01/11/2013

Noite gay paulistana das décadas de 70 e 80 é tema de filme


Publicado pela Veja SP
Por Miguel Barbieri Jr.

Entrevistei Lufe Steffen quando ele exibiu seu documentário A Volta da Pauliceia Desvairada na Matilha Cultural, em setembro. Tinha visto o filme, sobre a noite gay paulistana de hoje, e gostado muito. Lufe está de volta com um novo registro sobre a noite gay de São Paulo, só que agora seu foco voltou-se para as décadas passadas. São Paulo em Hi-Fi será exibido em primeira mão no Festival Mix Brasil. Haverá duas sessões: domingo, 10 de novembro, às 20h15, no CineSesc, e quinta-feira, 14 de novembro, às 16h, no Espaço Itaú 3. Tive muitas curiosidades a respeito do novo trabalho do diretor e, abaixo, tem a entrevista que fiz com ele. Não deixe de ler!
 
De onde surgiu a ideia de um documentário sobre a noite gay do passado?
Foi durante as gravações do meu documentário anterior, A Volta da Pauliceia Desvairada. Na época, entrevistei uma pessoa na faixa dos 60 anos para falar sobre a noite gay de São Paulo no passado, já que o Pauliceia mostrava a noite gay do presente. O depoimento foi tão incrível, rico e saboroso que eu fiquei com vontade de saber mais. E aí percebi que esse assunto merecia um filme só para si. Como tenho um lado saudosista e nostálgico, a ideia tornou-se inevitável.
 
Qual período o filme abrange?
O início passa rápido pela década de 60 e se desenvolve nas décadas de 70 e 80. Termina na virada dos 80 para os 90. As grandes boates, que dominam o filme, são Medieval, Nostro Mondo, Homo Sapiens (ou HS) e Corintho… Mas há outras casas citadas e comentadas, como os bares 266 West, Val Improviso, Barroquinho, Caneca de Prata, além dos bares de lésbicas que ganharam destaque no filme: Ferro’s Bar, Moustache, Feitiço’s.
 
Quantas pessoas entrevistou?
Reduzi bastante do Pauliceia para Hi-Fi. Antes, foram 100 pessoas; para este, apenas 25.
 
Foi difícil encontrar as pessoas certas?
Algumas eu já conhecia há muito tempo porque têm ligação direta com a comunidade LGBT até hoje. E essas pessoas me indicavam outras. Era obrigatório também entrevistarmos tipos simbólicos daquela época e, na pesquisa histórica, alguns nomes vieram à tona e conseguimos localizá-los. Encontrou algo excêntrico pelo caminho? Acho que o extremo é a famosa história da Wilza Carla chegando montada num elefante para uma festa na Medieval.
 
Há uma pegada política no filme?
Sim. A época da ditadura militar, a perseguição do delegado Wilson Richetti aos gays e travestis no início dos anos 80, a explosão da Aids, a chegada do Fernando Collor ao poder. Tudo isso está no documentário e atingindo diretamente os personagens.
 
Chegou a filmar as lendárias casas noturnas hoje?
A maioria não existe mais. Pensamos em filmar a fachada da Corintho, onde hoje funciona uma igreja Renascer, mas desistimos. Fora que os locais que existem mudaram muito. O HS é o Bailão, mas não é a mesma coisa de antes. E a Nostro Mondo vive cambaleando, mudando de estilo e de identidade. Usamos, então, material de arquivo.
 
Alguém importante ficou de fora?
Gostaria de ter entrevistado pessoas que já faleceram, como a Condessa Mônica, Cláudia Wonder, Andrea DiMaio e também algumas estrelas do Medieval, que hoje moram na Europa: a Margot Minnelli, Mona, Erika… E a Wilza Carla, claro.
 
Procurou algum artista famoso que frequentava a noite gay?
Não, mas tem um trecho do filme que mostra os famosos que frequentavam o Medieval. São fotos históricas muito legais.
 
Qual a conclusão que você chegou sobre a diversidade das boates gays do passado, sobretudo por não tê-las conhecido?
Depois de um tempo de trabalho, consegui ficar mais “íntimo” dessas casas e, assim, passei a identificar rapidamente qual era o estilo visual do público, das transformistas… Todas as boates tinham uma personalidade forte e bem definida.
 
E qual seria a personalidade de cada casa?
Percebi que o Medieval foi a primeira grande casa gay, frequentada por héteros, famosos etc. Foi um hype nos anos 70. Na década de 80, o pódio ficou com a Corintho – ambas eram da Elisa Mascaro, que está no filme. A Nostro Mondo sempre foi “a prima pobre”, era mais popular, mais divertida, mais “trash” no bom sentido da expressão. A HS, creio, fundiu um pouco desses dois mundos: tinha o lado sofisticado e, ao mesmo tempo, era popular e acessível. Talvez tenha sido a grande casa gay de São Paulo. Eu adoraria entrar numa máquina do tempo e, a cada sábado à noite, visitar cada uma delas. Se eu tivesse o DeLorean, do filme De Volta para o Futuro, iria me divertir muito (risos).
 
 
 

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