Longas brasileiros em Berlim levam protagonistas gays com sensibilidade e naturalidade

 
Publicado pelo Sul21
Por Bruna Amaral, de Berlim
 
Sete filmes brasileiros foram selecionados para o Festival de Cinema de Berlim – Berlinale – deste ano. Deles, dois chamaram a atenção ao, de maneira extremamente natural e sensível, mostrarem a relação amorosa entre dois homens. Isso poucas semanas após o Brasil ter visto o primeiro beijo gay em uma novela do horário nobre. Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, do paulista Daniel Ribeiro, centra sua trama nas descobertas de um jovem gay e cego. Já Praia do Futuro, do cearense Karim Aïnouz, traz Wagner Moura como um salva-vidas que vai se reinventar em Berlim inicialmente movido pela paixão por um alemão.
 
Os dois filmes brasileiros possuem temáticas completamente distintas, mas mostram seus personagens de forma completamente livre de estereótipos. O que talvez venha a representar mais um pequeno passo contra o preconceito. Hoje Eu Quero Voltar Sozinho foi exibido na mostra Panorama e foca na relação entre Leo (Ghilherme Lobo) e Gabriel (Fábio Audi) para relembrar o espectador de maneira doce e inocente que o amor é uma questão de sentimento, não de visão. O desenrolar da história bota uma pulga atrás da orelha do espectador: afinal, de onde vem a nossa orientação sexual?
 
“Sempre me perguntei como uma pessoa cega sabe se está atraída por um homem ou uma mulher. Porque, no fim das contas, a gente constrói o amor muito baseado no que vê”, afirmou o diretor depois de uma sessão de estreia lotada e seguida de calorosos aplausos na última segunda-feira.
 
 
Ator Wagner Moura: “A melhor forma é não tratar o fato do filme ter personagens gays como uma coisa extraordinária. Pra mim, isso é uma coisa natural” | Foto Berlinale/Divulgação
 
Já na co-produção brasileira e alemã de Aïnouz, a relação homoafetiva não é o centro da história, mas é fundamental para o desenvolver da transformação de Donato (Moura) de quase super-herói como salva-vidas na Praia do Futuro em Fortaleza, em ser humano vulnerável que precisou ir para longe para se reconstruir. O longa, que concorre ao Urso de Ouro na competição oficial, traz cenas de sexo e nu frontal com Moura e o ator alemão Clemens Schick.
 
Não é a primeira vez que o cinema brasileiro tem casais gays na trama. O próprio diretor cearense já mostrou cenas de sexo entre homens, há mais de dez anos, com o ator Lázaro Ramos em Madame Satã. Em entrevista, Moura, que foi intérprete do Capitão Nascimento (em Tropa de Elite 1 e 2), afirmou que, apesar de levantar bandeiras não ser a ideia principal do filme, o impacto pode ser, sim, positivo.
“Novela e cinema são dois gêneros diferentes, mas com certeza teve sua importância mostrar na televisão e no horário nobre dois homens se beijando. O Brasil não tem lei contra homossexual como na Rússia, é o país que tem a maior parada gay do mundo, mas talvez também seja um dos lugares em que mais homossexuais são assassinados. A homofobia é forte no Brasil. Então, se o filme ajudar a combater isso de alguma forma, eu acho bom”, afirmou o ator.
 
 
O diretor de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, com lançamento no Brasil previsto para 28 de março, acredita, entretanto, que uma das maneiras de conscientizar contra a homofobia é mostrar aos jovens que dificuldades existem, assim como os finais felizes. “Não queria um filme em que os jovens saíssem do cinema achando que a vida deles é uma desgraça. Já demos passos importantes, não podemos ser pessimistas”, pondera o paulista.
 
Hoje Eu Quero Voltar Sozinho foi premiado no Berlinale como Melhor Filme no prêmio da Federação Internacional dos críticos de cinema – FIPRESCI, na sua categoria, levou para casa também o Teddy Award, troféu do festival para filmes com temática LGBT, e foi o segundo mais votado na avaliação do público para melhor filme da Mostra Panorama.
 
Com final feliz ou nem tanto, o protagonista de Praia do Futuro, que tem chegada aos cinemas brasileiros em 1º de maio, sabe que seu personagem no longa deve dar o que falar assim que o filme chegar às salas do Brasil. O que o ator encara com naturalidade: “A melhor forma é não tratar o fato do filme ter dois personagens gays como uma coisa extraordinária. Pra mim, isso é uma coisa natural e não tem nem porque virar assunto. Um filme em que dois homens podem se amar não é um problema, é muito bom”, finalizou Moura.
 
Trailer Praia do Futuro:
 
 
Trailer Hoje eu Quero Voltar Sozinho:
 
 

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