05/08/2014

"Deu a louca na América" Por Paulo Nogueira

Por Paulo Nogueira* para  O Estado de S. Paulo
 
Lanterna Verde se assumiu gay e casou com outro homem de papel passado e tudo

Embasbacados americanos assistiram nos últimos dias a dois de seus maiores heróis de quadrinhos mudarem - de cor e de sexo
 
Há muito tempo os americanos não viviam dias tão inusitados, empoleirados numa espécie de montanha-russa histórica. Em pouco mais de uma semana, viram o PIB nacional cravar atléticos 4% no segundo trimestre. Testemunharam a bíblia jornalística do país - o New York Times - postular solenemente, em editorial, a legalização da maconha. E por último - mas para muitos de longe o mais importante - assistiram às inopinadas transfigurações de dois de seus heróis mais icônicos. Sim, o Tio Sam está com as barbas de molho.
 
Primeiro foi nem mais nem menos que o Capitão América, simplesmente o paladino epônimo dos EUA, o guardião da pax americana desde a 2ª Guerra Mundial. Sob a persona do soldado Steve Rogers - deliberadamente um homem comum, avatar do americano médio da maioria silenciosa -, ele nasceu embrulhado numa plumagem de riscas e estrelas vermelhas e brancas, dando um passa-fora nos pérfidos nazistas. Munido de seu escudo-bumerangue, chegou a salvar a pele de um político em início de carreira, um certo John Fitzgerald Kennedy. Congelado e descongelado, continuou causando e bombando - por vezes literalmente - na era da internet.
 
Agora a Marvel Comics (a ala de histórias em quadrinhos da Marvel Entertainment) anunciou que Steve Rogers, cuja energia vital foi sugada pelo vilão Iron Nail e envelheceu 60 anos em um piscar de olhos, pediu para sair. No lugar dele adentrará o gramado seu velho cupincha Sam Wilson, que já fazia uns bicos como outro super-herói, o Falcão. Acontece que Sam Wilson é negro como a asa da graúna.
 
Capitão América Negro
 
Para muitos fãs, esse solavanco é bem mais sísmico na iconografia de um herói do que o próprio voo para fora do armário do Lanterna Verde. Em 2012, esse personagem da DC Comics (a grande rival da Marvel) não apenas se assumiu como gay no segundo número do gibi Earth 2 como casou com outro homem de papel passado e tudo. Embora a mídia do movimento LGBT falasse numa “explosão do orgulho arco-íris”, as reação pró e contra até que foram comedidas. Talvez pelo fato de que a heterossexualidade de heróis eternamente “noivos”, que viviam com garbosos efebos protégés (como o Robin do Batman), soasse tão plausível quanto o coelhinho da Páscoa. O comediante gay Adam Sank pôs os pingos nos is: “O Lanterna Verde é um homem-melancia: verde por fora e rosa por dentro”.
 
Há também 60 anos, Ralph Ellison (o maior escritor afro-americano da história dos EUA e um dos maiores em qualquer pigmento) abria assim sua obra-prima, O Homem Invisível (que, incidentalmente, também soa como nome de um super-herói): “Sou um homem invisível. Não, não sou um espectro como aqueles que assombravam Edgar Allan Poe, nem um ectoplasma do cinema de Hollywood. Sou um homem com substância, de carne e osso, fibras e líquidos, e talvez até se possa dizer que possuo uma mente. Sou invisível - compreende? - simplesmente porque as pessoas se recusam a me ver”.
 
Bem, nada como uns 60 anos depois dos outros: hoje, o homem invisível cumpre seu segundo mandato na Casa Branca, e milhões dos que não o queriam ver nem pintado votaram alegremente nele. Aliás, o mesmo Barack Obama que, por ocasião da revelação do Lanterna Verde, declarou: “Sou a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo”. E agora um afro-americano acaba de envergar o escudo da quintessência do patriotismo ianque, o Capitão América.
Por enquanto, é bem verdade, apenas nos quadrinhos. No cinema, a solo e na bilionária franquia Os Vingadores - onde se acotovela com seus pares Homem de Ferro, Hulk e Thor -, o Capitão América continuará caucasiano pelo menos por mais um filme, interpretado pelo ator Chris Evans. Mas, Ei!, foi você que falou em Thor?
 
Então sente-se para não cair: o loiríssimo super-herói, oriundo da mitologia escandinava, sofreu uma metamorfose ainda mais mirabolante: simplesmente virou mulher. Acontece que o martelo sagrado de Thor - chamado Mjolnir, fonte dos poderes sobrenaturais e um óbvio símbolo fálico -, esnobou seu proverbial portador. Na próxima aventura, programada para outubro e sugestivamente intitulada Pecado Original, a ferramenta será encontrada, empunhada e brandida por uma mulher, cuja identidade ainda permanece sigilosamente incógnita. Não importa sequer que o cabo da arma contenha a seguinte inscrição chauvinista: “Quem quer que cinja este martelo, se ELE for digno disso, possuirá os poderes de Thor”. E daí? “Já passou da hora de reciclarmos essa inscrição”, arrulha um executivo da Marvel. Afinal, são muito mais numerosos os meninos que as meninas entre os leitores de aventuras de super-heróis - e talvez convenha parar de alienar 50% do mercado.
 
Portanto, sai um deus e entra uma deusa em todo seu esplendor. No panteão nórdico, Thor é a divindade dos trovões e das tempestades. Desde o período pagão, patrocinou um dia da semana (o dia de Thor ou thursday, quinta-feira), que se perpetuou em inglês até o calendário atual.
 
Também há quase seis décadas, Betty Friedman publicou o missal do feminismo contemporâneo, A Mística Feminina. A autora, branca e instruída, dependia financeiramente do marido e vivia num aprazível casarão de 15 cômodos sobre o Rio Hudson, em Nova York. Sob qualquer parâmetro material, ela era um dos seres humanos mais privilegiados do planeta. No livro, porém, Friedman formulava a pergunta que não queria calar sobre a condição da mulher ocidental: “É só isso?”.
 
Em 2009, quando a Disney adquiriu a Marvel por US$ 4 bilhões, houve sucessoras da decana feminista que resmungaram: “Estão vendo só? A Disney vende princesas para meninas e agora comprou a Marvel para dar heróis aos meninos”. Ora, na mesmíssima semana em que uma donzela se prepara para subtrair o avantajado instrumento de um dos supremos titãs do imaginário globalizado, uma pesquisa acadêmica respondeu a Betty Friedman: não, parece que já não é só isso.
 
Um estudo da Universidade de Wisconsin, que analisou o destino de milhares de casais americanos que se casaram entre 1950 e 2014, revelou uma tendência: hoje os matrimônios são mais longevos se os membros do casal tiverem o mesmo nível educacional. Ao contrário, entre 1950 e 1979 os casamentos em que as mulheres detinham um nível educacional superior ao do marido indicavam um risco maior - 34% - de acabar em divórcio. E, apesar do advento do feminismo, o modelo durou pelo menos até o final dos anos 1980. Foi preciso chegar à década de 1990 para descobrir a primeira geração de homens que casou de forma feliz com mulheres tão ou mais inteligentes que eles. “Os casais dos anos 1990 estão entre os primeiros para os quais a educação da mulher deixou de estar associada a um risco maior de separação”, explicam os pesquisadores. Ou seja: já não é das loiras bobinhas que gostamos mais.
 
Do ponto de vista narrativo, um argumento mais penetrante e sutil sobre as mutações de Thor e do Capitão América foi esgrimido pela colunista do Washington Post Alexandra Petri. Depois de observar que, como leitora e heterossexual, ela “era Macbeth e não Lady Macbeth, era Darth Vader e não a Princesa Leia”, Alexandra lembra que a identificação com o protagonista “não depende do cromossoma X ou Y, mas sim de sua densidade e carisma. Eu já fui a Chapeuzinho Vermelho, um sapo e um rei da Guerra de Troia, tentando voltar para sua querida ilha de Ítaca e para sua Penélope”.
Alexandra Petri está coberta de razão até o cocuruto. É precisamente por aquele motivo que Ítalo Calvino realçou a perenidade de certas histórias e personagens: “Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”.
 
Daí que, depois de o negro deixar de ser o homem invisível e se apoderar da efígie do Capitão América e das chaves da Casa Branca, nada mais natural que uma mulher bata o martelo de Thor - e eventualmente Hillary Clinton suceda Barack Obama. Ou até, quem sabe, uma americana nascida em Jersey mas de origem paquistanesa, como Kamala Khan, a Ms. Marvel, primeira heroína muçulmana da editora, criada este ano. Ah, antes que me esqueça: a Marvel anunciou ainda que a armadura do Homem de Ferro também vai mudar. Perfeitamente lógico: afinal, para alguns, nesta semana os EUA andaram mesmo com um parafuso a menos.
 
*Paulo Nogueira, jornalista, é autor de 'O amor é um lugar comum' (Intermeios)

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