13/11/2013

Afinal, quem é urso e quem não é?

 
Publicado pelo Mix Brasil
 
Ao contrário do que vemos nas novelas brasileiras ou em programas humorísticos de qualidade duvidosa, a comunidade gay é muito diversificada. Tão diversa que alguns, ao tomarem consciência de sua homossexualidade, podem enfrentar dificuldades de se encaixar ao se deparar com vários grupos distintos, tal qual as panelinhas que vemos em filmes adolescentes norte-americanos. É isso mesmo: não basta ser gay, você pode ser um twink, barbie, leather, queer rocker ou um urso. Isso para nomear apenas alguns.
 
Mas o assunto aqui é sobre os ursos, uma comunidade que toma por si só a responsabilidade de se mostrar a antítese da visão de gay que a mídia oferece, e que agora lida com a própria imagem que o grupo conquistou na mídia. Porém, dentro da comunidade ursina, pode-se encontrar uma coleção de subgrupos: chasers, cubs, lontras, pandas, leather...
 
As possibilidades de identificação são tantas que às vezes não tem como não se perguntar: "O que eu sou? Eu posso ser um urso? Afinal, o que é ser urso?". Para ajudar a clarear as mentes mais confusas, mostraremos depoimentos de ursos convictos que explicam o quê os faz serem ursos, afinal, além de darem suas impressões sobre a comunidade ursina.
 
A descoberta
 
A maioria dos entrevistados mostrou-se surpresa quando descobriu o mundo dos ursos. Para Claudio Guilherme, de São Paulo, se deparar com o movimento ursino em tenra idade serviu também de conforto: “Conheci a comunidade por acaso, quando comecei a pesquisar sobre o mundo gay na internet por volta dos meus 13, 14 anos. Na minha cabeça confusa de adolescente, eu achava que ser gay significava desmunhecar, etc. e tal, então foi um alívio master na minha cabeça quando soube da existência desse grupo. Hoje em dia sei que esse pensamento é mais do que tosco, e que ninguém é mais ou menos homem por falar fino, fazer crossdressing ou o que der na telha, me identifiquei com eles por serem uma comunidade de gays que não se preocupavam tanto com a estética e coisas fashion/cult/yuppie”.
 
Também de São Paulo, Daniel Lima conheceu a comunidade por conta de uma entrevista que o promoter urso Rogério Munhoz deu para Jô Soares: “Eu já curtia homens que eram homens de verdade, mas até então eu não sabia que eles eram chamados de ursos”.
 
Bruno Meirelles, de Niterói, Rio de Janeiro, conheceu a comunidade por conta da curiosidade de sempre ter sido chamado de urso: “Até há pouco tempo eu não sabia que existia esta comunidade. Sempre ouvia que era um ursinho, mas levava na sacanagem, fingia não dar importância, no fundo me incomodava um pouco. Até que um dia um ex-amigo falou que tinha visto algo sobre o universo dos ursos na internet e pediu para que eu lesse. Após lida a matéria, vi que existiam pessoas como eu, que pensavam como eu, e tinham o meu biotipo... ‘Uau! Achei minha turma’, pensei, pois eram pessoas com mesmo físico, a barba grossa e pelos pelo corpo”.
 
Aprendendo a ser urso
 
Para os três, a identificação de urso se dá por conta de características físicas e atitudes distintas. Ser gordo ou parrudo, e ter uma boa quantidade de pelos no corpo, é como a maioria identifica um urso de imediato, mas uma coisa parece ser fundamental: a barba. “Eu sempre fui um projetinho de urso, já que sempre fui gordo, só me faltavam pelos... Aliás, ainda me faltam pelos, mas pelo menos tenho uma barba pra me satisfazer”, declara Claudio.
 
Além da barba, que “não pode faltar”, Daniel também dá ênfase ao tamanho do corpo: “Costumo dizer que urso pra mim é quando o cara preenche um abraço, com um cara mais magro, sobra mão no abraço, já com um urso, não”. Todavia, para ambos o aspecto físico não importa tanto, o essencial é ter uma “atitude ursina”. Mas o que seria isso? “Pra mim é todo um conjunto de aparência, atitude e estilo de vida, uma mistura de orgulho de gostar de homem, sem perder aquilo que te define como um homem como todo mundo conhece. Você pode ter ursos com poucos ou nenhum pelo no corpo, mas ter orgulho de si mesmo é uma característica principal”, define Daniel.
 
Porém tal atitude despreocupada é refletida na comunidade ursina como um grupo? Aqui as opiniões divergem. Para Bruno, acolher a todos é uma característica típica dos ursos: “Nós, ursos, nos orgulhamos de quem somos e do que vivemos. Não nos rotulamos, podemos sentar em um ambiente hétero e conviver naquele local muito bem. Somos de fácil adaptabilidade, convivemos em qualquer lugar, com qualquer pessoa e em qualquer ambiente”.
 
Já Claudio não vê a receptividade como algo unânime entre ursos: “Já vi em redes sociais e ouvi relatos de alguns conhecidos sobre os ursos que enxotam ou ridicularizam todos os não-ursos que não são nem chasers nem admiradores. Inclusive é fato que existe uma espécie de rusga entre os twinks e os ursos, mas acho que isso deve ser somente por causa da divergência de ideias”.
 
Daniel faz uma comparação entre a comunidade de ursos norte-americana, que foi a que “começou tudo”, e a comunidade brasileira, e acaba refletindo que talvez os ursos brasileiros ainda tenham o que aprender: “Já vivi um pouco do que é a comunidade lá fora, e a abordagem da coisa toda é muito diferente. São poucos os que têm essa coisa de se orgulhar de ser urso e que não tem medo de assimilar os costumes da comunidade que existe lá fora”.
 
Isso quer dizer que até mesmo entre ursos há espaço para o preconceito? Infelizmente sim, como em toda sociedade. “Às vezes por questão de aparência, às vezes por uma questão de grupos diferentes de ursos, às vezes por outros motivos, pequenos grupos de amigos se formam dentro da comunidade, e às vezes esses grupos não se dão bem uns com os outros”, informa Daniel, que disse não só ter presenciado, mas que eventualmente sofreu algum tipo de manifestação de desprezo dentro da comunidade.
 
“Esse tipo de atitude afasta e muito novos ursos, sejam eles de gerações mais novas ou caras mais velhos que se descobrem ursos. Ou até mesmo com os caras mais magros que gostam de ursos, nesse caso a situação pode ficar pior ainda... Muitas e muitas vezes o critério de interação social é o seguinte: ‘Se fulano não é gostoso, ou do jeito que eu gosto, então eu vou ignorá-lo’. As pessoas sentem a falta de receptividade justamente por causa dessas barreiras, as interações pessoais deixam de ter um fundamento social, e passam a ter um fundamento exclusivamente sexual”.
 
Mais do que uma barba
 
E afinal, o que faz com que vejamos tantos grupos e subgrupos dentro de uma mesma comunidade? Segundo a psicóloga Silene Castro Fazioni, a resposta está no fato de que o ser humano é um ser social: “As pessoas geralmente buscam se reunir nos grupos os quais estes se identificam, onde a dinâmica seja saudável, o que irá refletir no bem estar do sujeito”. As pessoas procuram se encaixar onde mais se sentem confortáveis e se não acharem tão lugar, vão criar um, assim como se viu a necessidade de uma comunidade ursina surgir em resposta a outros grupos de homossexuais que já existiam, mas que provavelmente não atingiam suas expectativas. Ainda de acordo com Silene, o fundamental é que o indivíduo “respeite seus limites, buscando os grupos nos quais se sente confortável, com afinidades que fortalecem o vínculo entre este e os participantes”.
 
Vemos aqui que para os ursos entrevistados, a questão fundamental para a relação entre os ursos brasileiros é manter-se fiel à essência do que a comunidade prega: “O que mais importa num urso é ter um jeito mais tranquilo, amigável e festeiro, sem ficar se preocupando se vai ficar de ressaca ou quantas calorias tem esse ou aquele prato, ou até mesmo se está dando pinta demais. É ter sempre a mente aberta pra curtir os prazeres que a vida tem a oferecer”, declara Claudio.
 
Portanto, talvez a questão sobre se sentir um urso não esteja apenas em ter pelos ou ser corpulento. Em vez de se preocupar se você é isso ou aquilo, assim ou assado, que tal procurar se preocupar, inicialmente, em simplesmente ser você? Por fim, eis a seguinte declaração de Daniel: “É preciso ter menos preocupação em ser urso. Assuma seu físico, seja mais desencanado, e viva feliz com a comunidade”.
 
 

3 comentários:

Artista Elpidio disse...

Achei muito digno esse texto, ou urso e sinto cada vez mais orgulho de pertencer a essa comunidade (Claro que sem desrespeitar todas as outras comunidades gays que existem.)

Yugichan disse...

Gostei do texto, ele mostra um pouco que é a comunidade ursina que é como qualquer outra comunidade, tem existem desavenças, mas existe bom convívio entre os integrantes. Quando conheci o mundo ursino pela internet me deparei com a filosofia dos ursos (antigo site ursos.com) "Seja você mesmo!", e procuro seguir esse filosofia, ser quem sou independente do que achem/digam, sou um urso e gosto de ser.

Elisandro de Souza disse...

Me identifico com os relatos pois passei por isso,não conseguia me encaixar nós grupos já conhecidos, depois de uma matéria em um programa de TV sobre ursos que achei onde me encaixar.
Sou gay e sou músculo e gosto de ser assim.

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