Meu namorado já teve namorado: mulheres que descobriram outras formas de lidar com insegurança e liberdade

 
Publicado pela Revista TPM
Por Ariane Abdallah e Amanda Nogueira
 
Era uma madrugada como outra qualquer. Carla* e Ronaldo, na época com 20 e 27 anos, voltavam para casa depois de uma festa. Jogavam conversa fora quando ela perguntou, rindo: “Ah, vai dizer que você nunca fez nada com outro cara?”. Ronaldo fez silêncio. O clima pesou. “Achei que tinha sido brincadeira de moleque, não imaginava nada sério”, esclarece a revisora de texto, hoje com 24 anos e nove de namoro. Ele, então, contou que havia namorado um homem por um ano – por sinal, um amigo com quem o casal convivia. “Fiquei chateada por ele não ter contado antes”, lembra Carla. Desde então, passou a sentir ciúme do tal amigo, que está casado, pela segunda vez, com uma mulher e é pai de quatro filhos.
 
Casos como o de Carla são mais comuns do que se imagina, mas em geral não são assumidos. Para descobrir histórias parecidas, a equipe da Tpm mandou e-mail para uma centena de colaboradores. Veio uma única resposta. O post no Facebook rendeu uma piadinha e o assunto morreu. Das pessoas que toparam falar, a condição era sigilo do nome: “Ninguém quer falar disso”.
 
Tá na moda?
 
Já a publicitária Cecília, 21 anos, não teve escolha. Em 2010, namorou por cinco meses Diego, que contava seu passado homossexual até em mesa de bar. Ela não gostava e às vezes saía de perto para não ouvir. “Ele falava que eu tinha que me acostumar”, conta. Os dois se conheceram quando ela tinha 13 anos, num curso de teatro. Passaram anos sem se ver, até que se cruzaram na faculdade, e ela levou um susto. “Ele estava de cabelo comprido, roupas justas, falava gesticulando muito... Dava para perceber que era gay.” Em uma conversa rápida, o menino comentou que tinha um caso com um professor. Não se viram mais por dois anos, até que, num reencontro do teatro, Cecília levou outro susto. Agora, ele se comportava de maneira discreta e se dizia heterossexual.
 
Ficaram próximos, começaram a se ver, “ele virou meu amigo gay”. Até que se declarou apaixonado por Cecília. A cabeça dela deu um nó. “Foi confuso pra mim, mas resolvi levar o relacionamento adiante. O pior eram os comentários. Meninos que nem me conheciam diziam para eu largar meu namorado porque ele era veado”, conta.
 
“O diferente numa relação como essa é se acostumar com um
cara que não desempenha sempre o papel do macho” (Lucia, 24 anos)
 
Cecília faz parte de uma geração que aparentemente tem maior aceitação das relações homo e bissexuais. “Quando me formei no colégio, mais da metade dos rapazes da minha sala era gay. Ficar com alguém do mesmo sexo pode até gerar status”, opina ela, que diz nunca ter beijado outra menina. O psicanalista Nelson da Silva Junior, da USP, ouve de seus pacientes histórias que vão ao encontro do que Cecília diz: “Para alguns grupos de jovens isso hoje é um valor. Na sociedade do consumo, do prazer imediato, o que vale é ter o maior número de experiências possível”. Há alguns anos, o psiquiatra Luiz Cuschnir, coordenador do Instituto de Psiquiatria da USP e do Centro de Estudos da Identidade do Homem e da Mulher, foi procurado por um conceituado colégio paulistano que via esse comportamento entre seus alunos. Para ele, o que está acontecendo é diminuição do preconceito e aumento da liberdade. “Essas experiências abrem caminho para que sejam repetidas na fase adulta”, observa.
 
Amizade colorida
 
Existem ainda mulheres, a maioria na faixa dos 30 anos, que acabam se aproximando de um amigo gay depois de relacionamentos heterossexuais frustrados. Às vezes, a afinidade é tanta que a amizade vira namoro e, mesmo ela sabendo que o cara é gay, topa uma relação em que prevalece o carinho, o afeto, a vontade de construir uma família. O sexo fica em segundo plano, e é possível que ela aceite que o homem continue a transar com outros parceiros. “Para a mulher, esse homem representa a figura afetiva, não ameaçadora, porque ela sabe que não vai ser traída com outra. Eles são homossexuais, mas ‘hétero afetivos’. Se a mulher estiver disposta a bancar, podem até ter filhos”, afirma o psiquiatra Alexandre Saadeh, do Hospital das Clínicas (SP), que atende pacientes de ambos os sexos nessa situação.
 
Já para as mulheres ouvidas pela reportagem da Tpm o sexo é, sim, fundamental na relação. Cecília garante que o ex-namorado tinha pegada de homem na cama. “O sexo não era nada delicado. Ali, na hora, nunca veio na minha cabeça uma cena dele tendo relação com outro cara, até porque, se pensasse nisso, não sei se conseguiria continuar.”
 
“O sexo não era nada delicado. Ali, na hora, nunca veio na minha
cabeça uma cena dele tendo relação com outro cara, até porque,
se pensasse nisso, não sei se conseguiria continuar” (Cecília, 21 anos)
 
Porém, em outros momentos, Cecília sentia como se estivesse com uma amiga. Ele falava sobre moda, reparava em suas unhas e entendia até suas crises de TPM. “Isso me deixava com um pé atrás”. Além disso, ele cuidava dos mínimos detalhes nos momentos que estavam juntos. Por exemplo, na primeira noite em que transaram, na casa dele, encontrou as luzes vermelhas no quarto e o vinho já na taça. Hoje, Cecília acha que toda essa atenção podia ser um meio de ele afirmar sua masculinidade – e confessa o medo que tinha de ser trocada por um homem. “Se acontecesse, sentiria que não fui mulher suficiente para fazê-lo mudar de ideia.”
 
Sem limites
 
A instrutora de ginástica Julia, 28 anos, namorou por um ano um bissexual e se irritava quando ele imitava o estereótipo do gay. “Durante uma briga, cheguei a chamá-lo de boiola”, conta ela, que não se imagina em outro namoro assim. Carla, a revisora de texto que namora há nove anos, passou por situação parecida. No início, se incomodava com os trejeitos de Ronaldo, que às vezes falava alto e gesticulava muito. “Quando escapava alguma coisa, me assustava, mas agora não me incomodo mais”, diz. Já a enfermeira Marcela, 37 anos, assegura que o marido, bissexual, “não dá pinta nenhuma. Tem traços turcos, barba, cara de homem”, descreve.
 
O fato é que saber que o parceiro já teve relação homossexual é mais um elemento para a mulher se sentir insegura. “Ela talvez pense: ‘O que ele espera de mim? Que papel quer que eu faça?’”, pondera o psicanalista Nelson da Silva Junior. “O diferente numa relação como essa é se acostumar com um cara que não desempenha sempre o papel do macho”, diz a advogada Lucia. Aos 24 anos, namora há seis meses um cara que se considera “hétero flexível”. Há alguns meses, a pedido dele, ela vem considerando a possibilidade de usar uma daquelas cintas com pênis de silicone para fazer o papel do homem. “Achei estranho, mas ele pediu para eu pensar. Por que não?”
 
Saber que o parceiro teve relação homossexual é mais um
elemento para a mulher se sentir insegura. “Ela talvez pense:
‘O que ele espera de mim? Que papel quer que eu faça?’”
(Nelson da Silva Junior, psicanalista)
 
Já os hábitos do casal Marcela e Jairo vão muito além. Quando se conheceram, ele já transava com homens, principalmente travestis. Ela topou a brincadeira pela primeira vez numa noite em que saíram com um casal de amigos. Desde então, faz parte da vida deles transar com pessoas já conhecidas ou que encontram na internet. Vale tudo: homem com homem, mulher com mulher, desde que os dois estejam no mesmo ambiente. E ela garante que não é tabu ver o marido sendo penetrado. “Ele é liberado no sexo e isso me seduziu, fazemos o que temos vontade.”
 
Marcela acredita que todo mundo é potencialmente bissexual, mas é reprimido. “Acho que a gente aprende a ser heterossexual. As pessoas são doutrinadas desde criança a seguir um caminho só”, opina. Sua teoria tem a ver com o que acredita a psicanálise, que leva em consideração a história da humanidade para explicar a opção sexual. O psicanalista Nelson da Silva Junior esclarece: “Para Freud, a sexualidade está relacionada com experiências da infância e da adolescência, é cultural, e não tem nada a ver com degeneração moral ou física”.
 
Seja como for, relaxa e goza.
 
*os nomes dos entrevistados foram trocados para protegersuas identidades reais
 

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