22/05/2014

‘Profecia’ de Wagner Moura se cumpre: espectadores abandonam sessões de Praia do Futuro

 
Visto em O Dia
 
O fenômeno acontece em todo o país. Na primeira cena de sexo gay, logo nos primeiros minutos, começa a debandada
 
Era noite de segunda-feira em um cinema da zona norte do Rio de Janeiro. Na última fileira, um homem aparentando trinta e poucos anos de idade chega sozinho para assistir ao filme Praia do Futuro. O trailer começa. Em voz alta, ele dialoga com os trechos dos filmes que são exibidos, sem se importar com as pessoas ao lado. Praia do Futuro começa. Logo há a primeira cena de sexo entre o personagem interpretado por Wagner Moura (o salva-vidas do Corpo de Bombeiros Donato) e o alemão Clemens Schick (que vive o turista Konrad). O inquieto espectador em sua cadeira vocifera palavras que podem até soar engraçadas para quem nunca viveu o preconceito na pele. Para quem viveu, são ridículas.
 
“Caralho! Que vacilão! Um militar sentando na mamona!”.
 
Minutos depois, ele decide, enfim, sair da sala de cinema. É apenas o primeiro de muitos. Ao final do filme, permaneceram apenas metade dos espectadores que pagaram o ingresso.
 
Em diversas entrevistas coletivas, o ator Wagner Moura disse temer uma “reação moral” ao filme. Parecia prever o que vem acontecendo desde a última quinta-feira, quando o longa estreou em mais de 100 salas em todo o país. “Tenho a certeza que haverá uma reação moral ao filme por eu ser um ator popular, o intérprete do Capitão Nascimento e por tudo o que o personagem representa”, declarou.
 
Em Recife, no cinema do Shopping RioMar, um casal hétero também se levantou ao ver a cena de sexo entre dois homens. O espectador Miguel Rios descreve o que aconteceu. “O cara disse para ela: Vá, levante. Isso não é da minha natureza não”. Segundo Miguel, outros espectadores tomaram a mesma decisão e deixaram o cinema durante o filme.

Morador de São Luís, no Maranhão, Márcio Sallem conta o que presenciou em um cinema da rede Cinépolis. “Pessoas preconceituosas gargalhavam e saíam da sala como o diabo foge da cruz. Éramos aproximadamente 25 no começo do filme e terminamos em pouco mais de dez”, lembrou.
 
Os relatos da fuga de espectadores, em maior ou menor quantidade, vêm de todo o país: Curitiba, Brasília, Belém, Manaus, São Paulo. São dez, vinte, trinta e até quarenta pessoas, (como aconteceu em Niterói, na Região Metropolitana do Rio) deixando as salas de cinema. Algumas delas chegam a interpelar os funcionários dos cinemas questionando a exibição de Praia do Futuro.
 
Com isso, alguns boatos que a internet ajuda a propagar acabam ganhando força. Em um destes, um grupo de rapazes teria ameaçado de linchamento um gerente em razão da exibição de Praia do Futuro. Tal fato teria ocorrido em um cinema de Aracaju. A rede Cinemark informou que o gerente foi sim procurado por algumas pessoas que reclamaram do filme, “mas com educação”. Em outro caso, uma mentira que teve início no Twitter e foi comprada por alguns veículos de comunicação dava conta que o ingresso de Praia do Futuro estava vindo com um carimbo com a palavra ‘Avisado’ que seria uma confirmação de que o cliente fora alertado sobre o conteúdo gay do filme. A palavra realmente estava carimbada, mas trata-se apenas de um procedimento para lembrar ao espectador que ele deve apresentar o documento que comprova o direito à meia-entrada, conforme informou a rede Cinépolis de cinema.

Para registrar: No filme Praia do Futuro, o salva-vidas Donato resgata Konrad, alemão piloto de moto velocidade, de um afogamento na praia de mesmo nome, no Ceará. 
Os dois se apaixonam e Donato vai embora, deixando pra trás o irmão mais novo Ayrton e a família. 
Oito anos depois, Ayrton se aventura em Berlim na busca do irmão desaparecido, seu grande herói.
 
Recalque
 
Para o cineasta e professor de Comunicação Social da UFRJ, Fernando Salis, a quebra de expectativa provocada com a presença do ator Wagner Moura em um personagem homossexual seria a principal explicação para a fuga de espectadores das salas.

“O Wagner construiu um capital simbólico nos últimos anos pelo reconhecimento do trabalho dele e pela projeção que os filmes Tropa de Elite tiveram. O Capitão Nascimento encarna uma série de estereótipos do que seria o desejável para o comportamento masculino na visão da sociedade”. Para o professor, o reencontro do espectador de Tropa de Elite com o ator em Praia do Futuro acaba provocando um curto-circuito em quem espera a mesma representação do masculino encontrada nos filmes do diretor José Padilha.
 
“De repente, em Praia do Futuro, ele aparece com outro tipo de comportamento também masculino, sem estereótipos, em que as posições sexuais não estão definidas. A figura masculina não está identificada com a questão da posição sexual, se ativa ou passiva, isso é algo que perturba as pessoas, algo que, ainda hoje, é resolvido pelo tabu e pela proibição do exercício do desejo”.
 
Ele destaca ainda que não é por acaso que a primeira cena de sexo entre o militar Donato e o aconteça em um ambiente isolado, escuro. “Essa situação é muito comum na caserna, em banheiros. Uma situação potencialmente erótica que como disse, acaba sendo resolvida pelas pessoas que a vivem pelo tabu, pela proibição, que elas mesmas se punem, do exercício do desejo. O filme está endereçando uma questão recalcada: de que as experiências homossexuais são muito mais comuns do que as pessoas estão acostumadas conhecer ou querer conhecer e se relacionar”, completou.

Um comentário:

Reginaldo Lordannos disse...

O Karim já está acostumado com essas polêmicas sobre seus filmes. Aconteceu a mesma coisa na estreia de Madame Satã em 2002.

"Quanto ao escândalo diante das cenas de sexo, entre Satã e Renatinho, registrado no Festival de Cannes 2002, com diversos espectadores abandonando as salas onde a obra foi mostrada, na seção Un Certain Regard, cabe o espanto. É difícil imaginar o que terá chocado tanto essa parcela de platéias experimentadas, como a dos jornalistas credenciados no maior festival do mundo, a esmagadora maioria dos quais com idade suficiente para ter assistido a filmes muito mais diretos sobre a homossexualidade como Querelle, de Rainer Werner Fassbinder, que já completou vinte anos, ou O Último Tango em Paris, de Bernardo Bertolucci, lançado 30 anos atrás".

Crítica Cineweb
23/01/2003

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