Mãe de Alexandre Ivo, jovem torturado até a morte: “A homofobia precisa ser punida com lei nesse país”


Publicado pelo O Dia 

 Angélica Ivo viveu a dor e a saudade em mais um Dia das Mães sem o filho. Alexandre se tornou símbolo da luta contra o preconceito pela orientação sexual, mas crime permanece impune.

“Os assassinos puderam abraçar suas mães no domingo, enquanto eu não tive o abraço do meu filho”. A funcionária administrativa Angélica Ivo, 42 anos, convive diariamente com os sentimentos de dor, revolta e vontade de justiça. Em junho de 2010, de acordo com a investigação policial e denúncia do Ministério Público, o adolescente Alexandre Ivo, então com 14 anos, foi torturado até a morte por simpatizantes do neonazismo, em um crime com motivo homofóbico. O corpo do menino foi encontrado em terreno baldio com diversas lesões pelo corpo e o rosto desfigurado. Tanto tempo depois, o crime brutal permanece impune, os acusados aguardam o julgamento em liberdade. 

“É uma dor que nunca cura. Pode passar o tempo que for, mas a ferida está aqui, aberta. Tem dia que dói um pouco mais, outro um pouco menos. Dia que a dor está mais amena, dia que está mais aflorada. Mas eu tenho que seguir minha vida lutando para que os assassinos sejam punidos”, disse Angélica.

Os acusados Erick Boa Hora Debruim, Allan Siqueira de Freitas e Andre Luiz Marcoge da Cruz Souza negam a autoria do crime. Eles chegaram a cumprir prisão preventiva, mas foram soltos após trinta dias. A juíza Patricia Acioli que acompanhava o caso (até ser morta por PMs por investigar a corrupção no batalhão de São Gonçalo) escreveu no despacho que os três homens deveriam permanecer presos “pela alta periculosidade que representam”. 

Um menino alegre e carinhoso 


Angélica fica ainda com a voz embargada ao lembrar-se do jeito doce de Alexandre. Afetuoso, ele todos os dias despertava a mãe com um beijo no rosto e uma palavra amorosa. “Me dói demais o coração lembrar que eu não tenho mais meu filho me acordando com um cheirinho, um beijo no rosto e um ‘eu te amo’. Esse era meu filho, querido por todos, tudo dele me faz fata”. 

Um garoto fã dos livros e dos filmes do Harry Potter, que adorava as músicas da Kate Perry e começava a se interessar pelos livros da saga Crepúsculo e pelo best seller A menina que roubava livros. Um garoto com preferências como a de tantos milhares e milhares de garotos, mas que teve a vida cruelmente interrompida em um crime de ódio. 

“Era um menino alegre, carinhoso com todo mundo. Gostava de teatro, era aquele menino que soprava a fala para no ouvido do amiguinho da escola quando esquecia o texto. Sempre foi o orador da turma dele. Era querido pelos colegas, pelos professores, por quem estivesse a seu redor”, recorda a mãe. 

O crime 

O assassinato de Alexandre, em 21 de junho de 2010, ocorreu após uma confusão em uma festa na casa de uma amiga, no Mutuá, bairro de São Gonçalo. De acordo com os depoimentos de testemunhas colhidos pela Polícia, um amigo de Alexandre, assumidamente homossexual, sofreu agressões cometidas pelo mesmo trio de acusados. Alexandre e o amigo foram à delegacia da área registrar queixa e depois acabaram voltando para a festa. Ainda de acordo com o relato de testemunhas, Alexandre saiu da casa sozinho, por volta das 2h30, quando foi abordado pelos homens que o obrigaram a entrar em um carro. O garoto não foi mais visto desde aquele momento.

O corpo do adolescente foi encontrado na manhã seguinte, no bairro Jardim Catarina, em um terreno baldio, ao lado de um valão. Pelo laudo da perícia, Alexandre foi espancado, torturado e morto por estrangulamento. As agressões teriam durado cerca de quatro horas. As lesões estavam espalhadas por todo o corpo, sobretudo no crânio. O rosto ficou inteiramente desfigurado. 

Se não bastasse o sofrimento de enterrar o próprio filho, Angélica lembra que precisou provar à polícia que o filho não estava envolvido com o crime organizado. “Os policiais que encontraram o corpo registraram que meu filho estava envolvido com endolação de droga. Meu filho nunca se envolveu com isso, o meu filho foi encontrado morto em outro bairro, em um lugar que ele nunca esteve; não tinha sentido nenhum”. 

Mesmo abalada, ela começou uma investigação paralela, indo aos últimos locais onde o filho esteve e no terreno onde o garoto foi encontrado morto.“Eu e meu primo fizemos vários percursos a pé, de carro, atrás da explicação para o crime. Entrei naquele lugar horrível, horripilante, onde você sente as energias negativas. Eu acho que eu tinha que passar por isso para aquilo me dar força para não desistir”, acredita. 

O contorno homofóbico do crime veio à tona quando a prima do brigadista Erick Boa Hora Debruim entregou o homem como um dos autores do crime. No depoimento à polícia, outro acusado, o eletricista Allan Siqueira de Freitas apontou Erick como o autor do crime. Segundo ele, Erick nunca tolerou os amigos homossexuais da prima e teria sido este o motivo para o assassinato.O laudo técnico apontou que o sangue encontrado no carro do brigadista é compatível com o de Angélica. 



Ainda no depoimento, o eletricista disse acreditar que Erick “talvez tenha só tentado dar um pau nele (em Alexandre) e exagerou na dose”. Ele também admitiu ter seguido a ideologia neonazista e integrado grupo skinhead na adolescência. 

Os três chegaram a cumprir prisão temporária por sete dias e a preventiva por mais trinta, ganhando novamente às ruas. De acordo com a Justiça, são aguardados laudos do Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE) para o andamento do caso. “Não vou descansar enquanto os assassinos estiverem na rua”.

O último domingo, Dia Das Mães, foi o quarto ano sem a presença do filho. Angélica procura se confortar com o carinho da filha mais velha, de 21 anos, e a lembrança de Alexandre. “Não vou dizer que é uma data alegre, mas não faço dela um pesar, o Alexandre não gostaria disso. A revolta existe quando paro e percebo que os assassinos do meu filho podem abraçar suas mães enquanto em um dos meus braços o meu filho nunca mais vai estar”.

Angélica se reergueu com o apoio de amigos e familiares e com a luta para que a justiça se faça cumprir no caso Alexandre. Ela fundou o movimento Alexandre Vivo que luta pela criminalização da homofobia no país. “Eu sou uma mãe que luta por justiça, que luta contra as injustiças que crianças e adolescentes sofrem em razão da orientação sexual. A homofobia precisa ser punida com lei nesse país”, disse. 

Espiritualista, ela revela ansiedade pela primeira mensagem do filho, que diz que será recebida por uma médium que trabalhou na assistência jurídica do caso. “Sempre me falaram para procurar algum lugar ou alguém para falar com meu filho, mas eu sabia que na hora certa isso iria acontecer sem eu precisar ir atrás. Acho que agora esse momento finalmente chegou, estou ansiosa, na expectativa do que ele tem para falar para mim. Eu, melhor que ninguém, vou identificar se as palavras são dele ou não”. 

Nas redes sociais e em grupos de apoio, Angélica também presta ajuda a jovens e pais que ainda sentem dificuldade em lidar com a homossexualidade e a homofobia. “O que eu falo para os pais é: deixem que o amor pelos filhos fale mais alto que a concepção que eles possa vir a ter sobre orientação sexual. A intolerância dos pais pode acabar empurrando os filhos para o caminho da violência, já que esses jovens passam a viver uma vida oculta, tendo que procurar meios para fugir dos olhos desses pais”, argumentou. 

“A homossexualidade não é feia. Nenhuma forma de amor é errada. Tem que haver o diálogo, o entendimento para que os filhos percebam que o primeiro lugar que eles vão se sentir protegidos é a casa deles. Por maior que haja divergência, o que tem que prevalecer é o diálogo, o amor e o respeito. São assim que nascem as relações de diversidade”, concluiu. 



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