14/07/2014

Editoras apostam em literatura infanto-juvenil gay


Visto no O Globo

O título é tão simples quanto deveria ser o tema: “Garoto encontra garoto”. A história do romance, no entanto, é complexa como a vida: garoto encontra garoto, garoto se apaixona por garoto, e um mal-entendido separa um do outro. Em 2003, o romance “Boy meets boy” causou polêmica quando foi lançado nos Estados Unidos. De autoria do editor de livros infantis e escritor David Levithan, vendeu milhares de cópias, mas foi rechaçado pelo público conservador — provando que a linha entre o que deve ser simples e se torna complexo é mesmo tênue. Ainda assim, só agora, 11 anos depois, o livro chega ao Brasil, país em que o casamento civil entre homossexuais é permitido desde 2011 e onde até novela já veiculou cena de beijo entre personagens do mesmo sexo.

O lançamento do romance de Levithan no próximo mês, na Bienal de São Paulo, indica uma revolução que vem acontecendo não só no gênero (chamado por algumas editoras de “young adult”), como no mercado editorial brasileiro, que tem publicado cada vez mais títulos voltados ao público entre 12 e 18 anos com personagens ou temas gays. “Garoto encontra garoto” é lançado na cola do sucesso de “Will & Will” (ambos da Record), também de autoria de David Levithan, em parceria com o mais novo queridinho do gênero teen, John Green. Levithan publicou ainda “Todo dia”, que também esbarra no tema. “Will & Will” conta a história de dois jovens que se apaixonam e figura na lista dos mais vendidos desde abril, com mais de 70 mil exemplares comercializados. A trama, garante o autor, continua absolutamente atual:

— Quando publiquei “Garoto encontra garoto”, há 11 anos, havia partes da história que pareciam pura fantasia. Na trama, cidadãos americanos gays poderiam se casar, e a geração mais nova lidava tranquilamente com os homossexuais. Se você me dissesse que essas coisas seriam verdade dez anos depois, eu não teria acreditado. Com certeza, estamos muito mais próximos hoje da realidade do livro do que em 2003. Ainda temos muito a percorrer na estrada pela igualdade dos direitos civis, mas, especialmente para os mais jovens, boa parte do percurso já foi feita — diz Levithan, lembrando que recebe milhares de e-mails de jovens leitores dizendo que a história de Paul e Noah os ajudou a entender quem eram. O clichê é inevitável: a literatura teen saiu do armário. Se entre as grandes editoras americanas há 135 títulos tagueados como “gay” e “teen”, de acordo com o site Goodreads, no Brasil já existem ao menos dez títulos que abordam a homossexualidade entre seus temas principais (todos lançados de 2012 para cá). Só neste ano, “Garoto...” é o terceiro lançamento.

Em abril, a Companhia das Letras lançou, pelo selo jovem Seguinte, o romance “Aristóteles e Dante descobrem os segredos do universo”, do autor americano Benjamin Alire Sáenz, que conta a história de dois amigos que descobrem o amor.

Quando publicou a obra, Sáenz fez um discurso emocionado em que assumiu sua homossexualidade: “Quase não escrevi esse livro. Minha jornada em busca da aceitação da minha sexualidade tem sido dolorosa, difícil, complicada e conflituosa. E bastante longa. Como se diz hoje em dia, eu ‘saí do armário’ aos 54 anos. Estava um pouco atrasado. É justo dizer que, ao fim dessa jornada, estava ferido”.

Namoro na turma da Luluzinha

Em fevereiro, a editora Autêntica lançou “Minha metade silenciosa”, do também americano Andrew Smith, em que um dos personagens principais é homossexual, e seus questionamentos conduzem a trama. A tendência também pode ser notada nas HQs: no mesmo mês, a edição 57 da HQ “Luluzinha Teen” incluiu um personagem homossexual na turma da protagonista. Na história, Edgar é namorado de Fábio, cujos pais não aprovam o namoro.

— A Luluzinha tem por característica ser a libertária da turma, a líder, uma defensora dos direitos humanos, era natural que o tema aparecesse nas suas histórias, e que fosse ela a comprar a briga em defesa do personagem. Não tem como falar para jovens hoje ignorando o assunto — defende Daniel Stycer, editor da HQ e idealizador do roteiro.

A lista não para por aí: no fim do ano passado, a Globo Livros lançou “Menino de Ouro”, da escritora inglesa Abigail Tarttelin, que aborda a sexualidade na adolescência sob o ponto de vista de Max — melhor aluno da escola, capitão do time de futebol, querido entre os amigos, ele guarda um segredo: é intersexual, ou seja, possui os conjuntos de cromossomos feminino e masculino.

Na série da autora best-seller Sara Shepard, “Pretty little liars”, cujo décimo volume (“Estonteantes”) foi lançado pela Rocco no mês passado, um romance gay surgiu no oitavo livro (”Perigosas”), foi assumido no nono (“Traiçoeiras”), e até hoje segue na trama.

Apesar de a lista indicar uma abertura do mercado brasileiro, ainda são pouquíssimos os autores nacionais que abordam o tema quando escrevem para jovens — e os títulos que existem estão escondidos em pequenas editoras, como a paulistana Brejeira Malagueta. Eles têm dois deles no catálogo: o da blogueira carioca Karina Dias, “Diário de uma garota atrevida” (2012), que conta a história da primeira experiência homossexual de uma jovem de 14 anos; e “Depois daquele beijo” (2012), da pernambucana Rafaella Vieira. Com apresentação de Adriana Falcão, o livro é todo ambientado em Recife, tem citações a bandas indie e conta a história de duas amigas que descobrem o amor na escola.

— Achamos muito interessante a forma como ela retratou a homossexualidade em garotas muito jovens, com pouquíssimos trauma e problemas. É um retrato animador da nova geração, que já se beneficia das mudanças sociais estratosféricas ocorridas nos últimos anos — observa a editora do livro, Laura Bacellar.

Especialista em literatura infanto-juvenil, a crítica literária Lucia Facco desenvolveu o tema em sua tese de doutorado, “Era uma vez um casal diferente: a temática homossexual na educação literária infanto-juvenil”. Para ela, o aumento de livros para adolescentes abordando o tema não deixa de ser uma sacada comercial, mas que de fato reflete uma mudança de comportamento dos leitores e editoras:

— Poucas editoras investiam nesse tipo de publicação porque achavam que a sociedade ainda não estava preparada para novos conceitos de sexualidade. No entanto, hoje há muito mais transparência, com personagens homossexuais em novelas, a imprensa dando grande visibilidade para as manifestações LGBT. As editoras, então, resolveram investir nesses títulos, por perceber que há mercado. Acho importante o surgimento de obras nas quais os leitores homossexuais podem encontrar personagens com quem possam se identificar. Ao mesmo tempo, os leitores heterossexuais têm a oportunidade de se colocar no lugar do outro: o que sofre preconceito, e a partir daí, repensar os seus próprios preconceitos — analisa Lúcia, que chama atenção para os clichês ainda recorrentes no gênero: o do homossexual promíscuo; o incapaz de manter um relacionamento duradouro; o que age de maneira caricata.

Veja direto no O Globo

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