18/04/2014

Nem homem, nem mulher: terceiro gênero desafia tradição e machismo no México

Muxe participa de cerimônia religiosa em Juchitán de Zaragoza,
uma cidadezinha de 90 mil habitantes na península de Tehuantepec

Publicado pelo Opera Mundi

As relações entre pessoas do mesmo sexo podem ser um tabu no México, assim como no Brasil, mas pelo menos os mexicanos estão acostumados a conviver com pessoas que não se declaram nem homem ou mulher, e sim pertencentes a um terceiro gênero. São as “muxes”.

Ser muxe não é ser mulher, apesar de ambas palavras compartilharem a mesma origem semântica, e tampouco é ser simplesmente homem e gay. Considera-se um terceiro caminho, porque mais do que uma opção, é uma questão de natureza: para a cultura ancestral dos astecas, algumas almas – os chamados índios “dois-espíritos” ou “duas-mentes” – não são nem masculinas, nem femininas, e mesmo assim, com características combinadas, encontram lugar neste mundo.

Um desses lugares é Juchitán de Zaragoza, uma cidade de 90 mil habitantes na península de Tehuantepec, no estado de Oaxaca, ao sul do México. Lá, reza a lenda que Deus pediu a São Vicente Ferrer que pusesse um homossexual em cada cidade da região. Porém, ao chegar em Juchitán, o saco em que carregava as pessoas se rasgou e todas as muxes caíram. E assim é que elxs caminham, em corpo de homem vestido às vezes (mas não necessariamente) de mulher e com a convicção de que não precisam mudar de sexo para desempenhar suas funções e encontrar seu lugar na sociedade.
 
 
Chama a atenção, em Juchitán, como a divisão do trabalho é bem marcada e carrega também códigos machistas. Homens se dedicam à pesca, a alguns tipos específicos de artesanato e algumas outras funções longe da administração da casa. Mulheres e muxes, à sua vez, são comerciantes e artesãs, responsáveis pelos alimentos e por sua preparação, por bordados e artes medicinais, pelas festas e decorações tradicionais e também por assuntos financeiros. Além disso, muxes são quem frequentemente iniciam sexualmente os homens, já que muitas mulheres querem se manter virgens até o casamento.
 
A fama internacional de Juchitán é de ser um “Queer Paradise”, coisa que costuma encher de orgulho os locais, ainda que não seja exatamente assim. Apesar de socialmente aceitas, as representantes do terceiro gênero sofrem preconceitos, inclusive por parte de mulheres que não veem com bons olhos seu poder ser compartilhado.
 
A fama internacional de Juchitán, em Oaxaca é de ser um “Queer Paradise”,
coisa que costuma encher de orgulho os locais
 
Elxs circulam, deixam-se ver e são vistas com naturalidade - raramente com outrxs muxes, mas às vezes em relações estáveis com homens e com mulheres, até mesmo com filhos - sem que o status masculino ou feminino de seus parceiros se veja ameaçado. ............. Também há quem fale de um quarto gênero fazendo referência às “marimachas”, que são mulheres que se identificam com um papel social masculino e que se casam com outras mulheres. No entanto, não são de fato aceitas socialmente como sexo autônomo e, no trabalho, realizam as mesmas funções que os homens.
 
Outros países, como a Alemanha, que ano passado aprovou uma lei segundo a que os bebês podem ser registrados com “sexo indefinido” para posteriormente defini-lo, ou então a Austrália, desde 2011 dá a opção a seus cidadãos de se definirem como “X” no campo reservado ao gênero no passaporte, fazem seus experimentos e tentativas para emplacar uma terceira opção.
 
Mas é no México, ainda que em um pueblito de 90 mil habitantes, que ele encontra um lugar para se colocar, de fato, mais do que de direito, dentro da sociedade.
 
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