra­ba­lhada a ideia de que a escola deixe de ser um dos mai­o­res locais de pro­pa­ga­ção de ódio, da into­le­rân­cia e da homo(trans)fobia.
 
Devemos pre­pa­rar os pro­fes­so­res como pro­fis­si­o­nais capa­ci­ta­dos para lidar com a sexu­a­li­dade e ter na escola um espaço de escla­re­ci­mento e for­ma­ção dos nos­sos jovens para o futuro do país (que hoje detém o tro­féu em número de mor­tes de homos­se­xu­ais e trans).
 
Tenho noti­cia de que a ONG Arco-Íris e a Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro vêm orga­ni­zando um pro­jeto (nesse sen­tido). Nós, do comitê LGBT cari­oca, tam­bém temos pen­sado o nosso. Que sur­jam mui­tos mais pro­je­tos, que as enti­da­des nos apoiem e que pos­sa­mos mudar um pouco o nosso Brasil .
 
“Educar ver­da­dei­ra­mente não é ensi­nar fatos novos ou enu­me­rar fór­mu­las pron­tas, mas sim pre­pa­rar a mente para pen­sar.” Albert Einstein
 
 

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