25/03/2014

Opinião: Porque o ‘novo casal gay’ das nove não me convence

 
Publicado pelo Marianíssima
 
Depois da avalanche Félix em “Amor à Vida”, fiquei feliz em saber que teríamos já na novela seguinte um núcleo que levaria mais uma vez a homoafetividade para dentro da casa de milhões de pessoas. Estou me esforçando, portanto, para ser simpática ao casal Marina e Clara, as personagens interpretadas por Tainá Müller e Giovanna Antonelli, respectivamente, na nova novela de Manoel Carlos, “Em Família”. Mas, tá difícil.
 
Confesso que a dificuldade começou antes mesmo da novela, quando assisti a uma entrevista da Giovanna Antonelli no ‘Encontro com Fátima Bernardes’ sobre os desafios da nova personagem. Questionada se seria protagonista do primeiro beijo lésbico do horário nobre global, ela disse: “Gente, beijo é o de menos. É o detalhe. Meu desafio como atriz é contar uma história de amor, que as pessoas não olhem mais se é homem com homem ou mulher com mulher”.
 
Pera lá! Detalhe? Em que universo – mesmo ficcional – uma história de duas pessoas que se relacionam amorosamente pode ser contada sem um bom beijo na boca? Em que mundo ela vive? E que bom seria se nossa sociedade já fosse madura o suficiente para entender uma história de amor sem olhar para o gênero do casal. Em todo o mundo – na ficção ou não – é muito lento o processo para que isso deixe de ser exatamente o que as pessoas colocam a lupa.
 
Enfim! Respirei fundo e contei até 10, mas minha mente já foi invadida pelos possíveis equívocos na preparação e construção da personagem. Porque se a atriz que vai interpretá-la fala de maneira tão rasa a respeito da normalidade de um beijo entre duas pessoas que se amam, ela simplesmente não ‘captou’ a coisa toda. E isso ficaria evidente na história que propõe contar. Daniela Mercury – um exagero necessário sobre o qual escreverei em breve – estava no mesmo programa e acabou conseguindo me distrair propondo um beijo técnico entre a atriz e a apresentadora do programa.
 
Deixei passar e veio a novela. Dito e feito. Texto risível, interpretações e direção equivocadas só confirmaram o que suspeitei desde o princípio. A primeira fragilidade está nas atrizes. Não há química entre elas. Me desculpem. Não há! Ou elas tiveram um azar tremendo de virem depois de Félix e Nico (e eu nem acho o Thiago Fragoso tão ator quanto Mateus Solano, longe disso), em que a expressividade na troca de olhares, nos abraços e toques foi tão evidente que me arrebatou na primeira sugestão de que eles se aproximariam. A maneira que se envolvem e os diálogos que travam não são possíveis para duas mulheres maduras, com a vida que ambas já parecem ter tido na novela. E, claro, ainda tem a trilha sonora e caras e bocas manjadas saídas diretamente dos filmes pornôs da Erika Lust – aqueles ‘feitos para mulher’. Sem falar daquele constante ‘olhar infinito’. Um saco!
 
Sei que deve ter, mas fica difícil acreditar que a equipe da novela tenha em seu time de pesquisa e roteiro alguma mulher homossexual. As duas me parecem atender, de maneira sutil, ao fetiche masculino das duas mulheres se pegando. E, apenas agora me ocorreu que isso pode ser – por mais absurdo que possa parecer, já que estamos em 2014, pós-Félix, pós um monte de coisa – um recurso calculado para a aceitação do público, do mesmo tipo que manteve por anos o gay afeminado e divertidíssimo como única representação da homossexualidade masculina. Sabe aquele cara que ‘é gay, MAS é super divertido’? Então…
 
Li que, graças à chatice dos amores de Helena, as atenções estão se voltando para Marina e Clara. Aguardo ansiosa, mas não muito animada, o desenrolar desta história. E espero, sinceramente, que a coragem de colocar duas mulheres se relacionando amorosamente em uma novela das nove evolua para uma boa história ou ao menos uma boa discussão sobre sexualidade e homoafetividade. Uma história que não caia num clichê ainda mais manjado e irritante, da mulher que se interessou por outra porque ‘não tem homem suficiente em casa’. A conferir.
 
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3 comentários:

Anônimo disse...

achei o casal lésbico mais interessante que todos so casais gays ridículos mostrado nas novelas... engraado falar mal da Clara e Marina que apresentam de forma muito mais real duas lésbicas femininas e "comuns"... uma se descobrindo.. do que gays caricatos como felix e Nico que beiravam ao ridículo

Ana disse...

Bá, desculpa, mas eu acho que é totalmente o contrário. Primeiro: acredito que exista uma química entre elas sim - o que é meio cabreiro é o fato de que a Gio e o Gianne fazem casais há, o que?, 30 anos... A química deles é muito boa, então isso meio que também aperta pro lado "Marina e Clara". Porém, o fato da atriz ter dito isso "beijo é o de menos" acredito que tenha sido mal interpretada por você.

O que eu penso: o beijo é o resultado. É sucesso do beijo, junto ao público, é o resultado de que todo o trabalho realizado antes deu certo; fazer as pessoas entenderem que é normal, que é uma relação como qualquer outra, que é bonito ver elas juntas... Não apenas empurrar o beijo goela abaixo porque VAMO LÁ CHEGA DE PRECONCEITO VCS TEM QUE VER ISSO - entende? Acho que tem que mostrar mais, totalmente. Mostrar o porque isso é dificil para Clara, e como a relação dela é mais do que, justamente, fetiche.

Na verdade, fetiche por fetiche podemos colocar em discussão The L World - com elenco tanto de lésbicas quanto de héteros, algumas cenas também favoreciam o público masculino. Enquanto Em Família é algo com mais ternura, pelo menos avança o sinal aberto pela Aline Moraes e (aquela atriz gata, qual o nome, meu deus esqueci), das duas amigas de escola que namoram, a mãe é contra e bláblá... Po, elas só se abraçavam! Era até engraçado. hahaha

Enfim, eu acho que a novela tá sendo bem guiada, aos poucos, até agora. Veremos..

Carol disse...

"A primeira fragilidade está nas atrizes. Não há química entre elas. Me desculpem."

Acho que você errou e feio. Na primeira cena, tudo bem, meio estranho o agir de Marina com aquelas cantadas inesperadas e inapropriadas, mas dps senti na relação delas algo verdadeiro... me lembrei de quando paquerava minha namorada e ela sentia as dúvidas e não entendia bem o que fazer com o sentimento, é justamente o que Clara está passando. Não é fetiche, acredito que as duas viverão uma grande história de amor. Duas belas atrizes, confesso que Taina me surpreendeu pois sou fã de Aline e fiquei decepcionada quando soube que ela não faria o papel de Marina. Mas HOJE, não trocaria Taina por ela, acho que ela está conseguindo fazer o papel de uma fotografa que sabe seduzir, MUITO LINDA! Lógico que Gio tem muito mais bagagem e isso se nota em cena, mas nada que vá ferir o talento de Taina, pelo contrário, as duas estão se completando. E tenho certeza que Taina está dando um grande passo em sua carreira, depois dessa novela ficará marcada. Outro ponto, a trilha sonora é simplesmente perfeita! Acho que é questão de gosto mesmo. Você não "bateu" com elas e só, porque garanto, as duas estão fazendo o maior sucesso. Lindas, seduzem, e demonstram o começo de um amor, uma amizade que a cada dia cresce e deixa de ser somente isso. Em relação ao beijo, não tenho pressa, acho linda a paixão inicial, que está mais em sentir o cheiro da amada, um abraço apertado, um olhar penetrante. Devemos entender que essa sociedade preconceituosa não aceitaria as duas se beijando assim de cara, acho que nós (gays) devemos lutar por nossos direitos, mas também, devemos ter calma e caminhar devagar para toda liberdade que queremos. Aos poucos, casais gays e beijos, não terão essa repercussão, é só questao de TEMPO! BEijos

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