Daniela Mercury: "Hoje, sou mais gay do que nunca"


POR BRUNO SEGADILHA para a Revista QUEM
FOTO: MARCIA TAVARES/ED. GLOBO

Oito meses depois de assumir publicamente sua relação com a jornalista Malu Verçosa, a cantora Daniela Mercury lança o livro 'Daniela e Malu – Uma História de Amor', em que narra os bastidores do namoro. A QUEM, ela conta como essa atitude mudou sua vida e sua carreira.

Sexta-feira de dezembro em São Paulo. Daniela Mercury recebe QUEM em um hotel de luxo da cidade para falar sobre o livro Daniela & Malu – Uma História de Amor, que ela acaba de lançar com a jornalista Malu Verçosa, com quem assumiu publicamente o romance em abril. Carinhosa, a cantora de 48 anos beija Malu sem se intimidar com os presentes. “A gente fala em visibilidade social, é importante o beijo, a demonstração de afeto”, justifica ela, que, em outubro, oficializou o casamento com a mulher com uma grande festa, em Salvador.

Durante a conversa, Daniela relembrou o início da relação, falou corajosamente sobre sua sexualidade e contou como as pessoas mais próximas lidaram com a revelação. “A minha família é muito tranquila”, diz a eterna musa do axé, que atualmente vive na Bahia com Malu e três filhas – Márcia, 15 anos, Analice, 12, e Ana Isabel, 4 –, que ela adotou há dois anos e meio com Marco Scabia, de quem se separou oficialmente em dezembro do ano passado. Além das meninas, Daniela é mãe de Gabriel, 28, e Giovana, 27, de seu primeiro casamento, com o engenheiro Zalther Povoas.

QUEM: Você está lançando um livro em que conta seu romance com Malu. Hoje, oito meses depois, acha que valeu a pena ter saído do armário, quando publicou imagem de vocês duas no Instagram?
Daniela Mercury: Nós construímos uma história, transformamos atitudes. Estamos trazendo à tona a aceitação dos casais do mesmo sexo, o que já devia ser natural. Estamos no século 21! Vivemos numa sociedade tão urbana, com 65 anos de declaração dos direitos humanos, e ainda tem gente com ideias tão antigas... A gente se surpreendeu que o Instagram tenha sido tão importante politicamente.

 QUEM: Foi uma atitude política, então?
DM: Nós chegamos no olho do furacão, na luta contra um deputado, o Marco Feliciano, que estava agredindo as pessoas, incitando o ódio. O país estava indignado. Coincidentemente, eu e Malu estávamos vivendo nosso momento, em Paris, onde nos casamos... Foi uma atitude política, mas também fizemos por nós. Sempre fui muito direta.

QUEM: Antes de publicar a imagem no Instagram, tinha ideia de como isso ia repercutir?
DM: Sabia que ia ser importante. Ao mesmo tempo, não tinha ideia se eu ia ser mais uma artista falando do seu amor ou se ia fazer uma revolução maior, que foi o que aconteceu. Quis usar as palavras “esposa” e “união” para mostrar que era sério. Eu, como artista conhecida, tinha que fazer uma comunicação clara para que não ficasse sujeita a interpretações dúbias nem fofocas.

QUEM: A imprensa estava especulando muito?
DM: Houve uma especulação em Salvador, uma notícia mentirosa de que nós havíamos sido flagradas e que havia acontecido uma traição. A Malu, como jornalista, ficou chocada. Ela estava acostumada a ficar do outro lado, era editora-chefe havia 20 anos, uma pessoa séria, ética...

QUEM: Como começou o romance de vocês, então?
DM: Foi em dezembro do ano passado. Eu estava separada do Marco havia seis meses, mas não tinha comunicado publicamente a separação. A gente já se conhecia e era amiga. Fui eu que comecei a pensar muito nela, a sonhar muito com ela e tomei a iniciativa de procurá-la. Eu não achava que estava apaixonada, achava que o que estava sentindo era pouco para considerar paixão. Estava triste, tinha me separado, estava começando minha vida na Bahia de novo, arrumando a casa e fazendo um disco, resgatando minha felicidade. Foi um momento de transformação.

QUEM: Foi um alívio se assumir?
DM: Sim, mas, ao mesmo tempo, sabia que seria uma confusão enorme para mim. É horrível ficar na iminência de ser descoberta, não porque era uma mulher, mas porque era um namoro novo, a gente fica pensando a que horas a imprensa vai descobrir...

QUEM: Teve medo de que isso prejudicasse sua carreira?
DM: Tive, e tive dúvidas. E ainda não sei o que aconteceu. Espero que isso não atrapalhe. Afinal, o que importa a sexualidade das pessoas para a vida do outro? Ninguém tem nada a ver com a vida da outra pessoa.

QUEM: Recebeu muitas manifestações negativas?
DM: Eventualmente, vejo uma manifestação ou outra desagradável. Outro dia, uma mulher disse que eu estava influenciando os jovens a serem gays. Respondi que ninguém influencia a sexualidade de outra pessoa. Estou apenas reiterando o direito de a gente ser quem é. Sofrer preconceito é como ser enterrado vivo, a sociedade vai cobrindo, se negando a enxergar o que está ali. Por isso, a gente fala em visibilidade social, é importante o beijo, a demonstração de afeto.

 QUEM: Como sua família recebeu a notícia?
DM: A minha família é muito tranquila. Minha mãe é assistente social, mulher de direitos humanos, meu pai, apesar de ser conservador, ministro da eucaristia, aceitou bem. A religião cria essa coisa mais heterossexual, então, para ele, era novidade, mas ele sempre disse que eu trago o novo para dentro de casa. No meu casamento com Malu, o depoimento de minha irmã, Cristiana, me fez chorar: ela disse que tinha um orgulho enorme de mim. 

QUEM: Por falar em família, você adotou, há dois anos e meio, três meninas. Como tem sido a vida de vocês, agora que se casou com Malu?
DM: Elas chamam a Malu de mãe e são bem apegadas. A gente fala mamãe Dandan e mamãe Malu. Outro dia, fiquei com ciúme. Liguei para casa e a menor, que tem 4 anos, perguntou: “Cadê mamãe Malu?”. Eu disse: “Termine de falar comigo!”. As meninas precisavam de amor e eu também, queria família, queria dengo, adoro quando elas deitam no meu colo, quando me fazem carinho. Elas ficam no meio de duas leoas. É muita mulher, muita personalidade, todo mundo dengoso, uma delícia.

QUEM: Por que decidiu adotar?
DM: Eu sempre quis, desde menina. Tanto que só tive dois filhos biológicos e sabia que não teria mais. Cheguei a cogitar ficar grávida quando eles saíram de casa, mas não quis. Quase adotei, há uns 14 anos, uma menina de 5 anos. Não deu certo porque ela foi adotada por outro casal antes. Ela se chamava Ana Luísa. Quando a vida acalmou um pouco, eu fui em busca de novos filhos. Foi aquela coisa do ninho vazio, quando Giovana e Gabriel casaram e saíram de casa. Sou leonina, gosto de casa cheia.

QUEM: Que diferenças vê na relação entre duas mulheres?
DM: Falo do que tenho com Malu, a gente faz tudo junto em casa. Sempre fui pós-feminista, nunca fiz coisa para marido, não. Existem facilidades: dividir o mesmo armário, gostar realmente das mesmas coisas, remexer em questões profundas, é uma questão feminina mesmo.

QUEM: Hoje, você se definiria como gay ou bissexual?
DM: Sou Daniela Mercury de Almeida Verçosa, mulher de alma livre e aberta, tenho sexualidade múltipla. Hoje, sou mais gay do que nunca, porque estou casada, apaixonada e quero viver por toda a minha vida com Malu.

QUEM: Antes você já tinha saído com mulheres?
DM: Não gostaria de falar de antes, estamos vivendo uma fase tão amorosa! É um momento de celebrar nosso amor e estamos dividindo isso com o mundo. É algo que nos expõe o tempo inteiro e não é simples, é um ato de amor contínuo. A minha sexualidade é um assunto que só estou abordando pela questão dos direitos humanos.

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