"O poder do pink money" Por Patrícia Alves

Por Patrícia ALVES para a revista Isto É Dinheiro
 
 

Com US$ 3 trilhões por ano para gastar e investir, o público homossexual vira alvo de gestoras de recursos. Entenda esse fenômeno

Eles movimentam estimados US$ 3 trilhões por ano ao redor do mundo. Gostam de viajar, adoram uma festa, não abrem mão de comer bem e de se vestir melhor ainda, e têm dinheiro para isso. Pesquisas apontam que o público homossexual gasta 30% a mais do que os heterossexuais e o seu poder de consumo, o chamado pink money, é resultado de um ciclo de vida diferente. “Sem filhos em sua maioria, os casais homossexuais têm sua renda revertida para cultura, lazer e turismo”, disse à DINHEIRO o inglês Paul Thompson, fundador da LGBT Capital. Com sedes em Londres e Hong Kong, a companhia é especializada em administração de ativos e em consultoria financeira e empresarial dirigida à comunidade de gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros.
 
Fundada em 2010, e atualmente com US$ 350 milhões em ativos sob gestão, a gestora viu uma grande oportunidade nesse público, que reúne 400 milhões de pessoas e tem poder aquisitivo de US$ 750 bilhões somente nos EUA (leia quadro). “Mesmo com rendimentos acima da média, a comunidade LGBT ainda não planeja o futuro corretamente, embora já tenha começado a sentir essa necessidade, principalmente no que diz respeito à aposentadoria e à proteção ao parceiro”, afirma Thompson. “Além disso, muitos desses consumidores estão de olho em investimentos, principalmente no mercado imobiliário, em busca da segunda residência ou da casa dos sonhos para a aposentadoria.” Segundo Thompson, apesar de os direitos de casais do mesmo sexo serem um assunto desassombrado em boa parte do mundo, a chamada filosofia “gay friendly” não chegou às finanças.
 
Muitas pessoas ainda não se sentem confortáveis em falar abertamente sobre sua sexualidade ao gerente do banco, por exemplo. Por isso, eles podem deixar de lado pormenores importantes do planejamento financeiro. “Detalhar a vida financeira para alguém já não é fácil, e quando envolve sexualidade fica ainda mais complicado”, diz o especialista. “A proposta da gestora é tornar as tomadas de decisões mais simples e naturais, onde todos falem a mesma língua”, afirma Thompson. No Exterior, diversas empresas especializadas em serviços financeiros têm prestado mais atenção a esse público. Instituições como Wells Fargo, Bank of America Merrill Lynch, Morgan Stanley Smith Barney e UBS lançaram divisões para atender exclusivamente os clientes LGBT ou têm investido em treinamento e certificações de seus assessores para lidar com as questões financeiras típicas de casais do mesmo sexo.

No Brasil, de acordo com as estatísticas, esse público é formado por cerca de 18 milhões de pessoas, com renda média de R$ 3.200. Pertencentes, em sua maioria, às classes A e B, eles movimentam cerca de R$ 150 bilhões por ano no País, segundo a consultoria InSearch Tendências e Estudos de Mercado. A Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, programada para o domingo 2, é um exemplo do poder de consumo desse público. As estimativas do setor de turismo avaliam que quatro milhões de pessoas participaram do evento em 2012. Apenas durante a festa, o gasto médio per capita girou em torno de R$ 182,10. De acordo com o Observatório do Turismo, núcleo de pesquisas da Secretaria Municipal de Turismo de São Paulo, cada turista deixa, em média, R$ 1.200 na cidade.
 
 
Apesar dos números pujantes, no Brasil ainda não existe uma empresa financeira voltada exclusivamente para esse público. Em 2005, a gestora gaúcha Sparta Investimentos, de Porto Alegre, em parceria com a Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, tentou lançar dois clubes de investimentos voltados para esse público. Segundo Zulmir Tres, sócio da gestora, na época era comum falar em investimentos para mulheres, para jovens, e, a partir daí, surgiu a ideia de abrir espaço para o dinheiro rosa. “É um público que preza pelo atendimento personalizado e que tem um alto poder aquisitivo”, afirma. No entanto, a ideia não vingou. “A cultura de investimentos ainda não fazia parte dos planos desses consumidores, que, na época, estavam muito focados no consumo imediato”, diz Tres.
 
 
Essa é uma situação que o empresário paulista Douglas Drumond, 42 anos, lamenta. Proprietário do Chilli Pepper Single Hotel, o primeiro hotel da América Latina voltado exclusivamente para o público masculino, Drumond vê com bons olhos a segmentação no setor financeiro. “Os investimentos são iguais para todos, mas o sentimento de ser bem atendido e compreendido faz toda a diferença”, diz ele. O empresário afirma ter tido algumas experiências ruins com bancos nacionais na hora de abrir a conta de seu hotel. “Um banco onde eu era cliente como pessoa física não aceitou abrir a conta da minha empresa simplesmente por estar especificado que se tratava de uma empresa gay”, diz.

Drumond, que investiu R$ 8,5 milhões no empreendimento paulista lançado em abril de 2012, tem a intenção de levar o modelo para outros Estados brasileiros. Para isso, enquanto aguarda a concretização de seus projetos, tem deixado seu dinheiro em aplicações conservadoras, como CDBs e outras atreladas à taxa básica de juro, a Selic. “Se houvesse uma gestora que me assessorasse e entendesse meus interesses, talvez eu arriscasse mais”, diz. É em clientes desse tipo que a LGBT Capital está de olho. “O mercado consumidor gay no Brasil é muito dinâmico e está em constante desenvolvimento”, afirma Thompson. “Avaliamos como um mercado muito interessante e no qual temos interesse em investir no futuro.”

 

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