28/07/2014

"COMBATENDO A PASSIVOFOBIA" Por André Motta


Por André Motta para Os Entendidos
 
Você já deve ter ouvido: “ah, que pena, é passiv-A”. Essa frase, em claro tom de descrédito, de desapontamento e mesmo de preconceito, é muito comum de se ouvir por aí. Aliás, dita por gays e para gays, já que depreciar os outros só não é melhor do se autodepreciar. É mesmo tanto demérito ser passivo? É tão degradante gostar de sê-lo? Desde que “caí na viadagem”, percebi que existe uma relação pra lá de estranha na qual está embutida a “superioridade” do ativo sobre quem é passivo.

Esse sentimento é reflexo da norma binária que define um casal como um homem e uma mulher, masculino e feminino, masculinizado e efeminado. Isso dá origem à figura preconceituosamente definida do passivo: delicado, de porte físico pequeno, levemente efeminado, voz fina, etc. Como se houvesse uma conduta comportamental que deveria - e deve - ser seguida, para atrair os ativos. O gay ativo também tem um padrão a ser seguido. Ele deve ser alto, sarado, falar grosso e usar barba. Coçar o saco e ser todo machinho. Um gay que se comporta como homem. Como se “ser homem” fosse definido por essas atitudes…

É um pensamento tão recorrente que quando vemos um casal composto por dois homens, imaginamos que um dos dois desempenhe o papel considerado feminino em tudo, inclusive na cama – sendo penetrado.

Claro que existem casais que, na cama, assumem esses papéis. Porém, há outros, sem preferências rígidas, onde tudo depende do prazer de cada um naquele momento. E sem falar nos casos em que a penetração nem acontece.

Mesmo assim, a curiosidade sobre o que dois homens fazem na cama, até mesmo por outros, é bem grande. Aquele pensamento que um homem, para ser homem, jamais poderá ser dominado – e penetrado – por outro homem. Nesse pensamento machista, que possui suas origens entre os gregos antigos, ser dominado é algo exclusivo das mulheres, já que elas são inferiores e devem ser submissas ao homem. A dominação sexual de um homem, portanto, é inadmissível.

Curioso que essa ideia, tanto para heterossexuais como para gays, levanta a questão do ser masculino e ser feminino. Realmente, boa parte dos gays que se pronunciam unicamente ativos, parecem não entender que a atividade não quer dizer ser mais homem que um passivo. Está implícita nessa dualidade, ativo e passivo, a ideia de que os que “trepam com o pau” são mais másculos, os “homens” da relação, enquanto o gay passivo é o feminino.

Bobagem. Sexo é feito a dois, com ambos tendo prazer e aproveitando o ato. Não importa se é ativo, não importa se é passivo. Não importa mesmo. O que importa é o tesão compartilhado pelos dois, cada toque, cada olhar, cada “pegada”, cada beijo, cada gemido e cada suspiro.

É tudo relativo, não é? Ativo… Passivo… Quem come… Quem dá… É um ato resultante de uma relação dialética, em que um não pode existir sem o outro. Indo além: é um ato em que o gozo do ativo não pode existir sem a carne do passivo e vice-versa.

O ponto mais importante desse tema é que a atividade ou a passividade não nos faz nem mais e nem menos gays. Essas influências sociais, com essa cara de machismo e ainda por cima, presas na dualidade homem e mulher, muitas vezes confundem nossas cabeças e acabam limitando nossos relacionamentos.

O gostoso é acontecer de tudo. Aproveita mais, de maneira mais plena, quem não se bloqueia. A realidade que fica é que vivemos numa sociedade gay que se pretende liberal, mas é cheia de bloqueios.

Quando falamos em gay, seja ativo, seja passivo, e toda aquela miríade conhecida no universo LGBT, percebemos que estes rótulos indicam algo importante para a felicidade. São questões importantes para a autorrealização e satisfação individual e ninguém tem nada a ver com isso.
 
A todos os passivos que lutam contra a homofobia geral e internalizada, parabéns! Sua preferência, seu prazer, não deve e não é motivo de vergonha. Não tenha medo de assumir que é, que gosta, que dá. Brincadeiras à parte, é melhor gozar livremente do que ser um chato mal comido!
 

Um comentário:

Tony disse...

Queer Theory. Apenas mais um traço do machismo, no qual gays, que possuem características tidas como femininas, sofrem esse preconceito.

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