15/07/2014

"UMA NOVA FORMA DE AMAR?" Por Ítalo Damasceno

 
Por ítalo Damasceno
Visto no ótimo: Eu tô ficando é velho, não é doido não!

Uma palavrinha anda atualmente na boca dos que amam, dos que querem amar e dos que gostam de se meter na conversa alheia: POLIAMOR. Segundo o Wikipédia, poliamor é “a prática, o desejo, ou a aceitação de ter mais de um relacionamento íntimo simultaneamente com o conhecimento e consentimento de todos os envolvidos”. Na cabeça de muita gente isso pode significar uma grande bagunça e poucas certezas – como se o amor sozinho não fosse já sinônimo para ambos.
 
Acredito que alguns ao ouvir falar de poliamor se forme logo uma imagem de três ou mais pessoas dormindo numa mesma cama engalfinhados num leito de luxúria e prazer sem limites. A psicanalista e escritora Regina Navarro Lins, em seu O Livro do Amor, traça uma linha histórica da definição do sentimento ao longo da existência humana, chegando até a atualidade e a discussão da possibilidade de relações baseadas no poliamor. Já a grande jurista gaúcha Maria Berenice Dias, conhecida por ser a pioneira em tratar dos direitos das relações homoafetivas, declarou em conversa com um jornalista que o poliamor na verdade já existe há muito tempo, vide às mulheres que os maridos sempre tiveram amantes e elas aceitavam, sobretudo pela condição feminina numa sociedade machista. A desembargadora aposentada também declarou que essa é a nova bandeira pela qual ela pretende lutar no direito brasileiro: os novos modelos de relação afetiva.
 
Aparte de todo o pensamento teórico sobre a questão, surge uma estória sobre alguém em um relacionamento assim. Isto é URÂNIOS, do escritor meu conterrâneo Roberto Muniz Dias. Neste relato acompanhamos os pensamentos e sensações em três momentos diferentes de uma relação baseada no poliamor. O protagonista é o terceiro elemento que se agrega a um casal que já está há dez anos juntos com direito a também ganhar uma aliança igual aos dos outros dois. As dúvidas, desconfortos, surpresas e alegrias se mostram diante dos olhos do protagonista que pouco deixa escapar e tudo analisa e duvida. Os três momentos citados (a relação do protagonista com as outras duas pontas do triângulo, a relação dos três como unidade e a vida sozinha do protagonista depois do fim da relação) se misturam ao longo do livro, lembrando a estrutura de um livro de outro conterrâneo meu, RIO SUBTERRÂNEO, de O. G. Rêgo de Carvalho.
 
Curioso notar com a leitura que, tirando a questão de ter que decidir em qual das camas ele vai dormir à noite e os olhares questionadores de conhecidos e desconhecidos, o caminho mental trilhado pelo narrador da estória é o mesmo que qualquer pessoa em uma relação amorosa. O medo da rejeição, a insegurança de outro alguém se tornar mais interessante para a pessoa amada, o bom de não se ver sozinho em um momento de carência, está tudo lá. Tudo. Roberto Muniz consegue tirar todo o peso do estranhamento e implicar a dor e a delícia de amar e ser amado.
 
Eu só tenho uma crítica a fazer ao personagem narrador: ele às vezes analisa demais as coisas, tentando toda hora explicar alguns momentos que – quem já amou na vida sabe – não tem explicação, o que algumas vezes faz parecer um chato de galochas. Ele poderia relaxar e aproveitar um pouco mais.
Mais do que o que acontece na intimidade dos lares, eu sou mais curioso em saber o que vai acontecer com o poliamor porta afora. Quero ver o poliamor andando de mãos dadas no shopping, tomando sorvete na esquina e, por que não?, armando barraco debaixo da minha janela na alta madrugada. Quero ver minha vizinha carola aconselhando “roupa suja a gente lava em casa” ou “em briga de marido, marido e mulher ninguém mete a colher”.
 
A definição de amor prevalente ainda é a burguesa: um só e eterno. Acontece que o individualismo crescente só tem incentivado as pessoas a viverem como bem entendem independente da aprovação alheia e isso eu não acho mau. Para falar a verdade eu sempre achei que um coração é um espaço grande demais para ser ocupado por uma pessoa só. Afinal
 
“Mundo mundo vasto mundo,
Mais vasto é o meu coração.”
 
PS: O livro pode ser adquirido no site da editora (link).

3 comentários:

eutoficandovelho disse...

É lindo ver minhas palavras de volta à minha antiga casa.

Muito carinho por vocês, meninos.

Beijos

Gay Life Coach Brasil disse...

Foi uma leitura nova, diferente, e as vezes perturbadora. Mas traz uma abertura e libertação inimaginável. “Mundo mundo vasto mundo,
Mais vasto é o meu coração.”

Homorrealidade disse...

Querido Ítalo... A alegria é toda nossa em compartilhar seus textos. Parabéns pela casa nova. Seus posts têm superado todas as expectativas semana após semana. Que sua luz continue iluminando os passos na caminhada. Beijo no seu coração.

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