"Vida ao Leo" Por Paulo Lima



Por Paulo Lima (fundador da editora e da revista Trip) para a Isto É

A pessoa da foto já foi baterista de banda punk, dono de boate, traficante, presidiário e uma mulher casada por dez anos. O que sua história pode ensinar sobre preconceitos, medo e ignorância?

Estudiosos da existência costumam evitar a comparação entre sofrimentos humanos. Para psicólogos, filósofos, psiquiatras e outros cientistas, a dor pode assumir gradientes e amplitudes muito desproporcionais aos fatos geradores conhecidos. Mesmo assim, não é difícil encontrar depoimentos de pensadores sérios defendendo que não existe angústia maior do que a que experimenta o indivíduo que se sente aprisionado num corpo “errado”. São as pessoas que se entendem e percebem como homens nascidos por equívoco em corpos femininos ou vice-versa. Em geral, a capacidade para enfrentar a enormidade de preconceitos, desajustes e dramas internos que a situação acarreta costuma ser inversamente proporcional ao tamanho do desconforto existencial.

A pessoa na imagem acima nasceu Lourdes Moreira Sá, num corpo delgado de mulher. Em seus 55 anos de vida, experimentou intensidade e complexidade de sentimentos e situações que pouquíssimos indivíduos teriam condições de viver, ainda que pudessem durar dois séculos sem desencarnar. Desde os 7 anos, na cidade de São Simão, interior de São Paulo, onde viveu sua infância, a menina caçula de sete irmãos já relatava seu sentimento confuso diante da imagem de seu corpo refletida no espelho e daquilo que sentia.

Leo, como se chama hoje, foi baterista de uma banda de respeitado papel na cena do punk rock nacional nos anos 80. Em As Mercenárias, ainda como Lourdes e sem grandes conhecimentos musicais, tocava uma bateria pesada e sentida na banda que ficou conhecida, entre outras coisas, pela formação só de mulheres. Numa década em que boa parte da juventude das grandes cidades mergulhou na cocaína, Leo seguiu a carreira nos dois sentidos. Já na década seguinte conheceu,se apaixonou e casou com o grande amor de sua vida. Gabi era um travesti e até a comunidade GLBT achava a união bizarra na época.

Conseguiram se casar no civil, mas para isso Leo, ainda Lourdes, precisou se vestir de mulher. Vendendo drogas para se sustentar, Leo acabou preso. Cumpriu seis anos em diferentes presídios. Apanhou muito e quase morreu num entrevero com uma líder de xadrez que atendia pelo sugestivo nome de “tia Carioca”.

Depois de pagar cadeia, encontrou um novo caminho para sua vida. Estudou e tornou-se um técnico iluminador de teatro requisitado, tendo merecido, juntamente com um colega, o Prêmio Shell 2012 de iluminação pelo espetáculo “Cabaret Stravaganza”. A arte foi fundamental na reconstrução de sua vida. Com o dinheiro do prêmio, realizou a mastectomia que removeu os seios que pertenciam a Lou. Sua história gerou o enredo de uma peça que está em cartaz em São Paulo: “Lou & Leo”, com Leo em boa atuação no palco, conta não só sua inacreditável história, mas a de milhares de indivíduos que ainda sofrem com a nossa abissal ignorância em relação a tudo aquilo que não nos pareça óbvio. Hoje diretor-fundador da Associação Brasileira de Homens Trans, é ele mesmo quem melhor se define num perfil ainda inédito para a revista “TPM” de outubro: “Eu não precisava marcar que sou um homem trans, poderia passar despercebido tranquilamente, como muitos fazem. Mas minha consciência política não deixa. A minha busca de identidade hoje não é para me encaixar, como eu achava que deveria, mas para desconstruir tudo que eu tinha para buscar alguma coisa que eu possa dizer: sou eu. Não sou homem, não sou mulher, sou um ser humano que está em processo de construção de sua própria identidade.”

Reportagem de Camila Alam 

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