Looking: um retrato dos defeitos que os gays não admitem ter

 
Publicado pela Lado Bi
 
Ao longo de oito episódios, o seriado gay da HBO apresentou a disparidade entre o que os gays gostariam de ser e o que os gays são de verdade
 
Por Marcio Caparica
 
AVISO: Esse post contém spoilers. Muitos spoilers.
 
Quando a série Looking estreou, eu publiquei um post em que fazia algumas considerações sobre o primeiro episódio: disse basicamente que a nova série da HBO apresentava uma versão domesticada dos gays para facilitar sua aceitação por héteros, e comportada sexualmente para agradar os gays, já cansados de verem retratos hipersexualizados de si mesmos na mídia. A revolta dos leitores foi intensa. “Como você pode dizer isso depois de apenas um episódio?”, “Finalmente um seriado sobre gays que eu posso assistir com minha mãe, deixa de ser imbecil” e “Nosso universo não se reduz a pegação” foram apenas alguns dos comentários mais educados. Não me restou alternativa que me prometer a assistir ao resto da temporada para dar uma opinião final.
 
Pois finalmente consegui atravessar os oito episódios da primeira temporada. E devo dizer que estou impressionado com o resultado. Looking conseguiu construir uma história interessante baseada em três protagonistas absolutamente deploráveis. Isso é um feito de narração do qual poucos são capazes. E mostra que seus criadores têm um retrato do gay contemporâneo para mostrar sim, e não é tão cor-de-rosa quanto o que prometiam os primeiros episódios.
 
Com um sangue frio digno de Manoel Carlos, Looking nos arrasta por quatro episódios iniciais lentos . Nada de muito acontece. Os personagens são apresentados de maneira a seduzir tanto os gays carentes de retratos positivos como os héteros que buscam seu amigo gay ficcional. Todos são tão fofinhos, é irresistível! Dom, veja só, por trás daquele bigode cafajeste esconde um grande trauma amoroso e um sonho de abrir o próprio restaurante. Até na sauna ele é capaz de puxar uma conversa com o coroa ao lado. Agustín, o artista, acabou de ir morar com o namorado. Os dois até dividem um boy. Quem não gostaria de ter um relacionamento com essas possibilidades?
 
Mas a principal armadilha é Patrick, o personagem principal, encantador como só ele, o genro que todo viado gostaria de apresentar à mãe. Ele é bonito e sarado, mas fica sem graça de exibir o corpão na rua. Rodou tão pouco que nunca viu um pinto não-circuncidado (eles são raros nos EUA, eu sei, mas não tanto assim), e fica constrangido por fazer pegação no parque. Morre de vergonha por ter se insinuado para o chefe por engano e fica passado quando alguém o aborda no trem. E já disse que ele é lindo?
 
A pasmaceira começa a mudar no quinto episódio, que acompanha um dia de romance entre Patrick e Richie, seu boy latino. Então a trama começa a mostrar o lado feio de seus protagonistas, e a audiência, já amarrada por quatro semanas de fofice, não consegue mais fugir.
 
No último episódio Agustín tem que ouvir do namorado, Frank: “você não é o que pensa que é”. Serve de legenda para os três, e de sinal para o telespectador que ainda se recusa a processar o que aconteceu na reta final.
 
Agustín, vamos admitir, é o mais parecido com o gay o mundo real, e por isso mesmo o mais odiado pelo público. Deixa o tesão guiar suas decisões, engana o namorado sem refletir muito por que está fazendo isso, tem algo bom em sua vida mas coloca isso em risco por… tédio? Bem ou mal, é o único que toma atitudes para realizar o que deseja. Por mais moralmente condenável que isso possa ser. Se dá mal no fim, mas pode-se dizer que ele realmente tenha se arrependido do que fez? Acredito que não.
 
Dom entra em crise de meia-idade ao completar 40 anos. Decide então, para tentar preencher seu vazio existencial, que explorar a boa-vontade de um coroa para conseguir abrir seu business é algo válido. Por que não colocar o bigode sensual em uso se isso pode lhe render a oportunidade de ficar famoso preparando frango peri-peri? Dom se dedica a esse joguinho, incapaz de perceber que o coroa em questão, Lynn, já viu esse filme umas dez vezes antes.
 
Mas o mais desprezível dos três é mesmo Patrick, uma coleção de tantas características lamentáveis – e comuns – dos gays. Sua preocupação em projetar a imagem “correta” para os outros (seja amigos, sejam colegas de trabalho, seja família) é enorme. Só perde para a necessidade de projetar para si mesmo a imagem do que ele acha que deveria ser. E o Patrick real é bem distinto do Patrick autoidealizado. Ele se vê como alguém que respeita o relacionamento alheio, mas na realidade quer mais que tudo roubar o chefe casado para si. Considera-se sem preconceitos, mas tem vergonha do namorado cabeleireiro e latino. Paga de comportado, mas tem uma calça de couro com a bunda exposta no armário (ou se acha liberado sexualmente a ponto de usar a calça, mas tem medo de tirá-la do cabide; de qualquer maneira, não corresponde). É gay assumido, mas tem medo que pensem que é passiva. Procura o príncipe encantado, mas não sai do Manhunt – nem durante o trabalho.
 
Unindo os três amigos, está o elo da pouca consideração que têm por seus parceiros. Agustín acha que o namorado está tão na mão que não há porque não fazê-lo transar com um michê em um “projeto artístico”. Dom não consegue conceber que o coroa não esteja desesperado para tê-lo na cama e que seja capaz de conseguir um companheiro sem usar dinheiro de alguma forma. E Patrick vê em Richie nada além de um mexicano sarado que tem que dar graças a deus por ter alguém como ele de namorado. Levar um fora do mexicaninho? Inimaginável.
 
É difícil ter simpatia por qualquer dos três protagonistas de Looking, e essa ausência de heroísmo é um dos maiores triunfos do seriado. É uma história que apresenta personagens tridimensionais e cheios de fraquezas. Ao mesmo tempo, deixa claro que eles não enxergam além da fachada uns dos outros. Acho difícil que algum fã da série não tenha se identificado com várias facetas do trio principal – principalmente as menos “limpinhas”, principalmente as que apresentam seus defeitos profundos. Defeitos recorrentes na nossa cultura.
 
É um retrato do gay contemporâneo? Sim. É o retrato magnânimo que muitos esperavam? Não.
 
Certamente vou ter interesse em assistir a segunda temporada. Apenas deixo uma súplica aos criadores: por favor não nos submetam a mais meia temporada arrastada. De Manoel Carlos já nos basta o nosso.
 
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Comentários

  1. Foi complicado ler o texto, e foi complicado por concordo com tudo que disse. Doeu na parte do parágrafo sobre o Patrick, a definição não poderia ter sido tão verdadeira. Doeu porque eu me identifico com ele. Talvez se tivesse mais 15 minutos... mais ainda assim, sou eu.

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  2. Não assisti a série, mas acho que seja não seja um 'retrato do gay' e sim uma retratação da personalidade humana. Todos nós fingimos alguma coisa, por menor e mais inocente que seja. A sociedade condiciona as pessoas a serem hipócritas. Os gays são da mesma forma, mas o fato de serem GAYS torna tudo mais difícil.
    *se meu namorado propor um terceiro cara na nossa relação, eu mato ele e o cidadão*

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  3. Conheci o blog hoje através de um compartilhamento de um amigo do post recente sobre o homem gay branco, "macho" e rico. Achei a reflexão super interessante e me propus a conhecer um pouco mais do blog. Quando encontrei esse post sobre um seriado que até então nunca tinha nem ouvido falar, tirei algumas horas do meu dia para explorá-la. Quando finalmente acabei a temporada, voltei aqui pra ler o post - sim eu sou paranóico desse jeito com spoilers - e infelizmente digo que esse foi o último post do blog que eu li.

    Não consegui decidir se a crítica apresentada é rasa, homofóbica, estereotipada ou um misto dos três. Na dúvida, fico com a última opção.

    Chamar protagonistas que quebram com a monotonia dos primeiros episódios expondo fraquezas não é "defeitos da nossa cultura", se chama construir personagens humanos, tridimensionais e complexos. Aliás, que "nossa" cultura é essa? Pra ser gay agora tem que ter carteirinha? Só posso ser gay se apresentar pelo menos 10 músicas da Madonna, Beyoncé ou Britney no meu celular? A ideia de que existe uma cultura gay é o que dá início à estereotipagem dos homossexuais. Existem, sim, gays que se identificam com o estereótipo, mas também existem gays intelectuais, introvertidos, caseiros e de todo outro jeito. Falar em 'nossa' cultura faz tanto sentido quanto falar em cultura hétero.

    Outra: viado e passiva são termos extremamente depreciativos. "Ah, mas eu sou gay, eu posso". Bacana, continua validando os termos que a sociedade usa pra te humilhar, o caminho é esse mesmo. E que direito tem alguém de criticar um personagem que tem dificuldades de se assumir passivo quando ele mesmo tira do passivo a sua masculinidade só porque não é o pinto do passivo que tá comendo?

    Desculpa o desabafo, mas achei que tinha encontrado um espaço de crítica e reflexão LGBT inteligente, mas esse post deixou claro que o blog é só mais um reprodutor de estereótipos e clichês dos quais a internet tá cheia. Uma pena.

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  4. Sobre o Patrick...idem como disseram...sou eu...:P Ele me representa...claro que pq eu sou assim hj em dia, n faça nada para mudar essas caracteristicas...ja passei por situações identicas a ele...

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