"Papa Francisco e a ‘modern family’" Por Anna Virginia

POR *ANNA VIRGINIA para a FOLHA 

Monsenhor Vincenzo Paglia, o ‘ministro da Família” da Cúria Romana, na Catedral da Sé


Corta para o século 21:

Casais divorciados ainda devem ser proibidos de comungar?

E os casais gays: poderiam batizar seus filhos adotados na igreja?

Como, afinal, a Igreja Católica, vai encarar nos próximos anos a evolução da família moderna?

O monsenhor Vincenzo Paglia, uma espécie de “ministro da Família” no Vaticano, está em São Paulo e conversou hoje com alguns repórteres na Catedral da Sé sobre “o momento histórico” que vive a Igreja Católica.

Explica-se: o papa Francisco lançou um questionário inédito com 38 perguntas, distribuído por paróquias mundo afora.

É claro que as interrogações não são tão diretas quanto as que abrem este texto. Mas lá estão grandes tabus do catolicismo.

De novo blocos da enquete, um se dedica às “situações matrimoniais difíceis” –do divórcio à “convivência ad experimentum” de quem junta as escovas de dente sem subir ao altar. Outro trata da união homossexual.

Esse “Dataigreja”, como bem definiu Clóvis Rossi em na Folha de ontem, não propõe duplos twists carpados em dogmas ou práticas da Igreja –nada de discutir “se o casamento pode ser dissolvido, em vez de de ser ‘até que a morte nos separe’” (citando Clóvis de novo).

Monsenhor Vincenzo me responde assim, por exemplo, sobre a possibilidade de a Igreja aceitar num futuro próximo casais homossexuais: “Podemos encarar todos os problemas, mas a família é aquela de sempre. Se tudo for família, então nada é família”.

‘DATAIGREJA’

O “Dataigreja” faz prospecção de terreno. Não à toa demanda que párocos descubram se é possível “calcular numericamente” os diferentes arranjos familiares em seus redutos.

Pergunta-se se o país da paróquia tem leis que aceitem união entre pessoas do mesmo sexo. E ainda: qual a melhor forma de prestar “atenção pastoral” a essas famílias.

A ideia é preparar algo próximo a um “censo” dos católicos. As conferências episcopais precisam entregar um resumo ao Vaticano até o final de janeiro. O resultado será discutido numa assembleia extraordinária convocada pelo papa Francisco para outubro de 2014: o Sínodo dos Bispos sobre a Família.

Os sínodos –reunião periódica de bispos presidida pelo papa– podem acontecer fora de hora se o tema em questão exigir uma definição rápida, explicou no mês passado o padre Federico Lombardi, porta-voz da Santa Sé. 

‘COM CERTEZA!’

Monsenhor Vincenzo foge de respostas definitivas (“se eu ter der uma, o sínodo vai ser inútil!”), mas diz que, após o encontro em 2014, a Santa Sé “com certeza terá que mudar a atitude com essas pessoas [divorciados num segundo casamento, no caso]”.

“Não estamos falando nada de abstrato, estamos falando do mundo. O papa quer que olhemos para as famílias que vão bem e vão mal.”

Ainda sobre este assunto: a Igreja pode não autorizar o divórcio, mas espera ampliar o conhecimento sobre situações em que um matrimônio pode ser considerado nulo. Um divórcio, pero no mucho.

O assessor de imprensa da Arquidiocese de São Paulo me dá exemplos: se uma das partes estiver bêbada (penso em Las Vegas), for impotente ou infértil, abandonar o cônjuge ou trair. 

O INFERNO SEM OS OUTROS

O monsenhor, que preside o Pontifício Conselho para a Família, falou por uma hora em italiano, na companhia do cardeal dom Odilo Pedro Scherer, arcebispo de São Paulo.

Na secretaria da Catedral da Sé, com uma estátua da Sagrada Família ao fundo (Maria, José e o menino Jesus), dom Vincenzo compara a sociedade contemporânea com um prédio onde os andares são habitados por várias gerações, mas sem escadas ou elevadores que criem laços entre elas.

E cita o sociólogo polonês Zygmunt Bauman e seu conceito de modernidade líquida para falar sobre o desmanche das relações pessoais. Sem família, diz, o que nos resta é “o inferno”, pois “o inferno é a solidão”.

*Anna Virginia Balloussier é editora-assistente da revista "são paulo"

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