01/02/2014

"Quebra-se um tabu" - Por Vitor Angelo

 
Publicado pela Folha
Por Vitor Angelo
 
Na noite de sexta-feira, 31 de janeiro, finalmente aconteceu o primeiro beijo entre dois homens em uma novela do horário nobre neste pais localizado ao sul do linha do Equador, que tanto diz que não existe pecado, mas existe um moralismo de proporções continentais.
 
“Amor à Vida” entra para a história da teledramaturgia como o primeiro folhetim a mostrar a afetividade de um casal homossexual, além das palavras, em seu símbolo maior, o beijo na boca. Não seria o primeiro beijo homossexual. Entre mulheres já tinha acontecido na década de 60 e na novela “Amor e Revolução”, no SBT, em 2011.
 
Mas a relação de afetividade entre duas mulheres, apesar da enorme importância de ser evidenciada no beijo da novela da emissora de Silvio Santos, ainda constitui para o imaginário hétero masculino um apêndice de suas fantasias, é permitido – até certo ponto.
 
A cena do beijo entre Félix (Mateus Solano) e Niko (Thiago Fragoso) foi muito bem construída, orgânica, típica de quando apaixonados se despedem. E sua importância é o recado dado que o amor não tem orientação sexual.
 
É uma cena rápida quase casual mas impressionou a quantidade de prints do beijo tirados da TV e espalhados pelas redes sociais. Até porque ela de fundo não tem nada de casual. As negativas da TV Globo em ter um beijo entre dois homens vem desde América, em 2005, e o censurado beijo entre Bruno Gagliasso e Erom Cordeiro. Quebra-se um tabu.
 
Mas mais importante que o beijo foi a cena seguinte, o final da novela com Félix na praia acompanhado de seu pai, César (Antonio Fagundes), que nunca aceitou sua homossexualidade e sempre o desprezou por causa disto. Com o discurso que até aceitava gays, mas não seu filho”, César é o retrato da homofobia velada que tanto se vive no Brasil.
 
 
A cena evoca o filme “Morte em Veneza“ de Luchino Visconti, de 1971. A história de um professor homossexual maduro que se apaixona por um jovem e acaba morrendo de cólera na praia. Temos na trama de Walcyr Carrasco o mesmo Adagietto da Sinfonia nº 5 de Mahler e um figurino muito semelhante ao do professor interpretado por Dick Bogarde, com o chapéu panamá e os óculos escuros. Eles são os mesmos usados por César no momento que diz , finalmente, que ama o filho. Só que diferente do filme quem morre no final é a homofobia. Recado dado!
 
 
 

2 comentários:

Sebastião Ribeiro disse...

Mahler... :D

Homem, Homossexual e Pai disse...

Perfeito! a analogia com MORTE EM VENEZA me passou totalmente despercebdia! parabens pela analise! abs

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