31/01/2014

Por Jean Wyllys: Amor à coerência! Faço desse texto uma campanha: #BeijaFelix

 
Publicado pelo iG
Artigo de Jean Wyllys
 
(Para não dizer que não falei do beijo gay de Félix)
 
Para o bem das lésbicas e dos gays, os autores de telenovela, principalmente os da tevê Globo, há muito vêm se esforçando para mostrar, em suas tramas, novas representações da homossexualidade – o que, ao contrário do que muitos (inclusive ativistas) pensam, contribui bastante para dar visibilidade aos modos de vida lésbicas e gays; questionar preconceitos anti-homossexuais ainda profundamente arraigados em muita gente; derrubar estereótipos negativos e para mostrar, à audiência sempre heterogênea, que homossexuais, além de sujeitos de direitos, são pessoas tão diversas entre si quanto as heterossexuais.
 
É impossível não reconhecer que os personagens de Aguinaldo Silva, Gilberto Braga, Sílvio de Abreu, Glória Perez, Manoel Carlos e, mais recentemente, João Emanuel Carneiro e Walcyr Carrasco contribuíram ora para elevar a autoestima de gays e lésbicas, ora para mostrá-los tão diferentes e humanos quanto qualquer outra pessoa.
 
Contudo, a telenovela do horário nobre ainda nos deve a representação do beijo gay. Eu digo “nos deve” não apenas porque faço parte da comunidade LGBT – parcela significativa da audiência da teledramaturgia brasileira e principal responsável pelo sucesso desta nas redes sociais – mas porque estou me referindo à audiência como um todo: todos nós merecemos a chance de abrir nossos horizontes existenciais; de ampliar nossos repertórios culturais, afinal, o povo sabe o que quer, mas o povo também quer o que não sabe! E as emissoras de tevê têm a obrigação de honrar seu compromisso com a educação informal das pessoas e é com a representação da diversidade da vida, já que têm a nossa concessão para explorar comercialmente o sinal e também algumas isenções fiscais.
 
A novela do horário nobre nos deve um beijo gay e apaixonado, ou seja, cheio de amor… De todas as nossas invenções, o amor é a melhor delas. O amor é fogo. O amor é jogo. O amor está em muitos lugares: quartos de hotéis, noites enluaradas, bares vazios, campos de flores, cidades em movimento, e desertos: o amor tem muitos domínios e, destes, nos espreita. O amor, enfim, é ambivalente: tem muitas fases (e faces). O amor, portanto, não quer ser clichê. E o amor não é nem quer ser apenas heterossexual!
 
Walcyr Carrasco batizou sua primeira novela no horário nobre de “Amor à vida”. Portanto este sentimento multi-facetado e complexo e seus objetos são – ou, pelo menos, deveriam ser – o mote do folhetim (e é claro que uma trama que tem o amor como fio condutor não pode prescindir de seu reverso da medalha: o ódio ou o desamor). Carrasco escolheu o amor como meio de redenção de Félix, o sujeito homossexual malvado e duro (porém cheio de humor-bicha) por ser objeto do desamor do pai homofóbico. Ora, numa trama em que o amor por um namorado ético e solidário redime um homossexual vilão, o beijo entre eles não pode faltar! Se faltar, sobrará incoerência!
 
A teledramaturgia já avançou o suficiente para que o beijo gay seja exibido. As cenas de afeto entre Félix e Nico já são uma vitória, é certo, mas falta o beijo. É preciso exibi-lo no último capítulo. Do contrário, a oportunidade cairá de maduro e a Globo terá perdido o trem da história. A comunidade LGBT, ante os avanços das séries e do cinema americanos, não terá paciência para ser mais uma vez manipulada com a promessa de um beijo que, ao fim e ao cabo, não será cumprida, mas que rende dividendos à emissora. Quem representa, sem problemas, os sentimentos e ações mais vis e torpes dos humanos se recusa a representar um ato de amor por que motivo?
 
Por isso, faço, desse texto, também uma campanha: #BeijaFelix . Se você concorda com ela, passe-a adiante!
 
 

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