"COMBATENDO A PASSIVOFOBIA" Por André Motta


Por André Motta para Os Entendidos
 
Você já deve ter ouvido: “ah, que pena, é passiv-A”. Essa frase, em claro tom de descrédito, de desapontamento e mesmo de preconceito, é muito comum de se ouvir por aí. Aliás, dita por gays e para gays, já que depreciar os outros só não é melhor do se autodepreciar. É mesmo tanto demérito ser passivo? É tão degradante gostar de sê-lo? Desde que “caí na viadagem”, percebi que existe uma relação pra lá de estranha na qual está embutida a “superioridade” do ativo sobre quem é passivo.

Esse sentimento é reflexo da norma binária que define um casal como um homem e uma mulher, masculino e feminino, masculinizado e efeminado. Isso dá origem à figura preconceituosamente definida do passivo: delicado, de porte físico pequeno, levemente efeminado, voz fina, etc. Como se houvesse uma conduta comportamental que deveria - e deve - ser seguida, para atrair os ativos. O gay ativo também tem um padrão a ser seguido. Ele deve ser alto, sarado, falar grosso e usar barba. Coçar o saco e ser todo machinho. Um gay que se comporta como homem. Como se “ser homem” fosse definido por essas atitudes…

É um pensamento tão recorrente que quando vemos um casal composto por dois homens, imaginamos que um dos dois desempenhe o papel considerado feminino em tudo, inclusive na cama – sendo penetrado.

Claro que existem casais que, na cama, assumem esses papéis. Porém, há outros, sem preferências rígidas, onde tudo depende do prazer de cada um naquele momento. E sem falar nos casos em que a penetração nem acontece.

Mesmo assim, a curiosidade sobre o que dois homens fazem na cama, até mesmo por outros, é bem grande. Aquele pensamento que um homem, para ser homem, jamais poderá ser dominado – e penetrado – por outro homem. Nesse pensamento machista, que possui suas origens entre os gregos antigos, ser dominado é algo exclusivo das mulheres, já que elas são inferiores e devem ser submissas ao homem. A dominação sexual de um homem, portanto, é inadmissível.

Curioso que essa ideia, tanto para heterossexuais como para gays, levanta a questão do ser masculino e ser feminino. Realmente, boa parte dos gays que se pronunciam unicamente ativos, parecem não entender que a atividade não quer dizer ser mais homem que um passivo. Está implícita nessa dualidade, ativo e passivo, a ideia de que os que “trepam com o pau” são mais másculos, os “homens” da relação, enquanto o gay passivo é o feminino.

Bobagem. Sexo é feito a dois, com ambos tendo prazer e aproveitando o ato. Não importa se é ativo, não importa se é passivo. Não importa mesmo. O que importa é o tesão compartilhado pelos dois, cada toque, cada olhar, cada “pegada”, cada beijo, cada gemido e cada suspiro.

É tudo relativo, não é? Ativo… Passivo… Quem come… Quem dá… É um ato resultante de uma relação dialética, em que um não pode existir sem o outro. Indo além: é um ato em que o gozo do ativo não pode existir sem a carne do passivo e vice-versa.

O ponto mais importante desse tema é que a atividade ou a passividade não nos faz nem mais e nem menos gays. Essas influências sociais, com essa cara de machismo e ainda por cima, presas na dualidade homem e mulher, muitas vezes confundem nossas cabeças e acabam limitando nossos relacionamentos.

O gostoso é acontecer de tudo. Aproveita mais, de maneira mais plena, quem não se bloqueia. A realidade que fica é que vivemos numa sociedade gay que se pretende liberal, mas é cheia de bloqueios.

Quando falamos em gay, seja ativo, seja passivo, e toda aquela miríade conhecida no universo LGBT, percebemos que estes rótulos indicam algo importante para a felicidade. São questões importantes para a autorrealização e satisfação individual e ninguém tem nada a ver com isso.
 
A todos os passivos que lutam contra a homofobia geral e internalizada, parabéns! Sua preferência, seu prazer, não deve e não é motivo de vergonha. Não tenha medo de assumir que é, que gosta, que dá. Brincadeiras à parte, é melhor gozar livremente do que ser um chato mal comido!
 

Comentários

  1. Queer Theory. Apenas mais um traço do machismo, no qual gays, que possuem características tidas como femininas, sofrem esse preconceito.

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