29/08/2014

"6 desafios que mochileiros gays solitários têm que encarar" Por Marcio Caparica

 
Por Marcio Caparica para o LADO BI
 
Explorar o mundo por conta própria pode ser difícil às vezes, ainda mais quando se considera algumas dificuldades inerentes a homossexuais. Mas isso não é desculpa para ficar em casa
 
Traduzido e adaptado do artigo de Henry Boles para o site Huffington Post
 
Viajar pelo mundo por conta própria é algo desafiador – e muito recompensador – independentemente da orientação sexual. Conhecer novos lugares e se expor a gente nova amplia horizontes, destrói preconceitos e acumula experiências de vida para todos. Mas ser homossexual e cair na estrada sozinho traz um conjunto de problemas que pode ser desconcertante às vezes. Pode ser assustador de vez em quando, mas se mijar de rir durante um bate-papo em inglês tosco com roda de pessoas que mal se conheciam duas horas antes, explorar recantos de cidades europeias e nadar em águas de um azul-mentira que você achava que só existia na computação gráfica faz qualquer perrengue valer a pena. Fazer isso tudo sem ter que fingir ser quem não é, então, tem um gostinho extra de vitória. Antes de pegar o passaporte, confira as dicas abaixo.
 
Você fica mais consciente do que nunca de que você não é dali. Quando você está mochilando, inevitavelmente você vai passar uma noite ou 10 num albergue fuleiro. Você vai encarar louça suja, bebedeiras em excursões pelos bares locais e, vamos ser sinceros, sexo – e muito. Jovens na estrada são bem conhecidos por suas “expressões” agressivas de heterossexualidade. Mais de uma vez eu já acordei à noite com os barulhos e odores de um casal hétero chacoalhando o beliche com tanta intensidade que a cama estava quase desmontando. Ambientes como esses podem ser desconfortáveis se você é gay e está viajando sozinho. É bem capaz que você acabe compartilhando uma mesa com um surfistão loiro australiano “à deriva” que,  em alto e bom tom, descreve para um grupo de garotas inglesas quantas minas ele traçou em Ibiza, e se pegue pensando “será que eu consigo entrar nessa roda?”.

Você tem que sair do armário de novo e de novo e de novo. Contar para seus amigos e familiares que você é gay é uma experiência recompensadora, mas, como qualquer homossexual bem sabe, muitas vezes não é fácil. Quando você está viajando, você vai ter que passar por esse processo semana sim e outra também. Esteja preparado para conversas levemente constrangedoras com garotas (ou garotos) que estavam secando você do outro lado do bar, ou a possibilidade de que um grupo de 10 “bróders” que jogavam rúgbi juntos na escola de repente comecem a tratar você diferente porque – você sabe – isso é “esquisito”. Claro que isso não acontece o tempo todo. A maior parte dos seus colegas de viagem não vai achar nada demais ao saber da verdade, mas o estresse de fazer isso tantas vezes em pouco tempo pode ser cansativo.

Encontrar outros gays pode ser difícil. Uma parte importante do que faz viagens algo tão fenomenal são as quantidades imensas de pessoas que você encontra e, consequentemente, as possibilidades ilimitadas de interação social. Infelizmente, a não ser que você esteja no Grindr, Hornet, Scruff ou quaisquer outras das redes sociais do tipo que mataram os bares gays, pode ser difícil encontrar colegas que compartilham de sua atração pelo mesmo sexo. Em primeiro lugar, porque os gays tendem a mochilar bem menos que os héteros – talvez por causa das razões listadas nesse artigo; depois, qualquer um que você encontre por intermédio de uma rede social gay vai ter em mente, antes de mais nada, a possibilidade/probabilidade de sexo. O que, apesar de ser algo muito atraente para alguns, pode ser frustrante para outros.
 
O risco de ser possivelmente hostilizado. Apesar da atitude quanto às relações homoafetivas terem melhorado em todo o globo nos últimos 20 anos, ainda há alguns países em que a homossexualidade é algo que pode ser punido com pena de morte. Mesmo em países em que as atitudes não são tão extremas, as pessoas podem ser bem conservadoras quanto à homossexualidade, e podem não aceitar com tranquilidade demonstrações públicas de afeto. Em algumas localidades, como Dubai, por exemplo, é possível encontrar comunidades de gays que se reúnem em quartos de hotel e outros lugares secretos em tentativas desesperadas de socializarem livremente. Confira o mapa abaixo se você estiver em dúvida se o país que você vai visitar é seguro para você ou não.

 
 
     Casamento homoafetivo      Liberdade de expressão restrita      Outro tipo de parceria ou cohabitação não-registrada      Penalidades não-aplicadas      Casamento reconhecido mas não realizado      Prisão      Casamento reconhecido federalmente mas não realizado      Penas de até prisão perpétua      Uniões homoafetivas não reconhecidas      Pena de morte
World laws pertaining to homosexual relationships and expression” by Various (Initial version by Silje) Licensed under CC BY-SA 3.0 via Wikimedia Commons.
Você pode se sentir uma cobaia. Depois de você ter saído do armário (mais uma vez) para seus novos amigos, é bem possível que você acabe sendo recrutado por uma garota que “nunca teve um melhor amigo gay na vida mas está morrendo de vontade de cair na farra” ou o clássico “carinha tímido” que, depois de beber alguns drinques, de repente começa a dar pinta e começa a dizer para você, com a voz meio enrolada, que “de repente transaria com um cara se estivesse muito bêbado”. Sim, viajar ensina muito às pessoas sobre elas mesmas, e sim, isso muitas vezes acontece quando se experimenta algo novo, mas nã0 – não é só porque você é alguém mais bem resolvido que tem que se dispor a servir de alvo para quem está querendo “ver como é”. Quando você se joga na estrada você ganha o direito de se ocupar, antes de mais nada, com suas próprias experiências.

Você pode ter dificuldade em ter acesso a serviços de saúde sexual. Se você é um mochileiro que acabou de se entender com a sua sexualidade, é bem possível que você esteja querendo tirar o atraso. Mas como grandes farras vêm grandes responsabilidades, então esteja preparado – se você cair em comportamento de risco enquanto você está viajando, é bem possível que você tenha que juntar toda sua coragem e se fazer explicar para uma enfermeira húngara, que não fala nada de inglês (e muito menos português), que você está, assim, apreensivo. Conseguir um coquetel pós-exposição pode ser uma aventura maior que qualquer outra façanha que você tenha tido até então. Acredite em alguém que já passou por isso. É sempre bem mais sábio levar o equipamento da transa – preservativos, gel, etc – já de casa: em outro país você não sabe quais marcas prestam ou não, e mesmo encontrar (e reconhecer) esse tipo de apetrecho no exterior pode ser uma tarefa complexa.

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