Quem tem medo do beijo gay?

 
Publicado pelo PSTU
Artigo de Lucas Brito
 
É característico de todas as novelas, em especial as da Globo, lançar perguntas polêmicas ao público, sobretudo nos capítulos finais. Durante muitos anos essas polêmicas giraram em torno de descobrir quem seriam os assassinos misteriosos dos folhetins. Isso foi assim em “O Astro” (77-78), primeira novela que conseguiu emplacar o “quem matou?”. Depois dela, várias outras novelas usaram do mesmo artifício para buscar a audiência. Em 1988, muitos brasileiros se perguntavam: “quem matou Odete Roitman?”. Já em 1995 foi a vez de descobrir quem dirigia o Opala preto na novela “A Próxima Vítima”. Mais a frente, em “A Indomada”, a pergunta era: “quem é o cadeirudo?”. Esse é o sonho de todo escritor de novelas, empalmar uma polêmica na sociedade e, assim, alcançar índices recordes de audiência.
 
Hoje a novela é, sem nenhuma dúvida, uma grande fonte de intensos e apaixonados debates, afinal, partimos da compreensão de que a televisão é um instrumento de manipulação do capitalismo. Levamos em consideração a gigantesca audiência que as novelas atingem, mais que isso, a repercussão internacional, afinal, a programação da Globo é transmitida para mais de 100 países. Em “Amor à Vida” não é diferente. A novela é de massas! O assunto está na fila do supermercado, nos ônibus e metrôs lotados, nas salas de aula e entre grupos de amigos. Mas para contrariar o história de grandes suspenses da Globo, hoje a audiência não discute qual foi o personagem que cometeu tal assassinato, ou qual vai ser a reação da vilã ao ser presa. Hoje o Brasil se pergunta: “vai ter ou não o tal do beijo gay?”.
 
Já houve outros personagens LGBT em novelas da emissora. Muitos conseguiram grande destaque e agradaram o público. Outros sofreram enorme rejeição, como no caso do casal de lésbicas em “Torre de Babel” (1998), interpretadas por Christiane Torloni e Silvia Pfeiffer. O casal foi alvo de tantas críticas de setores mais conservadores e lesbofóbicos da sociedade que a solução apresentada pelos escritores não poderia ter sido pior. Resolveram matar as duas durante a explosão de um shopping. Assim, além de serem retiradas do ar e mortas, elas morreram queimadas, como se assim suas almas pudesses ser perdoadas e a novela seguisse livre do pecado.
 
Ao todo foram mais de 10 casais LGBT em novelas da Globo, desde 1988. Entretanto, nenhum deles representou um beijo. Ao longo de todas essas novelas, quantas vezes apareceram cenas de beijos, sexo e cenas cotidianas de afeto e desejo entre casais heterossexuais? Milhares.
 
Está claro que há uma forma de discriminação contra pessoas LGBT. Ao longo de todas essas novelas, os casais e personagens LGBT, no geral, cumpriram papeis de humor auxiliar ao núcleo central da trama. Não tiveram vida sexual ou afetiva e, quando casais, além de não possuírem cenas de beijos e muito menos de sexo, esses apresentavam um perfil dominante (brancos, malhados e com nenhum traço “afeminado” ou “masculinizado”).
 
O casal mais próximo de representar um beijo gay foi o vivido em “América”. O beijo foi prometido para o último capítulo da novela e mobilizou o país, virando até notícia internacional. A autora Glória Perez escreveu e os atores chegaram a gravar a cena, mas ela nunca foi ao ar devido à força que os setores conservadores impuseram aos meios de comunicação.
 
Muito diferente do que ocorre no cinema, tradicionalmente mais transgressor do que a televisão. Esse já exibia beijo gay na década de 20. O filme "Wings" (Asas), ganhador do Oscar como melhor filme em 1927, mostrou um beijo tímido entre dois pilotos interpretados pelos atores Buddy Rogers e Richard Arlen. Contudo, em “Amor e Revolução”,novela transmitida pela SBT, foi transmitido um beijo lésbico
 
A verdade é que, ao impedir a exibição de um simples beijo, a Globo submete a sua audiência a todo o discurso de opressão a pessoas LGBT. Quem tem medo do beijo gay?
 
Félix e Niko, os namoradinhos do Brasil?
 
O folhetim “Amor à Vida” já pode ser considerado uma novela original para o tema LGBT. Como dito anteriormente, nem de longe é a primeira novela a desenvolver a temática, entretanto, resguarda elementos distintos das demais. Félix, personagem interpretado (inclusive, muito bem) por Mateus Solano começa sendo um homem rico, gay, que mantém um casamento hétero de fachada, ambicioso e que não tem qualquer tipo de código moral quando o assunto é disputar a presidência do hospital da família. Para isso, o personagem traça uma saga, por vezes violenta, contra todos que poderiam estar em seu caminho.
 
Na trama, a resignação de Félix só vem depois que o mesmo assume sua orientação sexual. A partir daí, mesmo sem assumir para si o rótulo de “personagem bonzinho” do folhetim, começa a reparar todos os seus danos. Diferente de outras novelas, a combinação entre boas ações – dignas de admiração, e o personagem, não são fruto de uma possível fuga da sexualidade, pelo contrário. Félix vive uma inflexão no seu papel ao passar a vender “Hót-dog”, usando uma cueca vermelha e flores na cabeça, em plena Avenida 25 de Março.
 
Como explicar isso? A Globo, mesma emissora que matou as lésbicas queimadas vivas, que impediu o beijo entre Júnior e Zeca e fez com que Clara e Rafaela passassem toda a novela chorando, é capaz de apresentar um personagem gay acolhido pela sociedade, inclusive pelas pessoas LGBT, organizadas em movimentos ou não? Sim, mas esse não é um feito da emissora, nem mesmo do escritor da novela. Félix é fruto de milhares de pessoas que lutam cotidianamente contra a opressão a LGBT e que travam as mais árduas batalhas pela consciência das massas. Seria possível a existência de Félix antes das vitoriosas lutas contra Feliciano e o seu projeto de “Cura Gay”?. Seria possível toda essa repercussão antes dos beijaços realizados contra a opressão LGBT nas escolas e universidades desenvolvidos pela ANEL?
 
Para nós militantes do PSTU, a única explicação para que, cada vez mais, pessoas se assumam como LGBT é a luta. É a luta contra a opressão que torna possível rompermos com o armário. A cada post mais politizado nas redes sociais, cada discussão mais acalorada no metrô e a cada vez que uma bandeira do orgulho LGBT é levantada nas ruas, um de nós se sente seguro em dizer: “sim! sou gay, e daí?”
 
Apesar das distorções e elementos regressivos em Félix, como a forma machista com que tratou mulheres ao longo da novela ou seu papel social, como herdeiro de uma grande fortuna, apesar de politicamente atrasado em vários aspectos, Félix merece um beijo.
 
O beijo e a homofobia...
 
O Brasil é o país que lidera o ranking de assassinatos a LGBT. Em 2012 foram 338; em 2013 a marca continuou acima de 300. E agora em 2014 já são mais de 30 LGBT´s assassinados, e nem acabou o mês de janeiro ainda. Essa é a realidade de uma ampla parcela da sociedade que não tem qualquer política de segurança pública voltada para si, que diariamente é dizimada por assassinos homofóbicos. Somos, antes mesmo de termos consciência da nossa orientação sexual, alvos de opressão, seja nas escolas, esquinas escuras das pequenas cidades ou largas avenidas dos grandes centros urbanos.
 
Enquanto isso, Dilma mantém seu silêncio. O Congresso Nacional segue incapaz de avançar no projeto de criminalização da homofobia e a bancada homofóbica do fundamentalismo religioso segue se sentindo à vontade para transformar a tribuna do Congresso em púlpito da opressão. Está na hora de criminalizar a homofobia. Já é hora de Dilma revogar o veto ao “Projeto Escola Sem Homofobia”, é passada a hora de garantir a despatologização das pessoas trans e de garantir seu direito ao nome civil.
 
Caso ocorra o beijo, certamente, é uma grande vitória para o país de conjunto, mas principalmente de quem esteve nas lutas no ano passado. Afinal, brigamos contra a famigerada “cura gay”, contra o homofóbico Feliciano e insistimos na criminalização da homofobia como parte da luta contra o aumento abusivo das tarifas de transporte. O fenômeno “Félix, a bicha má” só foi possível porque lutamos muito para politizar a pauta da luta contra a opressão aos LGBT´s. Parte considerável das jornadas de junho gritava “Fora Feliciano”. Se não ocorrer beijo, teremos mais motivos para seguir levantando a bandeira do arco–íris e dizendo que, infelizmente, quem manda no país é uma elite atrasada, conservadora e herdeira da bancada fundamentalista e religiosa.
 
- Por um beijo gay na novela!
- Abaixo toda forma de opressão!
- Aprovação Imediata do PLC 122!
 

Comentários