07/12/2013

Luiza Brunet fala de experiência homossexual, dos abortos e da mania de fazer faxina

 
Publicado pelo O Globo
 
Nas últimas semanas, Luiza Brunet dedicou algumas boas horas diárias à limpeza do seu apartamento de 600m² em Ipanema. É até difícil acreditar que esse mulherão, de 51 anos, uma das maiores modelos da história brasileira e hoje empresária bem-sucedida, saiba manejar um rodo e uma vassoura com a mesma habilidade com que fotografava para revistas como “Manchete” e “Desfile” e para a grife Dijon, nos anos 1980.
 
— Imagina! Faço faxina superbem. É uma forma de esvaziar a mente. Alivia a tensão — diz Luiza, que já foi flagrada por paparazzi passando pano na varanda.
 
O motivo da ansiedade que tomou conta da rotina da ex-modelo é o lançamento de sua autobiografia, “Luiza”, da Primeira Pessoa/Sextante, que foi esta semana para as livrarias. Não há sessão de terapia que resolva o desejo de que as pessoas gostem do que está nas 256 páginas da obra.
 
— Já fiz análise por um tempo, mas não me adapto à rotina de ir ao consultório, falar uma hora e ter que marcar para a semana seguinte. Gosto de falar, mas tem que ser tudo na hora.
 
Luiza gosta mesmo de falar — sempre tudo de uma vez. E num livro sobre sua vida não podia ser diferente. Sem medo ou pudor de remexer “num baú que, às vezes, queria deixar quieto”, ela conta com riqueza de detalhes a infância pobre no Mato Grosso, o alcoolismo do pai — que agredia e ameaçava a mãe, com facão em punho, rotineiramente — e as dificuldades da adolescência já no Rio, como babá em casa de família e depois vendedora em loja de sapato no subúrbio.
 
— Todo mundo da minha casa ficou junto comigo para lembrar as histórias. Foram momentos de grande emoção — diz Luiza, que contou com a ajuda e a memória da mãe e das quatro irmãs.
 
A responsável por colocar uma vida inteira no papel foi a jornalista e amiga da família Laura Malin, que assina a autoria do livro. O prefácio ficou por conta do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, de quem Luiza é fã.
 
— Ele é meu sonho de consumo da vida inteira — brinca a empresária, que é filiada ao PSDB, mas diz não ter pretensões políticas.
 
Cinderela de Pilares
 
Se o início da narrativa é marcado por histórias dolorosas, a partir da mudança para o Rio, o leitor começa a reconhecer a Luiza que conquistou o Brasil.
 
Depois de ajudar no sustento da família com o emprego de babá (e ser assediada sexualmente por um vizinho, aos 14 anos) e de vendedora, a gata-borralheira Luiza Botelho da Silva vira princesa Brunet quando encontra o rico Gumercindo Brunet no posto de gasolina onde o pai trabalhava.
 
Casada, saiu de Pilares para um apartamento no Jardim Botânico, com todo o conforto e estabilidade que nunca conhecera em seus 17 anos de vida. O trabalho de modelo veio pelos contatos de “Gugu”, e não demorou para ela despontar como uma das mulheres mais desejadas do país.
 
Cobiçada por homens e mulheres
 
De garota da capa de revistas masculinas (o primeiro nu foi feito com 17 anos) para o posto de modelo exclusiva da Dijon, marca que ditava moda no mercado brasileiro, Luiza Brunet foi, ao lado de Xuxa (com quem ela garante que a rivalidade era apenas estratégia de marketing), “a” mulher a ser cobiçada.
 
— Quando olho fotos antigas, vejo que tinha um corpo perfeito. Achava o máximo fotografar nua. Mas os homens pensavam que era uma forma de mostrar o “corpitcho” para fazer programa — reclama Luiza, que chegou a passar por situações desagradáveis para uma mulher casada, que costumava sair do estúdio direto para os braços do marido. — Entrei em roubadas de ir para um lugar, achar que era trabalho e lá ter um monte de revista “Ele Ela” espalhada.
 
Apesar de não ter nenhuma vergonha dos ensaios sensuais que fez, é do posto na Dijon que mais se orgulha. Sob as asas de Humberto Saad, todo-poderoso da grife, conheceu o mundo, ganhou dinheiro suficiente para mudar a vida da família e teve sua primeira e única experiência homossexual, numa das viagens com outras modelos da marca (“Ela estava na minha cama e me abraçava por trás. Senti seu perfume e, em seguida, seu beijo. Eu me deixei levar”).
 
— Foi uma coisa natural, mais de curiosidade. Falei sobre isso para mostrar que sou uma pessoa curiosa. E em biografia você tem que contar mesmo as coisas que viveu — ela diz, ressaltando que é contra autorização prévia de biografados.
 
Outro ponto polêmico foram os abortos. O primeiro foi feito aos 17 anos, quando era casada com “Gugu”; o segundo, oito meses depois de nascer Antônio, hoje com 15 anos, seu segundo filho do casamento com Armando Fernandez, que durou de 1985 até 2008 — a mais velha é a modelo Yasmin Brunet, de 25 anos (hoje, Luiza namora o investidor Lírio Parisotto).
 
— O aborto foi uma opção minha. Tinha plena noção do que tava acontecendo, era jovem, mas muito madura — diz Luiza, explicando que se submeteu ao procedimento porque não queria atrapalhar a carreira. — Quando fiz não passei por nenhum trauma, isso só veio depois. É como se algo fosse arrancado de você, e, no caso, fui eu mesma que arranquei de mim — filosofa, sem entrar muito em detalhes sobre a segunda intervenção, dizendo apenas que teve medo de um parto tão complicado como tinha sido o de Antônio, que “nasceu azul, sem respirar”.
 
Se falar desses sofrimentos é pesado, o mesmo não acontece quando ela conta as amarguras vividas nos estúdios de televisão. Com maturidade, Luiza acha graça do tempo que aceitava fazer novela, era invariavelmente execrada pela crítica e sofria com a obrigação de ir às gravações.
 
— Visivelmente, eu sabia que estava péssima, mas tinha que continuar fazendo. Era terrível — lembra. Quando recebeu o convite para participar do “Correio Feminino”, quadro do Fantástico dirigido por Luiz Fernando Carvalho e baseado na obra de Clarice Lispector, ela se surpreendeu, mas aceitou sem pestanejar.
 
— Quando ele falou que não tinha voz, pensei: “Menos mal, talvez” — gargalha Luiza, provando, mais uma vez, que não tem medo de desafios.
 
 

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