"O novo jeito de ser gay no cinema" Por Nina Finco

 
Por NINA FINCO para a Revista Época
 
Em "Praia do Futuro" e "Hoje eu quero voltar sozinho", os protagonistas são homossexuais – mas a história não é realmente sobre isso.
 
Em fevereiro deste ano, dois filmes brasileiros concorriam ao Teddy Award, no 64º Festival de Berlim. Um dos mais importantes prêmios paralelos à competição oficial, o Teddy é entregue aos curtas e longas-metragens da Berlinale com temas relacionados à diversidade e à liberdade sexual. Os filmes eram Praia do Futuro, de Karim Aïnouz, e Hoje eu quero voltar sozinho, de Daniel Ribeiro. O primeiro entusiasmou os jurados, e o segundo arrebatou o prêmio. Em ambos, os personagens principais são gays. Mas esse não é o único ponto em comum entre eles. Os dois filmes colocam em segundo plano a homossexualidade dos protagonistas e exploram outros dramas que a vida impõe a eles. A sexualidade não é o centro de nenhuma das narrativas. É  apenas uma entre as várias facetas dos personagens – e não a mais importante.

Praia do Futuro estreou nas salas de cinema do Brasil na quinta-feira (15), uma coprodução entre Brasil e Alemanha. Em três capítulos, conta a história de Donato (Wagner Moura), um salva-vidas na praia que dá título ao filme. Ele perde sua primeira vítima para o mar, um turista alemão. O amigo do afogado permanece no Brasil, esperando que o corpo seja encontrado. Os dois se envolvem num romance, e Donato troca o calor do Ceará pela fria Alemanha. Anos depois, o caçula da família vai em busca do irmão desaparecido.

“É um filme de homens”, diz o ator baiano Wagner Moura. “E homem fala pouco.” De fato, o filme é repleto de silêncios. Em muitas cenas, quando o diálogo se faz necessário, Aïnouz consegue transmitir a emoção quase sem palavras, seja amor ou culpa irreparável. O filme surgiu de sua vontade de retratar um salva-vi­das da vida real. “Queria filmar a jornada de um herói que dá defeito”, diz ele. “O fato de ser gay é só mais uma camada de humanização do personagem.” Acima de tudo, o filme fala sobre a fragilidade do ser humano. Se Donato é gay ou não, não é problema, nem para o irmão.

Hoje eu quero voltar sozinho vai na mesma linha. Conta a história de Leonardo (Guilherme Lobbo), um menino cego em busca de independência. Quando um novo aluno chega à escola, Leonardo depara com a descoberta do amor. O filme é delicado e inocente. Retrata a vontade de um adolescente descobrir-se como indivíduo, mesmo com as limitações da cegueira. A história de amor entre ele e seu colega é tratada com naturalidade, como outra de suas descobertas existenciais. “A intenção foi deixar a sexualidade em segundo plano”, diz o diretor paulista Daniel Ribeiro. “Dessa forma, eu poderia me concentrar no que havia de comum entre protagonista e espectador: o primeiro amor, o primeiro beijo, as descobertas habituais da adolescência. São temas comuns da juventude, independentes da sexualidade.”

Nos últimos anos, outros títulos com personagens homossexuais se destacaram no cinema brasileiro. Em cada um deles o tratamento do assunto era diferente. O filme As melhores coisas do mundo, de 2010, dirigido por Laís Bodanzky, mostra como a vida de um adolescente (Gustavo Machado) vira de cabeça para baixo após seu pai (Zé Carlos Machado) assumir ser homossexual. Gustavo não aceita. “Não tenho nada contra, mas precisava ser logo com meu pai?”, diz. Ao longo da história, a relação se recupera. No ano passado, Flores raras discutiu o assunto. Dirigido por Bruno Barreto, o filme mostra a relação entre a poeta americana Elizabeth Bishop (Miranda Otto) e a arquiteta brasileira Lota de Macedo Soares (Glória Pires). O amor entre as duas mulheres é explorado em sua intimidade, com grande delicadeza, sem polemizar ou levantar bandeiras. É uma história de amor como aquela que ligou as duas personagens na vida real.

O deputado Jean Wyllys, do PSOL do Rio de Janeiro, militante da causa gay, diz que por muito tempo o cinema manteve uma olhar negativo sobre os homossexuais. Nas telas, assim como na TV, se multiplicavam tipos caricatos, invariavelmente afeminados, que emprestavam à homossexualidade algo de grotesco. Isso mudou, diz Wyllys, com a organização do movimento LGBT. Ele ganhou visibilidade social e gerou a percepção simultânea de que os gays são um grupo com forte poder de consumo. “Hoje, os cineastas conseguem representar a homossexualidade em sua complexidade, não de uma maneira estereotipada ou negativa”, diz Wyllys. As coisas melhoram, na ficção e na realidade.

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