O homem que deu cria faz 70 anos: João Silvério Trevisan


Por Vitor Angelo

João Silvério Trevisan - escritor, cineasta, ativista, pesquisador - completou 70 anos na segunda-feira, 23. E, apesar de seu valor não ser reconhecido como merece (algo típico do espírito brasileiro), sua contribuição para a cultura e o pensamento em nosso país, e além dele, é inegável.

É o homem que deu cria ao movimento gay no Brasil. É o homem que deu cria à consciência que este movimento nunca deve estar atrelado a nenhum partido político. É o homem que ajudou a dar cria ao cinema marginal. É o homem que ajudou a dar cria ao importante jornal “Lampião da Esquina”. É o homem que nos ajudou a dar cria às nossas liberdades individuais e sexuais.

Em nome do desejo, ele acreditou profundamente em sua liberdade e paga o preço desta sua opção até hoje. Em nome do desejo, ele mergulhou seu talento na literatura e fez emergir pérolas como “Ana em Veneza” e “Rei do Cheiro”. Em nome do desejo, ele expressa sua ideias sem medo de agradar, aliás, muitas vezes desagradando muitos dos seus pares, mas isto chama-se integridade.


Denso, apaixonado, nada é simples quando se está ao lado de Trevisan. Lembro de quando, ainda estudante de cinema da ECA-USP, fui pegar pessoalmente a cópia de “Orgia”, em sua casa para uma exibição para os estudantes. Depois de exibida a película, ao devolver o filme em sua casa, ele apenas me perguntou: “Envelheceu”. Minha resposta foi que nós, estudantes, nos sentimos velhos diante do filme.

Trevisan, 70, continua jovem e atual, basta ler seu clássico “Devassos no Paraíso”, o farol e bússola deste blog para comprovar o que escrevo. O livro narra a história da homossexualidade no Brasil, este país que todos consideram um paraíso dentro de um certo imaginário. “O grande portal da fantasia desandou. Em compensação, encontramos a porta traseira. E sua chave. O fruto já provado antes nos ensinou: assim como o espetáculo da vida, o espetáculo do desejo é generoso na proporção direta de sua fragilidade, enquanto ecossistema no interior do Eu. Ou seja, é preciso estar sempre aberto à eventualidade de sua perda, como condição mesma para mergulhar em sua multiplicidade barroca. De resto, só a linguagem da exuberância detém a chave deste concretíssimo paraíso, do qual somos os (muito humanos) querubins. Quem sabe possamos abrir a porta de trás, entrar e , desta vez, usufruir”.

Salve, João!

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